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segunda-feira

Nona Noite, Mil e Uma Noites


Nona Noite
Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI NA NONA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, ó Rei, que a feiticeira apanhou um pouco de água do lago e pronunciou sobre ela algumas palavras misteriosas. Então os peixes começaram a se agitar e levantaram a cabeça, tornando a ser filhos de Adão, naquela hora e naquele instante, e desapareceu a magia que se erguera contra os habitantes da cidade. E a cidade transformou-se num lugar florescente, com seus bem construídos e cada habitante recomeçou a exercer seu ofício. E as montanhas se transformaram em ilhas, como outrora. E eis tudo, com respeito a eles!
Quando a jovem voltou imediatamente para junto do rei, sempre acreditando que se tratava do negro, disse-lhe: “Meu querido, dá-me tua mão para que a beije!” E o rei respondeu: “Aproxima-te mais de mim!” E ela se aproximou. De repente, ele agarrou sua espada e lhe atravessou o peito, tão bem que ela saiu pelas costas. Depois tornou a ferir, cortando-a em duas metades.
Isso feito, saiu e encontrou o jovem enfeitiçado, que o esperava, de pé. Então, cumprimentou-o e congratulou-se com ele pela sua libertação. E o jovem beijou-lhe a mão e agradeceu-lhe com efusão. Em seguida o rei disse: “Queres ficar na tua cidade ou vir comigo?” E o jovem lhe falou: “Ó Rei, sabes que distância há daqui a tua cidade?” E o rei falou: “Dois dias e meio.” Mas o jovem falou: “Ó rei, estás adormecido, acorda! Daqui para a tua cidade levarás um ano inteiro, com a vontade de Alá. Vieste aqui em dois dias porque a cidade estava enfeitiçada. Alias, eu, ó Rei, não te deixarei sequer pelo tempo de um bater de pálpebras!” E o rei ficou feliz ao ouvir essas palavras e disse: “Louvores a Alá que houve por bem colocar-te em meu caminho. Porque de agora em diante tu és meu filho, pois que Alá até aqui nunca me concedeu um filho!”
Em seguida, puseram-se a caminhas até ao palácio do rei jovem que tinha sido encantado. E o rei jovem anunciou aos notáveis de seu reino que ia partir para uma santa peregrinação à Meca. Então foram feitos os preparativos e ele e o sultão partiram, porque o coração do sultão ardia por sua cidade, de onde estava ausente há um ano. Puseram-se a caminho levando cinqüenta mamelucos carregados de presentes. E não cessaram de viajar dia e noite durante um ano inteiro, até se aproximarem da cidade do sultão.
Então o vizir saiu com os soldados ao encontro do sultão, depois de ter desistido de tornar a vê-lo. Os soldados se aproximaram e beijaram a terra diante dele, desejando-lhe boas vindas. E ele entrou no palácio e sentou-se no trono. Depois chamou o vizir e contou-lhe o que tinha acontecido. Quando o vizir tomou conhecimento da história do jovem, fez-lhe cumprimentos pela sua libertação e salvação.

Nesse entretempo, o sultão gratificou muitas pessoas, depois disse ao vizir: “Traze aqui o pescador que me trouxe os peixes.” E o vizir mandou buscar o pescador que fora a causa da libertação dos habitantes da cidade. E o rei fez que ele se aproximasse e presenteou-o com trajes de honra e interrogou-o sobre sua vida, perguntando-lhe se tinha filhos. E o pescador disse ter um filho e duas filhas. Então o rei casou-se com uma das filhas e o jovem com a outra. Depois o rei conservou o pai junto dele, nomeando-o tesoureiro-chefe. Em seguida, enviou o vizir à cidade do jovem, situada nas Ilhas Negras, nomeando-o sultão, e mandou com ele os cinquenta mamelucos que antes o haviam acompanhado, carregados de muitas roupas de honra para os emires. Aí o vizir beijou-lhe as mãos e saiu para a viagem. E o sultão e o jovem continuaram a morar juntos, felizes com as esposas, numa vida de tranquilas delícias e frescor no coração. Quanto ao pescador, tornou-se o homem mais faustoso de seu tempo. e foi nesse estado que, depois de muitos anos fartos, veio visitá-los a Separadora dos amigos, a Inevitável, a Silenciosa, a Inexorável: a Morte!

O falcão do rei de Furs, Mil e Uma Noites


O falcão do rei de Furs
Mil e Uma Noites

Contam que o rei de Furs era grande amigo de divertimentos, de passeios e de todo tipo de caça. Possuía um falcão treinado por ele próprio que não o abandonava nenhum momento. Mesmo durante a noite, o rei o trazia preso ao seu punho. Quando ia à caça, levava consigo. No pescoço dessa ave, tinha mandado pendurar uma vasilha de ouro, onde lhe dava de beber. Um dia, em seu palácio, o rei viu, subitamente, chegar o encarregado dos bosques e florestas.
Disse-lhe esse encarregado:
— Ó rei, estamos de novo na época das caçadas!
— Isso me deixa muito feliz! — exultou o rei e começou a fazer os preparativos para a partida.
No dia seguinte, com o falcão em seu punho, partiram, rumando para um vale, onde estenderam as redes de caça. Repentinamente, uma gazela ficou presa na rede.
Então o rei alertou:
— Matarei aquele que deixá-la escapar!
Começaram a puxar a rede em torno da gazela, que se acercou do rei, ergueu-se sobre as patas traseiras, encolhendo junto do peito as patas dianteiras. Nisso o rei bateu as mãos uma contra outra, espantando a gazela, que saltou e fugiu, passando-lhe por cima da cabeça e desaparecendo no meio das árvores.
O rei se voltou para os guardas e viu que eles piscavam os olhos uns para os outros, referindo-se a ele, o rei. Percebendo isso, perguntou ao grão-vizir:
— Que têm os soldados?
O grão-vizir respondeu:
— Eles dizem que tu juraste matar quem quer que deixasse escapar a gazela!
Falou o rei, em seguida:
— Pela minha cabeça, precisamos perseguir aquela gazela e trazê-la de volta!
Começou a galopar, seguindo a pista do animal. Libertou o falcão, incitando-o a perseguir a presa. O falcão rapidamente a localizou e, num voo rasante e certeiro, atirou-se sobre a gazela, enterrando-lhe o bico aguçado nos olhos, cegando-a. O rei apanhou seu bastão, bateu no animal, fazendo-o rolar. Desceu resolutamente, degolou-a, esfolou-a e prendeu a caça a sua sela.
Fazia calor e o local era árido e sem água. O rei teve sede e cavalo também. Olhando ao redor, o monarca viu uma árvore de onde escorria um líquido parecido com manteiga. O rei tinha a mão coberta com uma luva de pele, onde pousava o falcão. Apanhou a vasilha do pescoço da ave, encheu-a com aquele líquido e colocou-a diante do falcão. Inesperadamente, o animal, com um golpe de uma de suas garras, entornou-a. O rei apanhou a taça pela segunda vez, encheu-a, imaginando que a ave também tinha sede, mas o falcão, pela segunda vez, entornou-a.
O rei ficou enraivecido com o falcão e deu-lhe o líquido pela terceira vez. O falcão novamente o entornou e o rei disse:
— Que Alá te enterre, ave infernal!
Dizendo isso, feriu o falcão com sua espada, cortando-lhe as asas. O falcão ergueu a cabeça e sinalizou para o rei:
— Olha o que há sobre a árvore! — queria ele dizer.
O rei levantou a cabeça e viu uma serpente monstruosa na árvore. O que escorria era seu veneno. O rei, arrependido de ter cortado as asas do falcão, levantou-se, tornou a montar a cavalo e partiu levando a gazela. Mandou o cozinheiro preparar a gazela, depois se sentou no seu trono, tendo o falcão no punho. Percebeu, então, que a luva que vestia estava empapada de sangue. Imaginou que fosse da corça, mas, ao observar o falcão, percebeu as pelas coladas a pele pelo sangue que escorria dos ferimentos.
— Meu amigo, você não pode morrer! — lamentou o rei, apertando a ave junto ao peito.

O falcão, às portas da morte, apontou a taça que trazia ao pescoço e fez sinais para que o rei a enchesse de vinho. Aflito, o rei assim o fez, aproximando-a do bico da ave. Novamente o falcão fez sinais, dando a entender ao rei que desejava que este tomasse o primeiro gole. O rei o atendeu, bebendo um gole do vinho, depois voltou a oferecer o vinho ao falcão, que soltou um longo soluço e morreu. Vendo aquilo o rei soltou gritos de luto e aflição por ter matado o falcão que o salvara da morte. Sentiu um aperto no coração, mas estava por demais concentrado em seu sofrimento para perceber que o resto do veneno da serpente, que ficara na taça, o estava matando.

O belo adolescente triste, Mil e Uma Noites


O belo adolescente triste
Mil e Uma Noites


Fica sabendo, ó meu irmão, que eu também sou filho de rei, e minha história é tão incomum que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos serviria de lição a toda pessoa que gosta de se auto aperfeiçoar. Nasci na terra de Kabul onde meu pai, Tigamos, é rei. Ao mesmo tempo poderoso e justo, ele tem sob sua suserania sete reis tributários. Desde a minha infância, meu pai cuidou que fosse instruído nas ciências, nas artes e nos desportos, de maneira que aos quinze anos já era considerado um dos cavalheiros mais finos do reino. Dirigia as caçadas e as corridas, sentado no meu cavalo, mais veloz que um antílope. Certo dia, durante uma caçada, ao crepúsculo, vi a poucos passos uma gazela airosa que, ao me ver, fugiu como uma flecha. Segui-a com meus sete mamelucos até que chegamos a um rio caudaloso onde esperávamos acuá-la e prendê-la. Ela, porém, se jogou no rio e nadou com velocidade até a outra margem. Apeamos sem demora, confiamos nossos cavalos a um dos mamelucos, saltamos num barco de pescar que estava lá e fomos em perseguição à gazela. Mal atingimos o meio do rio, perdemos o comando da embarcação e fomos levados pela correnteza. Passamos assim aquela noite e o dia seguinte, incapazes de controlar a violência da água e do vento, receosos, a cada minuto, de bater contra alguma rocha e morrer afogados. Foi só na manhã do segundo dia que conseguimos desembarcar numa terra coberta de árvores e atravessada por um córrego. Mas um homem refrescava os pés no córrego. Quando nos viu, pulou, e seu corpo dividiu-se em dois na altura da cintura. Somente a metade superior veio a nós. De repente, de todos os cantos do jardim, apareceram outros homens iguais a ele. Jogaram-se sobre três mamelucos e começaram a comê-los vivos. Eu e os três outros pulamos no barco, preferindo ser engolidos pela água do que por aqueles monstros. Dois dias depois, desembarcamos novamente numa terra coberta de árvores frutíferas e flores aromáticas. Percorrendo este novo asilo, chegamos a um palácio vazio, com pavilhões de cristal. Entramos. Na sala principal, havia um trono de ouro. Sentei-me nele. Mas logo ouvimos um barulho parecido com o tumulto do oceano e vimos uma procissão entrar no palácio, composta de emires, vizires e outros notáveis, todos eles macacos. Uns eram anões; outros, gigantes. O vizir, um macaco de estatura enorme, veio até mim, inclinou-se respeitosamente e informou me, numa voz humana, que seu povo me reconhecia como rei e meus três mamelucos como comandantes do exército. Informou-nos também que estavam prestes a atacar seus vizinhos e inimigos, os Ghuls. Não tínhamos escolha. Montamos em três cães enormes que nos trouxeram e encabeçamos a marcha das forças armadas. E chegamos logo à terra dos Ghuls, os seres mais horrendos que já vira. Alguns tinham cabeças de touro e corpos de camelo. Outros eram como hienas. Outros tinham formas tão estranhas que não se assemelhavam a nada que conhecêssemos. Quando os Ghuls nos viram, arremessaram sobre nós uma chuva de pedras, às quais nosso campo respondeu da mesma forma numa batalha terrível. Eu e meus mamelucos usamos nossos arcos e matamos muitos Ghuls, o que nos assegurou a vitória e encantou meus novos vassalos. Incompreensivelmente, esses vassalos me abandonaram após a vitória. E, montado no meu cão, recomecei a errar naquela terra desconhecida. Um dia, cheguei à cidade dos judeus, que viviam lá desde o tempo de Soleiman. Ao entrar, ouvi um pregoeiro gritar: "Quem quiser ganhar mil libras de ouro e uma jovem escrava, trabalhando apenas uma hora, que me siga." Segui-o. Na realidade, era o único a segui-lo. Levou-me a um velho judeu que me recebeu com muita simpatia, deu-me um saco contendo mil peças de ouro e me apresentou a uma jovem de grande beleza. - Fica com ela três dias e três noites, disse-me. Depois, irás fazer o trabalho pelo qual estás sendo pago. A moça era virgem. Passei com ela as únicas horas felizes de minha vida. No terceiro dia, o velho judeu deu-me uma mula e uma faca e disse-me: "Mata esta mula e separa-lhe a pele do corpo." Obedeci. Então, disse-me: "Deita sobre esta pele e junta-a em volta de teu corpo. Um abutre gigante vai levar-te no seu bico até o cume de uma montanha. Deixa-te levar sem esboçar um movimento - senão serás morto na hora."No alto da montanha para onde o abutre me levou, encontrei um palácio sumptuoso e alguém esperando por mim na porta. "Descansa e diverte-te neste palácio, entrando nos aposentos que quiseres com uma única excepção: o aposento que abre com esta chave de ouro," disse-me o homem. E partiu. Passei dias naquele palácio vazio, lutando contra a tentação de abrir a porta proibida. No fim, minha curiosidade prevaleceu. Abri a porta proibida. Havia lá uma piscina e quatro moças nuas tomando banho, como se quatro luas se estivessem refletindo na água. Apaixonei-me por uma delas, denominada Chams, Sol. Esperei até que estivessem todas dentro da piscina e, correndo mais rapidamente que a luz, apanhei a roupa da jovem que amava. Disse-me: "Adolescente bonito, como ousas apoderar-te do que não te pertence?" Respondi: "Minha pomba, sai da água e vem falar comigo." Respondeu com suavidade: "Luz de meus olhos, se fizer o que me pedes, estarei plantando uma faca no meu próprio coração." Assim mesmo, consegui pegá-la e levá-la até o trono de rubi que estava lá. Vendo que não poderia escapar, cedeu a meus desejos e, pondo seus braços em volta de meu pescoço, deu-me beijo por beijo e carinho por carinho, enquanto suas irmãs sorriam para nós e vigiavam para que não fôssemos surpreendidos. Momentos depois, meu velho protetor abriu a porta e entrou. Levantamo-nos em sua homenagem. E ele dirigiu a cada um de nós dois palavras carinhosas e incentivou-nos a nos casar, dizendo a Chams: "Minha filha, este moço que te adora é de ilustre linhagem. Seu pai é um rei. Farás bem em aceitá-lo por esposo e eu persuadirei teu pai, rei Nasr, a abençoar-vos." - Ouço e obedeço, disse a moça. No dia seguinte, apresentou-me ao pai, o rei Nasr, dono dos génios, o qual me abraçou e ordenou grandes festas para celebrar o casamento. Mandou também confeccionar um trono tão vasto que, nos seus degraus, podiam ficar em pé duzentos génios machos e duzentos génios fêmeas. Sabendo que meus pais estavam ansiosos por minha volta, mandou um exército inteiro de génios levantar o trono em que minha mulher e eu estávamos sentados e carregá-lo através do espaço até o palácio de meu pai em Kabul. A viagem, que leva normalmente dois anos, foi feita em dois dias. Meus pais regozijaram-se e celebraram minha volta e meu casamento com festas mais sumptuosas que tudo que tinha sido visto até então. No fim do ano, que passou como uma primavera, minha mulher quis rever seu pai e mãe. Concordei alegremente; mas, para minha infelicidade, foi uma viagem azarenta. Subimos em nosso trono e nossos Afarit carregaram-nos. Viajávamos de dia e descansávamos de noite. Uma noite, Chams quis tomar banho num belo rio onde paramos. Tentei dissuadi-la, mas insistiu. Estava no meio da água com suas escravas como a lua no meio das estrelas quando lançou um grito lancinante e caiu morta. Uma serpente das águas, particularmente venenosa, a mordera no calcanhar. Vendo Chams morta, desmaiei. E fiquei tanto tempo desmaiado que julgaram-me morto. Mas, ai de mim, eu devia sobreviver à minha amada para chorá-la e construir-lhe o túmulo que vês. Quanto a esse segundo túmulo, é o meu próprio. Aqui vivo, chorando e rememorando com nostalgia os anos que passamos juntos enquanto se esgota o tempo insuportável que me separa do dia em que dormirei para sempre ao lado de Chams, longe do reino a que renunciei, longe do deserto deste mundo. Nasceste de barro e viraste homem. E aprendeste a retórica e as ciências. Depois, morreste e voltaste à terra como se tivesses sido sempre barro.

Um califa estranho, Mil e Uma Noites


Um califa estranho
Mil e Uma Noites

Conta-se que, certa noite, o califa Harun Ar-Rachid, sofrendo de insónia, mandou chamar seu vizir Jafar Al-Barmaki e seu guarda-costas Masrur e disse-lhes:
- Tenho o coração oprimido. Para me distrair, gostaria de errar pelas ruas de Bagdá e chegar ao Tigre.
Imediatamente, vestiram-se todos de mercadores e andaram até o rio. Lá encontraram um barqueiro velho e disseram-lhe:
- Ó velho, eis um dinar. Poderias levar-nos no teu barco pelo rio para gozarmos o frescor da brisa?
- Qual é o objetivo de vosso pedido, senhores? E qual é a graça? Não conheceis as ordens? "É proibido a grandes e pequenos, jovens e velhos, nobres e plebeus, navegar no Tigre. Quem desobedecer terá a cabeça cortada." Não vedes o barco do califa dirigindo-se para cá?
Surpresos, perguntaram-lhe: "Estás certo de que o próprio califa está no barco?"
- Existe alguém em Bagdá que não conhece o califa Harun Ar-Rachid? Sim, é ele que está no barco com seu vizir Jafar e o portador de sua espada, Masrur. Harun Ar-Rachid, que nunca dera as ordens mencionadas e ficara afastado do rio o ano todo, interrogou Jafar com os olhos.
O vizir, que estava igualmente intrigado, disse ao barqueiro: "Eis dois outros dinares. Leva-nos até aquela sombra para que possamos ver o califa sem sermos vistos."
Após alguma hesitação, o barqueiro levou-os e escondeu-os por baixo de um arco. De lá viram o barco real passar com luzes, movimentos e escravos dançando e cantando.
Num trono de ouro sentava-se um jovem, sumptuosamente vestido, e tendo à sua direita um homem estranhamente parecido com Jafar e, à sua esquerda, o suposto Masrur, segurando uma espada nua. velho, perguntou o califa ao barqueiro, tens certeza de que o califa passeia no rio nesse barco iluminado todas as noites?
- Ele tem feito isso todas as noites nos últimos doze meses.
– Somos estrangeiros nesta cidade, disse o califa, e gostamos de ver coisas curiosas. Se eu te der dez dinares, esperarás por nós amanhã aqui nesta hora?
O barqueiro agradeceu e prometeu ser fiel ao compromisso. Na noite seguinte, os três dignitários voltaram e, levados pelo barqueiro, esconderam-se debaixo do arco e observaram o barco iluminado passar.
- Ó vizir, disse Harun Ar-Rachid, nunca teria acreditado no que estou vendo se me tivessem contado.
E virando-se para o barqueiro, disse-lhe: "Eis outros dez dinares. Segue aquele barco e não tenhas medo de ser visto, pois estamos na escuridão e eles, em plena luz. Gostaríamos de ver aquela iluminação de mais perto e por mais tempo."
Logo depois, viram o falso barco real atracar e seus ocupantes desembarcarem e entrarem num grande parque onde se puseram a cantar, dançar e divertir-se. O califa e seus dois companheiros também desembarcaram, entraram no parque e se misturaram com os outros. Mas alguém reconheceu-os como estranhos ao grupo e levou-os até o pseudo califa.
Perguntou-lhes o califa: "Como e por que viestes aqui?"
Responderam: "Somos mercadores estrangeiros que visitamos esta cidade pela primeira vez. Estávamos passeando e entramos neste parque sem saber que era proibido entrar nele."
- Já que sois estrangeiros, sede nossos hóspedes, disse o estranho califa. Senão, teria que mandar cortar-vos a cabeça.
O convite foi aceite e entraram todos num palácio tão sumptuoso quanto o palácio do califa. A festa prosseguiu com danças, canções, bebidas e guloseimas. No lado direito do salão, uma porta abriu-se e dois negros entraram carregando sobre as espáduas um trono de marfim no qual sentava-se uma jovem escrava tão brilhante quanto o sol. Estava tocando alaúde e cantando: Como pudeste encontrar a paz quando eu estava longe e infeliz? Como pudeste encontrar bálsamo quando eu estava perto e partindo? Ai de mim! Vazio está o quarto perfumado onde espera em vão nossa cama colorida. E vazia está a sala de mármore onde morrem os ecos das canções de amor.
Assim que o falso califa ouviu esta canção, rasgou a roupa e desmaiou. Harun Ar-Rachid e seus companheiros repararam que seu corpo estava coberto de marcas de flagelo.
- Pena que um jovem tão bonito carregue esses estigmas que o denunciam como um criminoso fugitivo, disse o califa. Mamelucos apressaram-se em acordar o jovem e cobri-lo com vestidos tão suntuosos quanto os que rasgara.
- Pergunta-lhe a causa dessas marcas, pediu o califa a Jafar. Mas Jafar opinou que seria melhor não se precipitar para não despertar suspeitas.
- Pergunta, insistiu o califa. Senão teu corpo estará buscando uma cabeça quando voltarmos ao palácio.
Jafar obedeceu. O jovem sorriu e disse: "Já que sois estrangeiros, contar-vos-ei minha história. Ela é tão estranha que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, serviria de aula a quem gosta de instruir-se."
E começou: "Meus senhores, eu não sou o Comandante dos Fiéis, mas apenas Mohamed-Ali, filho do síndico dos joalheiros de Damasco. Quando meu pai morreu, legou-me muito ouro e prata, inúmeras pérolas, rubis e esmeraldas. Legou-me também edifícios, terras, jardins, lojas e este palácio com seus escravos e escravas. "Um dia, estava na minha loja quando vi apear de um cavalo ele arreado uma jovem de beleza lunar. Entrou acompanhada de seus servidores, e perguntou-me: Não és Mohamed-Ali o joalheiro?" Respondi: "Não sou apenas Mohamed-Ali. Sou também teu escravo." "- Terias algum adorno bonito que possa agradar-me? "Mostrei-lhe os mais belos colares que tinha. Nenhum lhe agradou. Lembrei-me então que meu pai comprara certa vez um colar de inigualável beleza que guardara num cofre especial. Trouxe-o. Assim que a jovem o viu, exclamou: `É este o colar, quanto custa? que sempre procurei. "-Meu pai pagou 100 mil dinares por ele. Se te agrada, terei prazer em oferecer-te de graça. "- Aceito-o pelo preço original e mais 5 mil dinares a título de juros, replicou a jovem com um sorriso. Por favor, traze-o até minha residência e lá receberás o preço. "Mandei meus escravos fecharem a loja e segui-a. "Quando cheguei, esperava-me no seu aposento sem véu, sentada num trono de ouro, com meu colar em volta de seu pescoço. Vendo-a assim, senti meus miolos fundirem e a fortaleza de meu coração desmantelar-se. "A senhora acenou a suas escravas para que saíssem, veio até mim e disse: `Mohamed-Ali, luz de meus olhos, amo-te; e tudo que fiz hoje era apenas uma manobra para trazer-te até aqui. "Deixou-se cair nos meus braços, banhando-me no langor de seus olhos. Beijei-a, enquanto ela empurrava seus seios contra mim. Compreendi que não devia recuar e quis fazer o que tinha que ser feito. Mas no momento em que o menino, já completamente acordado, clamava lascivamente pela mãe, a jovem disse-me: Que pretendes fazer com ele, meu senhor? Guarda-o, porque minha casa não está aberta. Alguém terá que quebrar a porta. Se pensas que estás lidando com alguma mulher comum, desengana-te. Sou a filha de Yahia Ibn Khalid AI-Barmaki, irmã do vizir Jafar. E sou virgem.' ao ouvir essas palavras, meus senhores, mandei o menino voltar para seu sono e desculpei-me por ter desejado que ele participasse da hospitalidade estendida a seu pai. "- Nada tens que lamentar, disse a moça. Chegarás ao que queres, mas pelo caminho legal. Gostarias de casar-te comigo? "Respondi que nada me agradaria mais. Imediatamente, mandou chamar o cádi e as testemunhas e declarou-lhes: Eis Mohamed-Ali, filho do síndico. Pediu-me em casamento e ofereceu-me este colar por dote. Aceitei e consinto. Nosso contrato de casamento foi redigido e assinado na hora e fomos deixados a sós. "Quando a despi, vi que era realmente uma pérola não-furada, um cavalo que nenhum cavaleiro montara. Passei com ela uma noite que resumiu todas as alegrias de minha vida. "Vivemos assim um mês inteiro. No começo do mês seguinte, disse-me certa vez: Devo ir ao hammam por poucas horas. Jura que não te levantarás desta cama até que volte. Jurei, e ela saiu. "Ora, quis o destino que, minutos depois, chegasse uma anciã e me dissesse: `Ó Mohamed-Ali, a senhora Zubaida, a esposa do Comandante dos Fiéis, enviou-me para pedir-te que fosses imediatamente ao palácio, pois deseja falar-te. Respondi: A senhora Zubaida honra-me com esse pedido, mas não posso sair de casa até o regresso de minha mulher. "- Meu menino, disse a velha, aconselho-te a atender sem demora a dona Zubaida em teu benefício, a menos que queiras fazer dela tua inimiga. Sua inimizade é perigosa. Atendi, esperando que minha mulher compreendesse e me desculpasse. A senhora Zubaida recebeu-me com um sorriso e perguntou: Luz de meus olhos, não és o amante da irmã do vizir?' - Sou teu escravo, respondi. "- Em verdade, não exageraram em descrever o charme de tuas maneiras e de tua voz. Estou satisfeita. Mas quero que cantes alguma coisa para mim. "Quando fui libertado e voltei para casa, encontrei minha mulher dormindo. Deitei a seu lado e comecei a acariciar-lhe as pernas. Mas ela me deu um pontapé tão violento na virilha que caí da cama. Traidor perjuro!, gritou. Quebraste teu juramento e foste visitar a senhora Zubaida! Não posso ir ensinar-lhe a não debochar dos maridos de outra mulheres. Por isso, pagarás por ambos.' E chamou o chefe de seus eunucos, o terrível Sauab, e disse-lhe: Corta a cabeça deste traidor."Nesse momento, todos os escravos da casa, que eu costumava tratar com bondade, acorreram e solicitaram sua compreensão: Como iria ele adivinhar que uma simples visita a dona Zubaida iria desagradar-te tanto? Ele desconhecia a rivalidade e inimizade que existe entre vós duas. Por favor, trata-o com clemência.Pouparei a sua vida, concedeu ela finalmente. Mas deixarei no seu corpo uma lembrança indelével de sua traição. E mandou infligir-me as torturas de que vedes os vestígios. "Quando me restabeleci, vendi tudo que tinha, comprei esse grande barco e quatrocentos escravos e escravas, disfarcei-me de califa e entreguei-me à alegria de viver, ao canto e à dança. Passei assim um ano inteiro, tentando esquecer as conseqüências que sofri por ter-me intrometido sem querer numa briga de mulheres”.Após ouvir esta história, o califa voltou para seu palácio, preocupado em encontrar um meio de reparar a injustiça feita àquele homem bom. No dia seguinte, revestido de sua autoridade, mandou vir Mohamed-Ali e disse-lhe: "Gostaria de ouvir de tua própria boca a história que contaste ontem à noite a três mercadores estrangeiros." Surpreso, Mohamed-Ali repetiu a história. Perguntou-lhe o califa:
"Ainda amas a tua mulher e a queres de volta?"
- Tudo que recebo das mãos do califa é bem-vindo.
Então disse o califa a Jafar: "Traze-me tua irmã."
Quando a mulher chegou, disse-lhe o califa: "Ó filha de Yahia, nosso fiel emir, eis Mohamed-Ali. O que passou, passou. Neste momento, quero dar-te a ele como esposa."
- Os presentes de nosso senhor são sempre generosos.

O califa mandou vir o cádi e as testemunhas. Os dois jovens foram casados de novo, e o califa fez de Mohamed-Ali um de seus amigos mais íntimos.

Judar, o pescador, e o saco encantado - Mil e Uma Noites


Judar, o pescador, e o saco encantado
Mil e Uma Noites

Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez um mercador chamado Omar. Tinha ele três filhos: Salim I, Salim II e Judar, o mais jovem. Havia-os criado até a maturidade; porém sem-pre preferiu Judar, o que levava seus dois irmãos invejá-lo e odiá-lo. Quando Omar, que era muito velho, notou esse ódio, receou que Judar fosse molestado por seus irmãos após a sua morte e, na presença do cádi, partilhou seus bens em quatro partes iguais: uma para cada filho e uma para a mulher. Após a morte do pai, os três irmãos arruinaram-se em processos que Salim e Salim moveram contra Judar. Depois, Salim e Salim maltrataram, burlaram e roubaram a mãe. E ela se refugiou junto a Judar, o qual, embora empobrecido, a acolheu com todo carinho. Os dois Salim caíram rapidamente na miséria, pois não conheciam pro-fissão alguma e eram preguiçosos e malvistos. Procuraram a mãe, chorando. Uma mãe é sempre compassiva.
Passou a servir-lhes as sobras da casa de Judar, dizendo-lhes, todavia: "Comei rapidamente e saí. Se vosso irmão vos surpreender aqui, poderá virar-se contra mim." Um dia, contudo, enquanto comiam, Judar chegou. Mas em vez de zangar-se, sorriu para seus irmãos, abra-çou-os e convidou-os a morar com ele. Sua mãe gritou: "Meu filho, possa Alá abençoar-te e aumentar tua prosperidade: és o mais generoso de todos nós." Judar ia cada manhã lançar sua rede ao mar, e viviam, ele, a mãe e os irmãos, do produto de sua pesca. Certa vez, jogou a rede três dias seguidos sem nada apanhar. No quarto dia, foi a uma praia mais distante no lago Karun e enquanto se preparava para lançar a rede às águas, viu um mouro deslocan-do-se em sua direção, montado numa mula. O mouro apeou, cumprimentou Judar e dis-se-lhe: "Ó Judar, filho de Omar, preciso de teus préstimos. Se me obedeceres, recolherás grandes vantagens. Serás meu amigo e o encarregado de meus negócios." O jovem prome-teu obedecer. Disse o mouro: "Recita a Fatiha para dar à tua promessa um caráter sagrado." Judar recitou a Fatiha. Disse então o mouro: "Amarra meus braços atrás das minhas costas com estas cordas, joga-me no mar e espera. Se as minhas mãos saírem da água em primeiro lugar, lança tua rede e traze-me às costas. Pois não sei nadar. Mas se forem meus pés que emergirem primeiro, considera-me morto. Leva então esta mula e este saco ao mercado e procura por Chamaia, o judeu. Pagar-te-á cem dinares pela mula. Teu único dever será guardar o segredo." Judar seguiu as instruções do mouro, e ao ver os pés emergirem primeiro, montou a mula e foi ao mercado onde localizou o judeu. O judeu pagou-lhe os cem dinares prometidos e recomendou-lhe o segredo por sua vez. Judar levou muitas provisões para casa, onde encontrou os irmãos famintos. No dia seguinte, voltou à mesma praia e foi abordado por outro mouro igual ao primeiro; e tudo se passou exactamente como no dia anterior. No terceiro dia, outro mouro apareceu, e Judar amarrou-o e jogou-o às águas da mesma forma. Mas, desta vez, foram as mãos e a cabeça do mouro que emergiram. Judar lançou sua rede e salvou o homem. Quando ele chegou á costa, Judar reparou que ele segurava um peixe vermelho em cada mão. "Por Alá," disse a Judar, "salvaste-me a vida." Retrucou Judar: "Por recompensa, conta-me a história de teus dois irmãos afogados, destes dois peixes e do judeu Chamaia."
- Como adivinhaste, os dois mouros que se afogaram eram meus irmãos, chamados Abdel-Salam e Abdel-Ahad. Meu nome é Abdel-Samad. O que tomaste por judeu é também meu irmão, um verdadeiro muçulmano. Nosso pai, Abdel-Uadud, era um mágico poderoso. Ensinou-nos a magia, a feitiçaria, a arte de descobrir e levantar os tesouros mais bem escondidos. Tornou-nos capazes de mandar nos Jins, nos Marids e nos Afarit. "Todavia, para levar-nos a competir entre nós e nos aprimorar na luta com o mundo, deixou escondido o maior de todos os tesouros, o Chamardal, que contém três objectos milagrosos: primeiro, um anel tão extraordinário que seu possuidor torna-se dono do mundo, capaz de derrotar reis e sultões; segundo, um globo que permite a seu possuidor visitar todas as regiões da terra sem sair de casa, pois, ao virar o globo, cada região visada se desliga e vem até o dono do globo; terceiro, um unguento que, passado nas pálpebras, permite ver os tesouros escondidos em qualquer montanha ou planície. “Ganhará os três objectos milagrosos de Chamardal aquele de nós que apanhar estes dois peixes vermelhos e conseguir a coopera-ção de Judar, filho de Omar, que só pode ser encontrado nas margens do lago Karun. Meus dois irmãos morreram na tentativa de apanhar estes dois peixes. Eu os consegui e te encon-trei. Queres vir comigo ao Marrocos, perto das cidades de Fez e Meknes, e ajudar-me a localizar e levar o tesouro? Dar-te-ei tudo que me pedires e serás meu irmão para sempre. E poderás voltar quando quiseres para teu país e tua casa."
- Ó meu senhor, respondeu Judar, tenho minha mãe e dois irmãos a sustentar. Quem os ali-mentará se viajar contigo?
- Toma estes mil dinares e entrega-os a tua mãe, e promete-lhe que estarás de volta dentro de quatro meses. Judar foi entregar os mil dinares à mãe e obter sua bênção. Quando vol-tou, o mouro colocou-o atrás de si nas costas da mula e voaram. No caminho, Judar sentiu fome e disse ao mouro: "Senhor, acho que esqueceste de trazer provisões para a viagem."
- Não preciso trazer provisões. Tenho este saco encantado. Dele posso tirar todos os pratos que desejar. Estás com fome?
Judar reconheceu que estava. Num instante, o mouro tirou do saco peixes, aves, carnes, frutas, doces, todos preparados com requinte e servidos em pratos de ouro.
- Come, meu amigo, disse o mouro.
- Meu senhor, com certeza colocaste no saco antes da viagem vários cozinheiros e muitos mantimentos.
- O saco é encantado, só isso! respondeu o mouro com um sorriso. É servido por um Afrit que nos traria num piscar de olhos até mil pratos árabes, mil pratos egípcios, mil pratos indianos, mil pratos chineses.
No decorrer da viagem, o mouro perguntou a Judar: "Sabes a que distância já estamos do Cairo?"
- Por Alá. não!
- Nestas duas horas, disse o mouro, já percorremos um mês de viagem. Pois esta mula é uma jiniêh e viaja um ano num dia.
Quando chegaram a Fez, foram à casa do mouro. Descarregaram a mula. O mouro pronun-ciou umas palavras mágicas, e ela sumiu no ventre da terra. Semanas depois, disse Abdel-Samad: "Chegou o dia em que vamos recuperar o tesouro de Chamardal. Para tanto devemos superar diversas provas, cada uma mais difícil que a outra.
- Sentes-te preparado?
- Sim, respondeu Judar.
Foram então ao lugar indicado no meio do deserto onde, sob o efeito de palavras mágicas, portas misteriosas se abriram, dando acesso a galerias, jardins, casas, palácios. Numa das casas, encontraram a mãe de Judar. Era a primeira prova. Judar, seguindo as instruções de Abdel-Samad, ordenou à mãe: "Despe-te."
- Meu filho, gritou a mulher, eu sou tua mãe.
- Despe-te, repetiu Judar. Senão, corto-te a cabeça.

Na realidade, não era sua mãe e sim uma mera aparição. Mas se ele tivesse fraquejado e tido pena dela, teria sido imediatamente abatido por génios malvados. Após dias passados assim em meio a aparições mágicas, provas imprevistas e outras manifestações de terror, Abdel-Samad salvou o tesouro de Chamardal. Agradeceu a Judar pela indispensável coope-ração e convidou-o a pedir o que quisesse. Judar pediu o saco encantado. O mouro entre-gou-o sem hesitar e acrescentou: "Devo-te mais que este saco. Leva também este outro saco, cheio de ouro e jóias, para que nunca mais conheças a preocupação em tua vida."Judar agradeceu e, montado na mula mágica, voltou para o Cairo e foi directamente à sua casa. E qual foi a sua pena quando viu a mãe vestida de farrapos e sentada na soleira da porta a pedir esmolas. Ela contou-lhe que seus irmãos a haviam maltratado e arrancado dela todo o dinheiro que lhe dera. Vendo a casa vazia, Judar encheu-a imediatamente de mantimentos, graças ao saco encantado. Quando Salim e Salim souberam da volta do irmão e de suas riquezas, procuraram-no mais uma vez, e ele recebeu-os mais uma vez festiva-mente. E viveram juntos, comendo o que lhes apetecesse. Mas a natureza incuravelmente malvada daqueles dois irmãos prevaleceu de novo. Observando e aproveitando a indiscrição da mãe, souberam do saco encantado e roubaram-no. Depois, tramaram com o capitão de um navio, e este enviou seus marinheiros para raptar Judar e jogá-lo no porão, acorrentado. Mas Deus teve pena dele. Um mercador de Jedá passou por acaso no porão, viu Judar, gos-tou dele e tomou-o a seu serviço numa peregrinação a Meca. Lá, outro acaso feliz o pôs no caminho de Abdel-Samad, que estava cumprindo o dever da peregrinação. Reconheceu-o e mostrou-lhe a bondade de um pai. Presenteou-o com quinhentos dinares e ofereceu-lhe o anel mágico que fazia parte do tesouro de Chamardal. Judar voltou para casa mais uma vez rico e honrado, e acolheu novamente seus irmãos e perdoou-lhes todas as ignomínias. E, aproveitando o anel mágico, mandou o Afrit edificar um palácio mais sumptuoso que o palácio real. Com o tempo, o rei, Chams Ad-Daula, ouviu falar de Judar e do esplendor de seu palácio. Um dia, foi visitá-lo. Por sua vez, Judar ouviu falar da filha do rei, uma adoles-cente mais bela que a plena lra, e pediu-a em casamento. O rei concordou. Os dois jovens foram unidos pelos laços do matrimônio e por uma ardente paixão recíproca, que aumentou ainda mais a amizade entre Judar e Chams Ad-Daula. Judar foi nomeado vizir. E quando o rei morreu, foi ele mesmo proclamado rei, sendo sempre tolerante e generoso para com seus irmãos. Mas estes nunca conseguiram superar sua inveja e sua perversidade. Um deles, aproveitando a oportunidade de um banquete real do qual participava, colocou veneno no prato do rei seu irmão e o matou. O povo chorou o rei bondoso Judar, e os sábios disseram que ele foi vítima tanto de seus irmãos malvados quanto de sua própria generosidade, excessiva e indiscriminada. Pois o provérbio diz: "Faça o bem, mas saiba a quem." Num sen-tido aproximado, Kisra, o grande rei da Pérsia, escrevera ao filho: "Meu filho, cuidado com a compaixão: ela enfraquece o governo; e cuidado com a falta de compaixão: ela provoca a rebelião."

Os artifícios de Dalila, a trapaceira - Mil e Uma Noites


Os artifícios de Dalila, a trapaceira
Mil e Uma Noites


Conta-se, ó afortunado rei, que vivia em Bagdá no reinado de Harun Ar-Rachid, um homem chamado Ahmed Danaf, que se destacara a tal ponto no roubo e na fraude que o califa, sempre atento a usar qualquer talento, nomeou-o chefe da polícia, com vencimentos de 5 mil dinares de ouro por mês, guarda de honra e tudo mais. Naquela mesma época, vivia na mesma cidade, uma temível megera chamada Dalila, conhecida sob a alcunha de Dalila, a Trapaceira. Vendo as recompensas que Ahmed recebia por ser um grande ladrão, jurou à filha, Zainab, a Embusteira, que inventaria embustes que fariam esquecer os de Ahmed. Começou por cobrir a face com um véu, vestir um manto de sufi com mangas tão largas que varriam o chão e pendurar rosários no pescoço. Assim disfarçada, saiu pelas ruas a repetir: "Alá! Alá!" em alta voz, rezando com a língua, enquanto o coração corria na companhia dos demónios e os olhos procuravam algo a explorar. Dentro em pouco, passou por um palácio sumptuoso e parou para pensar. Ora, esse palácio pertencia ao chefe de guarda do califa, um homem rico e influente, mas violento e mal educado. Chamavam-no Mustafá Terror-das-Ruas, porque, com ele, os socos vinham primeiro, e só depois as explicações. Esse homem era casado com uma linda mulher chamada Khatum a quem jurara, na noite da primeira penetração, nunca tomar uma segunda esposa. Naquela manhã, Mustafa tinha tido uma briga com ela. Pois, apesar de seus cabelos brancos, Mustafa estava sem filho algum, enquanto todos os homens com quem lidava tinham dois, três ou mais filhos. - Sai da minha frente, tinha gritado ele para a mulher. O dia em que te conheci foi um dia nefasto para mim. - O que está ocorrendo? perguntara a mulher. - Está ocorrendo que és uma tola estéril, um vale de pedras em que desperdicei minhas sementes. A mulher respondera no mesmo tom: "Digo-te que a culpa é tua. És um mulo estéril, com um nariz chato. Teus testí-culos só contêm água e sementes mortas." - Achas? Na volta tomarei outra mulher, e vere-mos, retrucara o homem e saíra. Khatum lamentou então sua falta de paciência e de enge-nhosidade e ficou à janela, preocupada. Naquele momento, Dalila a viu coberta de jóias e de vestidos luxuosos e bela como a lua. "Dalila," disse a bruxa a si mesma, "chegou a hora de abrir o saco de teus artifícios." Parou debaixo da janela a repetir: "Alá! Alá! Vós todos os amigos de Deus, abri caminho para mim." "Talvez," pensou a mulher de Mustafa, `Alá me conceda sua graça por intermédio desta santa mulher," e mandou Abu-Ali, o administrador da casa, convidá-la a subir.
A bela Khatum jogou-se aos pés da mulher e beijou-lhe as mãos. "Minha filha", disse a astu-ta Dalila, "vim porque Alá inspirou-me a ideia de que precisavas de meus conselhos." Kha-tum ofereceu à visitante toda espécie de iguarias conforme as tradições da hospitalidade árabe, mas Dalila negou-se a tocar em qualquer delas, explicando: "Não tenho apetite senão para as iguarias do Paraíso. Por isso, ando sempre de jejum, excepto cinco dias por ano." Khatum ficou ainda mais impressionada e contou à mulher seu drama com o marido. - Vê-se, minha filha, replicou a velha, que nunca ouviste falar das virtudes de meu amo, o Xeque Pai-dos-Impulsos, o Santo Multiplicador-das-Gravidezes. Uma única visita a este santo transforma qualquer mulher estéril num campo frutífero. Se quiseres, levar-te-ei até ele hoje mesmo e, quando voltares, deixa teu marido penetrar em ti; e ficarás grávida no acto. Ouvindo essas promessas, a ingénua Khatum ficou encantada, pôs seus vestidos mais ricos, cobriu-se de jóias e seguiu a mulher. Quando chegaram perto da loja de Sidi Muhsim, um formoso jovem mercador, ainda solteiro, Dalila pediu a Khatum que a esperasse e entrou na loja.
- Amigos teus te recomendaram a mim, disse a Sidi Muhsim. Aquela moça é minha filha. Seu pai morreu, legando-lhe uma fortuna imensa. Está saindo de casa pela primeira vez, pois acaba de atingir a idade do casamento. Apressei-me a sair com ela, conforme o aviso dos sábios: "Oferece tua filha cedo e teu filho tarde." Uma inspiração divina e os elogios de teus amigos trouxeram-me até aqui. Não queres casar-te com ela? Se és rico, serás mais rico. Se precisas de dinheiro, ela te dará o dinheiro deixado pelo pai, e terás duas lojas em vez de uma.
O mercador olhou para Khatum, e seu corpo e seu coração se derreteram.
- Aceito com gratidão tua proposta. Mas minha mãe, que era uma mulher experimentada, me fez jurar, antes de morrer, que examinaria pessoalmente qualquer virgem com quem quisesse me casar a fim de prevenir surpresas humilhantes.
-Neste caso, levanta-te e segue-me. Prometo mostrar-te tua noiva completamente nua.
O jovem mercador levantou-se, levou uma bolsa de mil dinares para enfrentar qualquer eventualidade e seguiu a velha charmuta, que pensava com alegria: "Agora, sábia Dalila, prepara-te para sacrificar este jovem touro." Ao passar pela loja do tintureiro Hajji Mahmud - um homem famoso no mercado pela dualidade de suas inclinações, tendo sua faca sempre pronta para cortar tanto machos como fêmeas - Dalila pediu aos dois jovens para esperar e dirigiu-se a ele.
- Com certeza és Hajji Mahmud?
- Sou, sim, senhora, que queres de mim?
- Amigos têm-me falado muito de ti nos termos mais lisonjeiros. Agora, olha para esse belís-simo casal formado por meu filho e minha filha, cuja educação quase me arruinou. A velha casa onde vivem comigo está ameaçada de ruir; já mandei reformá-la. Mas os trabalhos só ficarão prontos daqui a um mês. Até lá, preciso alugar uma casa para instalá-los. Fala-ram-me da casa que tens disponível. Por isso vim a ti. O tintureiro olhou para os dois jovens e regozijou-se. "Ó Hajji Mahmud, disse a si mesmo, eis biscoito com manteiga para teus velhos dentes!" E disse à mulher: `A verdade é que disponho do primeiro andar da casa onde moro; mas preciso de parte dele eventualmente para hospedar certos clientes que vêm de longe."
- Não te preocupes com isto, disse a mulher. Será nosso prazer partilhar esse andar contigo. O homem não se conteve mais, esperando muito dessa coabitação, e entregou as chaves dos dois andares a Dalila. Dalila levou os dois jovens à casa de Hajji Mahmud e, após pedir a Sidi Muhsim que esperasse, levou Khatum a um quarto do primeiro andar e disse-lhe: "Minha filha, no térreo desta casa mora o venerável Santo Multiplicador-das-Gravidezes. Iremos visitá-lo dentro de um momento. Só receio uma coisa. Ele tem por ajudante um filho idiota que não pode ver uma dama vestida como estás vestida sem pular sobre ela e rasgar-lhe a roupa e quebrar-lhe as jóias. Penso que seria melhor que tirasses a roupa e as jóias. Guardá-las-ei num lugar seguro até que voltemos da visita." A jovem mulher, feliz com a prometida gravidez, tirou imediatamente a roupa e as jóias e entregou-as a Dalila. Esta disse que iria avisar o santo e voltar para levá-la a ele. Trancou a porta, guardou o pacote num canto e foi procurar o jovem comerciante.
-A tua noiva virá logo toda nua para que a possas examinar conforme a promessa feita a tua mãe. Mas aconteceu uma coisa desagradável. Quando os vizinhos souberam que tenciono casar-te com minha filha, foram dizer-lhe: "Será que tua mãe não aguenta mais sustentar-te para que queira casar-te com um homem atingido de sarna e lepra? Que podia fazer senão prometer-lhe, como prometeste a tua mãe, mostrar-lhe seu noivo nu antes do casamento?
- Apelo para Alá contra a língua dos caluniadores, gritou o moço, e tirou espontaneamente toda a roupa.
- És tão são quanto bonito, disse a velha.
E vendo-o dobrar a roupa com o cinto, a bolsa com mil dinares e o punhal de prata e ouro, disse-lhe: "É muito perigoso deixar essas coisas tentadoras por aqui. Vou guardá-las num lugar seguro até depois da visita de tua noiva." Embrulhou-as e levou-as, prometendo voltar logo com a noiva nua. Apanhou o outro pacote, trancou a porta e foi embora. Voltou à loja do lascivo tintureiro, elogiou a beleza de sua casa e disse-lhe: "Vou agora transportar os móveis para lá. "Posso pedir-te um favor? Eis um dinar. Compra com ele pão e carne e leva-os a meus filhos que não comem desde ontem. E, por favor, almoça com eles."
- Quem tomará conta de minha loja?
- Teu aprendiz.
-Seja, disse o tintureiro que se alegrava já com a perspectiva de almoçar com os dois jovens. Dalila foi dispor dos dois embrulhos; e quando voltou à loja, disse ao aprendiz: "Teu amo manda-te ir encontrar-se com ele na mercearia onde está comprando pão e carne." - Ouço e obedeço. Assim que o aprendiz saiu, Dalila começou a juntar todos os objectos que podiam ser carregados. Enquanto isso, viu um burriqueiro passar na porta da loja, com seu asno. - Por Alá, disse-lhe, conheces meu filho, o tintureiro?
- Ninguém o conhece melhor do que eu.
- Saberás, bom amigo, que meu filho está falido. Pediu-me juntar os bens de seus clientes para devolver-lhes. Eis um dinar. Aluga me teu asno para levar esses objectos. Enquanto esperares por mim, quebra o que puderes dos móveis desta loja para que o cádi não encon-tre nada para confiscar.
- Com prazer, disse o burriqueiro. Pois teu filho tem sido sempre bom para comigo. E nada cobrarei pelo serviço.
O tintureiro comprou o pão e a carne e dirigiu-se para sua casa. Seu caminho passava pela loja. Viu, pois, o que o burriqueiro estava fazendo.
- Pára! Pára! gritou.
O burriqueiro parou e disse: "Meu coração está contigo. Graças a Alá, evitaste a cadeia."
- O que estás dizendo?
- Foste declarado falido e estou quebrando as coisas para que o cádi não encontre nada para confiscar.
- Quem te contou isto?
-Tua mãe que juntou os bens dos clientes, alugou meu burro e foi entregá-los.
- Ai de mim! Minha mãe morreu há anos, gemeu o tintureiro.
Compreendendo o logro de que era vítima, pôs-se a bater no peito e gritar alto: "Desgraça! Desgraça! Meus bens estão perdidos. Os meus e os dos meus cientes." O burriqueiro pôs-se a chorar, por sua vez, e a gritar: "Desgraça! Desgraça! Desgraça! Meu asno está perdido! Tintureiro de meu traseiro, devolve-me o asno que tua mãe levou." Hajji Mahmud lançou-se sobre o burriqueiro e surrou-o, gritando: "Onde está minha mãe a quem con6aste meus bens, ó burriqueiro mais burro que todos os burros." Um dos vizinhos raciocinou: "Já que a velha alugou a casa de Hajji Mahmud para instalar os filhos nela, por que não a procuram lá e põem as coisas em ordem?"
Foram lá. Bateram em vão à porta. Depois, quebraram-na e entraram. Encontraram um homem nu no térreo e uma mulher nua no primeiro andar.
- Onde está vossa mãe? perguntaram-lhes.
- Nós não somos irmãos, e ela não é a mãe de nenhum de nós. Roubou-nos até a roupa e deixou-nos neste estado.
E contaram toda a história. As quatro vítimas da trapaceira juntaram-se e foram ao califa. "Como iria descobrir uma velha mulher entre tantas velhas mulheres que vivem nesta cida-de?" perguntou o califa. Mas depois, lembrou-se de que designara Ahmed Danaf chefe da polícia justamente porque conhecia todos os ladrões de Bagdá. Chamou-o e ordenou-lhe localizar a velha megera e levá-la a sua presença.
- Ouço e obedeço, disse Ahmed e, em menos tempo do que se leva para contar o facto, localizou Dalila, a Trapaceira e levou-a à presença do califa.
A velha trapaceira jogou-se aos pés do califa e disse: "Califa de Alá, não roubei pelo prazer de roubar, mas somente para chamar a atenção de Vossa Majestade sobre mim. Sempre fui uma mulher virtuosa e pobre, e nunca roubei seja o que for, mas nunca recebi de Vossa Majestade a menor atenção, enquanto Ahmed Danaf, por ser o maior ladrão desta cidade, foi nomeado chefe da polícia com vencimentos de 5 mil dinares de ouro por mês."

O califa achou notável mais esta burla da famosa trapaceira e riu gostosamente. Depois, mandou indemnizar todas as vítimas de Dalila e nomeou-a chefe do khan, tendo sob suas ordens quarenta negros e quarenta cães de caça afegãos. "Tua cabeça responderá pela perda de qualquer um dos pombos, os quais são mais caros a meu coração que meus próprios filhos." Assim foi recompensada por sua vez a arte de enganar e roubar de Dalila, a Trapaceira. Louvado seja Aquele que ensinou aos califas a tolerância e a generosidade!

A história que é toda mentiras, Mil e Uma Noites


A história que é toda mentiras
Mil e Uma Noites

Certa noite, tomado de insónia, o califa Harun Ar-Rachid mandou chamar o poeta Abu-Nauas e disse-lhe:
- Ó Abu-Nauas, estou agitado e oprimido. A única coisa capaz de me divertir seria ouvir uma história tecida de mentiras da primeira à última palavra. Se puderes improvisar essa história, recompensar-te-ei generosamente; mas se puseres nela um grão de verdade sequer, juro que farei com que a tua cabeça se separe do teu corpo.

Este estranho pedido fez o pobre Abu-Nauas sentir-se bem indisposto, especialmente na região do seu pescoço. Mas ninguém escapa à vontade de um califa. O poeta pediu vinho, bebeu e começou a falar: "Sabei, ó Comandante dos Fiéis, que quando meu pai nasceu, minha avó entregou-me a criança e me pediu que a distraísse. Levei meu pai no ombro e saí para a rua. Mas meu pai chorava, e chorava, e chorava; e nada conseguia acalmá-lo até que viu um cesto de ovos à porta de uma quitanda; então, sossegou de repente e, indicando o cesto, disse: "Quero um desses!" Comprei-lhe um ovo, e ele ficou radiante. Quando voltamos para casa, deixou cair o ovo. O ovo quebrou-se, e dele saiu um pinto. E o pinto começou logo a crescer. Cresceu tanto que se tornou igual a um camelo. Não podeis imaginar, ó Comandante dos Fiéis, a quantidade de alimentos que esse pinto devorava. Meu avô come-çava a se preocupar quando uma boa ideia assomou-lhe à mente. Disse-me ele: "Meu filho, por que não levas esse galo pela manhã à floresta e o carregas de lenha para o fogão? Assim o fiz; mas no dia seguinte, a ave amanheceu doente, com um ferimento nas costas. E imaginai a nossa surpresa quando deste ferimento vimos surgir, todo verde, um broto de nogueira. Dentro de pouco tempo, o broto tornou se uma nogueira gigante, com doze ramos tão grandes e tão esparsos que não era possível ouvir-se de um ramo para outro. Quando chegou a época de colher as nozes, doze homens foram encarregados de proceder à colheita. E quando acabaram, meu avô mandou-me ver se não tinham esquecido algumas frutas entre a folhagem. Examinei a árvore e descobri, apenas, uma noz, na ponta de um ramo. Apanhei o que me pareceu ser uma pedrinha e atirei-a de encontro à noz. A noz caiu. Mas, para meu deslumbramento, o que julgara ser uma pedra, era, na verdade, um torrão de lama seca que começou a se estender numa gigantesca planície até cobrir todos os ramos da nogueira. Naturalmente, meu avô ficou encantado de ver tantas terras adiciona-das às propriedades que já possuía. Mandamos construir escadas e subir o gado para culti-var a nova terra; e tão vasta era ela que precisamos de doze bois trabalhando um mês inteiro para lavrá-la. Quando o solo ficou pronto, perguntamos a alguns lavradores qual seria a plantação mais indicada. Todos aconselharam o sésamo. Semeamos a área de sementes de sésamo. E mal tínhamos acabado de plantar, eis que vieram outros lavradores e perguntaram o que havíamos semeado. Quando respondemos: "Sésamo," puseram-se a rir, dizendo: "Sésamo! Onde se viu plantar sésamo em terra virgem? Deveriam ter plantado melancia, que é a melhor planta para o solo virgem." Meu avô olhou para mim com tristeza e mandou-me apanhar todas as sementes de sésamo que tínhamos semeado na imensa planície. Obedeci e apanhei todas as sementes sem um murmúrio sequer. Quando tinha reunido todas elas, meu avô contou-as e achou que faltava uma, e mandou-me procurá-la. Busquei-a por toda parte, mas não houve meio de encontrá-la. À tardinha, porém, quando voltava para casa desesperado, vi uma formiga arrastando a semente perdida. "Não me escaparás," gritei-lhe, e tentei apoderar-me do sésamo, puxando-o para meu lado; mas a formiga não o largava e o puxava também. Nenhum de nós se dava por vencido até que, por fim, o sésamo partiu-se em dois e, por Alá, um rio de óleo de sésamo espalhou-se entre a formiga e eu. Sem exagero, ó Comandante dos Fiéis, era um rio tão largo e profundo quanto o próprio Tigre. Então, plantamos novamente a terra, desta vez com sementes de melancia. E quando as melancias amadureceram, fui encarregado de vigiá-las. Certo dia de calor, quis comer uma melancia. Passei a vista por todo o campo e escolhi a maior de todas. Depois, saquei da minha adaga e tentei abrir a melancia. Mas a minha adaga entrou na fruta e desapareceu. Não podia eu segui-la, dentro da melancia, e deixar minhas plantações sem vigia. E não queria perder meu facão. Pensei e pensei e então tive uma ideia luminosa: decidi cortar a minha cabeça, com a minha espada, e pô-la por cima da torre de vigia. Assim ficava livre para ir procurar a minha adaga. Sem hesitar, pus meu plano em execução. Quando entrei na melancia, achei-me dentro de uma cidade. Tudo nela era-me novo e desconhecido. As ruas estavam cheias de gente. Todavia, olhando com atenção, verifiquei que todos aqueles homens eram, como eu próprio, sem cabeça, embora parecessem acertar o caminho sem dificuldade. Comecei a andar e, logo depois, dei com uma multidão reunida em volta de um pregoeiro que perguntava em alta voz: "Quem perdeu uma cabeça?" Quando me aproximei, vi que se tratava da minha cabeça. Gritei-lhe: "Essa é a minha cabeça." Mas outros reclamavam a mesma cabeça. Então o pregoeiro gritou: "Lançarei esta cabeça ao ar e, no pescoço onde ela cair, ficará." A cabeça subiu no ar e, quando desceu, veio directamente para o meu pescoço. Olhei em volta de mim e, pela vida do meu senhor, não havia nem cidade, nem campo de melancia, nem nogueira, nem galo do tamanho de um camelo; nem pai recém-nascido, nem nada de todas as coisas que lhe contei, ó Príncipe dos Fiéis!" Harun Ar-Rachid ficou de tal maneira satisfeito que desatou a rir. E acrescentou: "Não é sem razão que te chamam o príncipe dos poetas. Nunca ouvi história tecida de tantas mentiras. E embora pusesses nela alguma verdade lá pelo fim, fizeste-o com tanta habilidade que não te pedirei conta disto e te compensarei conforme mereces." E Harun Ar-Rachid premiou Abu-Nauas com um rico traje de seda e um saco cheiro de ouro.

Abdala Terra e Abdala Mar, Mil e Uma Noites


Abdala Terra e Abdala Mar
Mil e Uma Noites

Conta-se - mas Alá é mais bem-informado - que havia certa vez um pescador chamado Abdala, que tinha uma mulher e nove filhos a sustentar e era muito pobre. Sua rede constituía seu único sustento, sua loja, sua profissão e a porta de segurança de sua casa. Lançava-a ao mar todos os dias, vendia o que apanhava e gastava o que recebia, dizendo: "O pão de amanhã virá amanhã." Chegou um dia em que a mulher deu à luz um décimo menino (pois seus outros nove filhos eram também varões pela graça de Alá!), e não havia em casa sequer um pedaço de pão para comer. Abdala saiu, dizendo que iria lançar a rede em nome do recém-nascido. Pediu as bênçãos de Alá e lançou a rede. Quando a retirou, estava cheia de estrume, areia, cascalhos e algas marinhas, sem uma sombra de peixe. Entristecido e surpreso, o pescador gritou: "Terá Alá criado essa criança sem prover-lhe o sustento? Não pode ser. Ele tomou a si satisfazer as necessidades de todas as suas criaturas, o Generoso, o Sábio. Glorificado seja seu nome." Andou na praia e lançou a rede noutro lugar. Quando quis retirá-la, estava muito pesada. Nela encontrou um burro morto e fedendo. O pescador revoltou-se e pensou: "Este azar vem de minha mulher. Quantas vezes disse-lhe que o mar nada mais tinha para nós e que deveríamos mudar de profissão. Mas ela fica repetindo: "Alá karim! Alá karim! Sua generosidade não tem limites. Não desesperes, ó pai de meus filhos! Onde está a generosidade de Alá? Simbolizará este asno morto o destino de meu último filho?" Por um tempo, Abdala ficou paralisado pela decepção, mas acabou reagindo, pediu perdão a Deus por suas dúvidas, e jogou mais uma vez a rede ao mar. Sentiu-a mais pesada ainda do que da segunda vez. Depois de trazê-la para a costa com muitos esforços, teve a estupefacção de encontrar nela um ser humano um filho de Adão que tinha cabeça, faces, barba, corpo e braços como os outros homens, mas acabava em rabo de peixe. Abdala não teve dúvida de que estava na presença de um Afrit, um daqueles que se tinham rebelado contra nosso mestre Soleiman Ibn Daud e tinham sido encarcerados em barris de cobre e jogados no mar. Com o tempo, pensou o pescador, o metal apodreceu; o Afrit escapou e segurou-se na minha rede para vir à terra. E pôs-se a correr na praia, aterrorizado e gritando: "Tem pena de mim, tem pena de mim, ó Afrit de Soleiman!" Mas o homem da rede chamou-o: "Vem para perto de mim, ó pescador, e não tenhas medo. Eu não sou nem Afrit nem Marid nem Ghul. Sou um homem como tu. Se me ajudares a sair desta rede, cumular-te-ei com riquezas." O pescador se acalmou e aproximou-se com prudência da estranha criatura. E esta repetiu: "Não sou nem Afrit nem Marid nem Ghul. Sou um homem que crê em Alá e em Maomé, seu profeta.
- E quem te jogou no mar?
- Ninguém me jogou no mar. Eu nasci lá. Sou um dos filhos do mar, um povo numeroso que vive nas profundezas marítimas. Vivemos no mar como vós viveis na terra e como os pássa-ros vivem no ar. Somos muçulmanos e seguimos os preceitos do Livro. Tua rede me captou pelo decreto do destino. Mas agora quero ser-te útil. Aceitas entrar num pacto comigo pelo qual cada um jura ser amigo do outro, dar e receber presentes? Por exemplo, tu virias aqui todos os dias trazendo-me as frutas da terra: uva, figos, melancia, melão, pêssegos, amei-xas, romãs, bananas, tâmaras. E eu te traria os frutos do mar: coral, pérolas, crisólitos, águas-marinhas, esmeraldas, safiras, rubis. Encheria a própria cesta na qual tu me trarias frutas. Aceitas?
- Quem não aceitaria? respondeu o pescador com alegria. Mas, primeiro, vamos selar nosso pacto com a autoridade da Fatiha.
O homem do mar concordou, e os dois recitaram a primeira surá do Alcorão em alta voz. Então, Abdala libertou seu cativo.
- Qual é teu nome? Perguntou-lhe
- Abdala, respondeu o homem do mar. Se, por acaso, não me encontrares aqui quando vieres pela manhã, chama-me por este nome e logo sairei das águas e virei a teu encontro. E qual é o teu nome, meu irmão?
- Chamo-me também Abdala.
- Que auspiciosa coincidência, gritou o outro. Tu és Abdala Terra e eu sou Abdala Mar. Espera que te traga já um primeiro presente.
E o homem mergulhou no mar. Quando saiu após um momento, suas duas mãos estavam carregadas de pérolas, corais, esmeraldas, jacintos, rubis e outras pedras preciosas, que ofereceu ao pescador, dizendo: "Lamento que seja tão pouco hoje porque não disponho de cestas. Mas quando me trouxeres uma cesta, enchê-la-ei até a beirada. E não esqueças nosso pacto. Volta para cá a cada levantar do sol." Depois, despediu-se do pescador e desa-pareceu no mar.
Abdala estava maravilhado. Voltou para a cidade, bêbado de alegria. Parou à porta do benevolente padeiro que tinha sido bom para com ele nos dias sombrios. "Irmão," disse-lhe, "a fortuna começa a andar no meu caminho. Tu sempre me disseste: "Se tens pouco dinheiro, paga o que podes. Se nada tens, leva todo o pão de que precisas para tua família e paga-me quando a prosperidade descobrir o caminho de tua casa." Meu bom amigo, a prosperidade já é meu conviva. Contudo, o que te ofereço hoje é pouco em vista de tua cordialidade quando a necessidade me esmagava. Aceita este presente agora. Muito mais virá."
Falando assim, o pescador ofereceu ao padeiro mais da metade das jóias que Abdala Mar lhe trouxera. Pediu-lhe algum dinheiro, e foi ao mercado comprar carne, vegetais, frutas e doces. Abdala contou à mulher tudo que lhe acontecera e, cedo no dia seguinte, voltou à praia carregando um cesto cheio de todas as frutas. Não vendo Abdala Mar, bateu as mãos e chamou: "Onde estás, Abdala Mar?" Imediatamente, uma voz respondeu-lhe de baixo das ondas: “Aqui estou." E logo o outro apareceu e recebeu com agradecimentos o cesto de frutas. Mergulhou e voltou com o cesto sobrecarregado de esmeraldas, águas-marinhas, topázios, diamantes e os demais frutos esplêndidos do oceano. Na volta, Abdala Terra deu a metade do cesto ao padeiro. Depois, escolheu as amostras mais finas de cada espécie e cor e levou-as aos joalheiros do mercado.
O síndico dos joalheiros perguntou-lhe: "Tens mais dessas?"
Respondeu Abdala: "Tenho um cesto cheio."
- Prendei este homem, gritou o síndico. É o ladrão que roubou as jóias da rainha.
Juntaram-se todos os joalheiros, e cada um atribuiu ao pescador algum roubo de jóias cujo autor não fora identificado. Abdala guardou silêncio, nem confirmando, nem negando as acusações. Deixou-se levar ao sultão pelo síndico e os joalheiros, que esperavam vê-lo con-fessar seus crimes e ser enforcado na hora. Disse o sultão a seu eunuco-chefe: "Leva estas jóias a tua ama, rogando lhe dizer se são as jóias que perdeu." Ao ver as jóias, a rainha ficou maravilhada e respondeu: "Não são minhas. Eu encontrei meu colar. Estas são bem mais belas que as minhas e não têm iguais no mundo. Corre, ó eunuco, e pede ao rei para comprar um colar destes para nossa filha Ikbal."
Quando o rei ouviu a resposta da rainha, censurou duramente o síndico e os joalheiros por haverem prendido e maltratado um homem inocente.
- Ó rei do tempo, defendeu-se o síndico, nós sabíamos que este homem era um pobre pes-cador; assim, quando vimos essas jóias entre suas mãos e soubemos que possuía ainda um cesto cheiro delas, concluímos que essa riqueza era grande demais para ser adquirida honestamente.
Essa resposta enfureceu o rei ainda mais. Gritou: "Ó mentes vulgares, ó heréticos, ó almas presas à terra! Não sabeis que qualquer fortuna, não importa quão maravilhosa e repentina, é possibilidade no destino de todo verdadeiro crente? Desgraçados, tivestes a impudência de condenar este homem sem interrogá-lo e sem nada verificar sob o texto absurdo de que tal riqueza era grande demais para ele. Vós o tratastes de ladrão e o desonrastes. Não pensastes um minuto em Alá que distribui seus favores sem a mesquinhez comum aos joalheiros? Sumi da minha frente e possa Alá recusar-vos suas dádivas."
Após consolar Abdala, perguntou-lhe o rei como havia obtido esses tesouros. Abdala contou-lhe toda a sua aventura com o homem do mar e o pacto que fizeram. O rei maravilhou-se com a generosidade de Alá para com seus fiéis, e disse ao pescador: "Esta fortuna estava escrita no teu destino. Devo apenas avisar-te que as riquezas precisam de protecção e que um homem rico deve ocupar uma alta posição. Querendo defender-te contra as incertezas do futuro, casar-te-ei com minha filha única Ikbal, que já está na idade certa, e nomear-te-ei meu vizir, ligando-te assim ao trono antes de minha morte."
E assim foi feito.
Abdala, que fora um pescador e era agora vizir do rei, desempenhou-se de suas novas funções a contento de todos e nunca esqueceu de carregar as frutas de cada estação a seu amigo Abdala Mar em troca de pedras e metais preciosos. Assim, cada manhã suas riquezas aumentavam de um cesto cheio de jóias.
Um dia, os dois Abdalas se detiveram a conversar na praia, e Abdala Terra perguntou a Abdala Mar: "Nunca me falaste de teu país. Ele é belo?" Respondeu Abdala Mar: "É muito belo. Se quiseres, posso levar-te comigo às profundezas do mar e mostrar-te as suas inú-meras maravilhas. Visitarás minha casa e serás meu hóspede."
- Mas como poderei sobreviver no mar? A água penetraria meu corpo e me afogaria. Eu nasci para viver na terra.
- Não te preocupes com isso, retrucou Abdala Mar. Dar-te-ei um unguento que, passado no teu corpo, permitir-te-á permanecer comigo no mar tanto tempo quanto desejares sem te
prejudicar de maneira alguma.
Abdala Terra concordou, e seu companheiro mergulhou e voltou logo com o unguento. E os dois amigos entraram juntos no mar. Quando atingiram as profundezas, Abdala Terra abriu os olhos e viu campinas marinhas que nenhum olho terrestre havia visto desde a aurora dos tempos. Viu florestas de coral vermelho, de coral branco, de coral cor-de-rosa. Viu cavernas de diamantes sustentadas por pilares de rubi, crisólitos, berilo, topázio, ouro. Viu peixes como flores, peixes como frutas, peixes como pássaros, peixes como búfalos, vacas, cachor-ros e alguns até como homens. Andou entre montes de pérolas, esmeraldas, ouro, diaman-tes.
Deslumbrado, Abdala Terra perguntou a Abdala Mar: "Será que existem cidades no teu país, similares às cidades da terra?" "Se há cidades em meu país? repetiu Abdala Mar. Pela vida do Profeta, se passasses mil anos connosco, mostrar-te-ia uma nova cidade por dia e em cada cidade mil maravilhas - e não terias visto dez por cento das cidades de meu país... Como nosso tempo é limitado, quero que visites agora minha cidade e conheças minha família."
E Abdala Mar levou seu companheiro através dos espaços marítimos até que chegaram a sua cidade. Parou diante de uma casa e disse-lhe: "Entra, irmão. Este é meu lar." E chamou a filha. Logo apareceu uma linda adolescente cujo longo cabelo flutuava na água. Tinha seios, ventre, grandes olhos verdes com sobrancelhas pretas e um corpo delgado, mas não tinha nem pernas nem nádegas, pois o corpo terminava com uma cauda. Após considerar com curiosidade o homem da terra, a moça desatou a rir. "Pai, quem é esse sem-cauda?" "Este é o meu amigo Abdala Terra que me tem trazido aquelas frutas de que tanto gostas," respondeu o pai. "Vem cumprimentá-lo." Antes que pudessem terminar a conversação, apareceu na soleira da porta a mulher de Abdala Mar, carregando duas crianças nos braços. Assim que viu o filho de Adão, colocou as crianças no chão e riu gostosamente. "Por Alá, como pode alguém viver sem cauda?" Mãe e filha repetiram juntas: " um sem-cauda." E dançaram e riram. Abdala Terra ofendeu-se e disse ao amigo: "Será que me trouxeste aqui para fazer de mim um objecto de zombaria para tua mulher e filha?" Respondeu Abdala Mar: "Não lhes dês atenção. Como as mulheres da terra nossas mulheres têm pouco juízo." Enquanto falavam, entraram dez altos e vigorosos homens-mar e disseram ao dono da casa: "Nosso rei ouviu falar no teu convidado sem-cauda e deseja conhecê-lo e ver como é feito. Pois ouviu dizer que tem alguma coisa extraordinária atrás e outra coisa ainda mais extraordinária na frente." Os dois Abdala foram logo ao palácio real. Ao ver o homem da terra, o rei sorriu e exclamou: "Como acontece de não teres cauda, ó visitante de outro mundo?"
- Não sei, Majestade. Todos os homens da terra são como eu.
- E como chamas essa coisa que tens no lugar da cauda atrás?
- Alguns chamam-na traseiro; outros a chamam nádegas; outros a chamam bumbum.
- E para que serve?
- Para sentar-se nela quando se está cansado. Nas mulheres é um ornamento muito apreciado, especialmente quando visivelmente saliente.
- E como chamas essa coisa que tens na frente?
- Zib, respondeu Abdala.
- E para que serve?
- Para muitas coisas que não posso explicar por respeito a Vossa Majestade. Posso apenas adiantar que em nosso mundo nada é mais apreciado num homem que um bom e poderoso zib. Um de nossos poetas escreveu: O que vale a vida sem um zib e tudo que um zib repre-senta?
O rei e a sua corte riram mais do que nunca a essas respostas. E Abdala Terra levantou os braços ao céu, dizendo: "Glorificado Alá que criou o traseiro para ser uma glória num mun-do e um motivo de escárnio num outro."
Finalmente, disse o rei: "Ó sem-cauda, teu traseiro me agrada tanto que podes pedir o que quiseres." "Só tenho dois pedidos, Majestade;" respondeu o visitante: "ser devolvido à terra, e levar comigo muitas das jóias do mar."
O rei disse-lhe: "Podes levar tudo que conseguires carregar." Abdala voltou à terra sob o peso das mil jóias que conseguiu carregar, visitou seu rei, contou-lhe a história de sua visita marinha e ofereceu-lhe muitas das jóias trazidas. O rei ficou encantado, mas disse a Abdala: "Não gostaria de ver-te visitar aquela gente indelicada outra vez. O provérbio diz: “ Copo que cai, nem sempre permanece inteiro."' Abdala concordou. E todos viveram em paz e felizes até que foram visitados pelo demónio da morte, demolidor das alegrias e separador dos amigos.