quarta-feira

A donzela que era irmã de sete gênios, conto Persa


A donzela que era irmã de sete gênios

Conto persa

Era uma vez, no alto de uma montanha, no antigo Irã, que morava uma donzela que foi adotada por sete gênios que a encontraram na floresta, enquanto caçavam. Levaram-na ao castelo onde viviam e ali foi criada por uma velha ama até fazer 17 anos.
Era o dia de seu décimo sétimo aniversário, e estava tão formosa como a mais adorável princesa da terra.  Nesse dia, ao olhar pela janela, viu alguém se aproximando pela pequena estrada que conduzia ao castelo.
- Ama! Ama! Que coisa é essa que vem subindo pela colina em direção ao castelo? Nunca vi nada parecido em toda minha vida.
Senhorita Fátima! – gritou a criada, que era uma mulher horrorosa, com uma verruga na cara – Afaste-se da janela. Isso que estás vendo é um ser humano e não deves falar com ele porque teus sete irmãos ficariam furiosos.
Bobagem ama! – disse Fátima, que era bastante decidida e gostava de fazer coisas à sua maneira. Vou abrir a janela e o chamarei, pois parece cansado.
Tenho certeza de que está perdido e faminto.
A criada começou a falar e falar, mas Fátima não lhe prestou a menor atenção e, abrindo a janela, chamou o viajante com melodiosa voz:
Entre no castelo ser humano para que possa descansar e recuperar forças comendo e  bebendo algo. Estou só, pois meus irmãos estarão todo o dia caçando.
O estrangeiro era um príncipe chamado Nureddin, que havia perdido seu cavalo ao passear pelas redondezas.
Nureddin não pode evitar maravilhar-se com aquela formosa jovem que o convidava do alto do castelo. A criada abriu as portas e,   meia hora depois,   Nureddin se encontrava sentado com Fátima comendo uvas, queijo e delicioso pão.
Fátima estava encantada com o jovem. Fez centenas de perguntas e ele falou do mundo que havia além do castelo.
Preciso conhecer essas maravilhas – disse ela. Ah... se meus irmãos desejassem partir...!.
De nenhuma forma, jovem ama Fátima – repreendeu a criada que os servia – A senhorita sabe que meus senhores nunca a deixarão partir do castelo, pois eles são muito zelosos e dariam morte a este humano se o virem aqui.
Então eu mesma descobrirei a maneira de fugir do castelo – declarou Fátima. Assim verei as maravilhas do mundo descritas por este jovem.
O príncipe não cabia em si de felicidade e prometeu a Fátima que a levaria ao reino tão pronto tivesse descansado. Porém, antes que Fátima pudesse dizer algo, foram ouvidos gritos que vinham da entrada e latidos de cães, mesclados a relinchos de cavalos.
Oh, ser humano! – gritou a criada - Esconda-se nesta arca pois meus senhores voltaram e te farão em pedaços no momento que te virem.
Ainda que ela fosse um gênio e também detestasse os humanos, sabia que a sua jovem ama havia gostado do jovem e por isso queria ajudá-lo.
Imediatamente o príncipe entrou na arca e Fátima o fechou com mão nervosa. Apenas tinha se escondido, a porta se abriu e os sete irromperam na sala.
Irmã Fátima! Irmã Fátima, que temos  para comer? – vociferou um deles, dando inicio a um monumental barulho de vozes e risadas, enquanto tiravam suas enormes botas. Fátima e a criada ajudaram, nervosas, a tirarem os casacos de pele.
- Ama, traga vinho. Estamos ardendo de sede!
A velha saiu apressada para cumprir a ordem.
De repente os gênios, um depois do outro, começaram a fungar com seus enormes narizes e gritaram enfurecidos:
- Um homem, um homem! Sinto o cheiro de um homem!
Fátima ficou pálida e seu coração bateu violentamente.
Dentro da arca o príncipe se moveu e se cobriu com roupas para não ser descoberto.
- Alguém esteve aqui irmã Fátima, onde está?
Todos os gênios se levantaram e começaram a gritar furiosos. Iniciaram uma febril busca de um quarto a outro, abrindo todas as portas, cheirando e bufando como bestas selvagens.
Estavam tão excitados que não lhes ocorreu, num primeiro momento, olhar a arca e Fátima, aproveitando que estavam noutra sala do castelo, ajudou o príncipe a sair.
Depressa, depressa, vou mostrar-te um caminho secreto para sair do castelo. Se não foges, meus irmãos te farão em pedaços!
A noite estava caindo e se ouvia os gênios enfurecidos, verificando sala por sala de todo o castelo. Fátima começou a sentir medo. Os dois correram de mãos dadas em direção ao fogão e ali ela o ajudou a entrar na chaminé.
-Vem comigo Fátima!, vou te libertar deste terrível lugar - sussurrou o príncipe - Ela assentiu silenciosamente. Assim subiram pelas pedras da chaminé, até que finalmente os recebeu uma noite carregada de estrelas.
- Onde estão os cavalos? - perguntou o príncipe com tom de urgência. Fátima o conduziu ao estábulo.
Silenciosamente, como duas sombras, eles deslizaram por detrás do castelo. Os criados das cavalariças repartiam os dinheiros dos roubos do dia e não viram como um par dos melhores alazões eram retirados por Nureddin.
Quando estavam montados, o barulho dentro do castelo aumentou e os sete gênios viram, à luz da lua, como fugiam os dois jovens, galopando através dos enormes portões de entrada.
- Atrás deles! – rugiu o mais velho – vamos trazê-los vivos e os assaremos como duas galinhas!
Os cavalos galoparam como o vento, montanha abaixo, como animais encantados que eram. Contudo, logo, vieram os sete gênios montando cavalos igualmente ligeiros e fortes.
-Fátima volta. Perdoamos, porém deixa-nos matar este humano!
A jovem, assustada, podia ouvi-los gritando e sabia que não passaria muito tempo até que os irmãos a alcançassem. Então ela revistou seu bolso e encontrou uma semente mágica, e a lançou por cima de seu ombro esquerdo. No mesmo instante, uma enorme planície de espinhos surgiu entre os gênios e os fugitivos.
Os cavalos dos gênios não puderam correr como antes, pois os espinheiros se enroscavam em suas patas e os atrasavam, mas ao cabo de meia hora já estavam em seu encalço e  Nureddin perguntou:
-Fátima! Que vamos fazer? Temos que detê-los pois estamos ainda a meio caminho do reino de meu pai, no qual chegaremos ao amanhecer, se os gênios não nos alcançarem.
-Não tenhas medo! – disse Fátima com bravura, e buscando mais uma vez dentro de seu bolso – creio que posso fazer algo.
E lançou por cima de seu ombro esquerdo uma pinha.
Imediatamente surgiu um incrível bosque de árvores e os fugitivos puderam galopar sem ser vistos.
Os intrépidos animais os levaram cada vez mais próximos às terras do príncipe. Fátima, com os  cabelos flutuando ao vento, começava a sentir-se a salvo quando o príncipe olhou para trás e gritou:
-Ah! Nos alcançam de novo. Nos apanharão dentro em pouco a menos que algo os detenha.
Fátima buscou em seu bolso, e já caía em desespero quando seus dedos se fecharam sobre um grão de sal. Jogou-se para trás e imediatamente um espumoso mar surgiu detrás dos cascos de seu cavalo e nele caíram os gênios e seus cavalos afogando-se, pois os gênios não nadam bem em água salgada.
Fátima e Nureddin cavalgaram um pouco mais e quando o dia estava nascendo chegaram à bela cidade de Nashapur.
Ali o palácio real brilhava com esplendor de ouro e turquesa, com pavões nas alamedas do jardim exibindo cheios de pompa suas esplêndidas plumas.
Então os soldados das muralhas, vendo o príncipe se aproximar, fizeram soar as trombetas de prata incrustadas de raras pedras preciosas.
Fátima foi recebida como uma princesa, e casou-se com o príncipe numa esplêndida festa que durou sete dias e sete noites.
Os cavalos encantados que os levaram até ali desapareceram quando a lua estava cheia. Eles sabiam que sua jovem ama era, apesar de tudo, um ser humano, e preferiam viver a serviço dos gênios, pois esta é a lei mágica estabelecida quando o mundo começou através de Salomão, rei dos magos e das bestas encantadas, sobre quem seja a paz.


A cerejeira do Natal, de António Torrado


A cerejeira do Natal

O senhor Tadeu tinha, lá na horta, uma cerejeira de que gostava muito. Quando chegava o tempo das cerejas, era uma fartura, uma doçura que não havia igual.
Pois é, mas os pardais também diziam o mesmo. Tinham uma predilecção por aquela cerejeira, como se as cerejas fossem de mel. Eram quase.
O senhor Tadeu enxotava-os, pendurava fitas nos ramos para assustá-los e chegou a armar um espantalho de vassoura na mão, que prendeu no alto da cerejeira. Fazia vista, mas não metia medo.
Mal chegava o tempo das cerejas amadurarem, a pardalada vinha em excursão festiva para o meio da cerejeira. Depenicavam com tal arte que chegavam a deixar só o caroço das cerejas, preso ao pezinho suspenso da árvore. Um desespero para o senhor Tadeu.
Há dias, encontrei-o, na loja de artigos de Natal, a carregar um enorme embrulho.
— Ena! — exclamei eu. — O seu pinheiro vai ficar bem enfeitado.
— Não é para o pinheiro — emendou o senhor Tadeu. — É para a cerejeira.
Então, explicou-me o seu plano. Quando, da Primavera para o Verão, os frutos da cerejeira começassem a engordar, ele ia enfeitar a árvore com sininhos e bolas de Natal.
— Para os pardais julgarem que é um pinheiro — concluí eu, pouco convencido da eficácia do projecto. — Eles são mais espertos do que isso.
Seriam, de facto, reconheceu o senhor Tadeu, mas também são uns passarinhos alarmados. Detestam ruídos imprevistos. Ouvindo os sininhos agitados pelo vento, fogem. E as bolas de Natal, brilhando ao sol, também hão-de meter-lhes respeito.
O senhor Tadeu lá se foi, muito contente com o seu plano. Resulte ou não resulte, a cerejeira há-de gostar.
António Torrado


A avó e o S. Nicolau


A avó e o S. Nicolau

Vou contar uma história que se passou quando eu era criança. A história do S. Nicolau e da avó.
A minha avó era pequena e franzina e a mim parecia-me muito velhinha. Não por ter rugas ou cabelo branco, mas pela roupa que usava, sempre escura e de um corte antiquado. Também andava sempre com um avental preto, até mesmo ao Domingo. O avental dos domingos era de seda e fazia barulho ao andar.
Todos os anos, no princípio de Dezembro, a avó vinha para nossa casa. Passava o Inverno connosco na cidade. Assim que a avó chegava, começava para mim a época de Natal. Ao crepúsculo das tardes de Inverno, sentávamo-nos as duas diante do fogão de cerâmica. Era um fogão grande e verde e irradiava um calor muito confortável. Nos outros quartos, os fogões eram de ferro e raramente se acendiam.
O fogão tinha uma portinhola por detrás da qual havia uma placa de ferro onde se podia assar maçãs. Ao assar, o cheirinho espalhava-se pela sala, e a avó ia-me lendo histórias em voz alta. Também fazíamos prendas de Natal.
Mas a nossa melhor brincadeira era “Vamos a Belém”, que todos os anos repetíamos. Durava vários dias, talvez semanas até, e deixava a casa em pantanas.
Nada estava a salvo quando andávamos à procura do equipamento para a nossa viagem. Precisávamos de lençóis para a nossa tenda – em que outro sítio se poderia dormir durante a longa viagem para a Terra Santa? Precisávamos de caixas e caixotes para fazermos um barco – de que outra forma poderíamos nós atravessar o Mediterrâneo? Precisávamos de cadeiras e de cobertores para fazermos animais de carga que nos transportassem a nós e à nossa bagagem.
Nessa altura, o meu pai acabava sempre por sentir que lhe faltava qualquer coisa: o martelo, o alicate, os pregos ou o rolo da corda. Uma vez até disse que lhe tinha desaparecido a câmara-de-ar da bicicleta. E tinha razão. Tínhamos precisado dela à última hora para as nossas provisões de água. O caminho passava pelo deserto e já se sabe que os viajantes passam sede por lá, se não levarem água suficiente.
Era sempre uma longa viagem cheia de peripécias. Em terra, tínhamos de vencer lutas com bandidos e animais ferozes. No mar, passávamos por tempestades que quase afundavam o nosso barco. Uma vez, salvei a avó pela saia, mesmo no momento em que ia ser cuspida borda fora
Mas acabávamos sempre por chegar sãs e salvas a Belém. E, como por magia, sempre no dia 24 de Dezembro!
Quando a avó estava em nossa casa, também se passavam coisas misteriosas. Uma vez, ao meter-me na cama, encontrei um grão de ouro na minha almofada. Grãos de ouro! De onde é que vêm os grãos de ouro? Só podem vir das asas dos anjos! Algum anjo devia ter passado a voar sobre a minha cama!
Quando perguntei à avó, ela sorriu, mas não respondeu.
Certa manhã, apareceu uma estrela pendurada no tecto por um fio transparente. Ninguém sabia quem a tinha lá posto. Também ninguém soube explicar como é que o minúsculo presépio feito numa casca de noz fora parar no meio dos meus lápis de cor.
O facto mais maravilhoso era a minha avó conhecer o S. Nicolau. Ela conhecia-o mesmo! Eu sei! Eu estava lá quando ele falou com ela, lá no parque.
Já disse que a avó era antiquada. Mas não era só antiquada na roupa. No resto também. Falava muitas vezes do tempo em que tudo escasseava e ela achava que as pessoas deviam ser mais poupadas no dinheiro e nas coisas.
A avó era-o. Por isso queria trazer o ramo seco que estava caído no caminho.
– Ainda serve para o fogão – disse ela. – Apanha-o, por favor.
Mas eu não queria.
– Não! – disse eu. E, quando ela tentou apanhá-lo, eu afastei-o.
– Nós não apanhamos lenha. Vão levá-la a casa.
Na altura, não sabia porque tinha sido tão impertinente com a avó, mas agora penso que foi por causa das pessoas que passavam. Não queria que pensassem que precisávamos de andar a apanhar a lenha da rua.
A avó hesitou. Reparei que não sabia o que fazer.
De repente, à nossa frente, apareceu um homem idoso. Estava ali como por magia. Alto e respeitável, com uma barba branca e olhos a brilhar.
– Faça favor, minha cara e honrada senhora – disse ele com uma leve vénia. A voz era grave e sonora.
Estremeci como se tivesse sido atingida por um raio. Aquela voz! Aqueles olhos! Aquela barba branca comprida! Só podia… era, de certeza… Nem me atrevia a continuar a pensar. “Minha cara e honrada senhora”, tinha ele dito à avó. Tinha-lhe feito uma vénia e a avó sorrira e agradecera-lhe.
Depois desapareceu. Tão repentinamente como aparecera.
No caminho para casa, não abri a boca. Tropeçava nas pedras do passeio e nas tampas do saneamento, e dentro de mim ia uma grande confusão.
Agora ele viu – pensava eu. – Agora ele já sabe como é que eu às vezes me porto.
A avó caminhava ao meu lado, em silêncio. O ramo meio seco ia a arrastar pelo chão. À porta de casa, não aguentei mais. Enterrei a cara nas pregas da gabardina da avó e desatei num pranto.
A avó deixou-me chorar. Não fez nada para me consolar, e eu pensava: “Agora vai ficar zangada comigo para sempre e aquele… aquele desconhecido do parque, também.”
Mas então reparei que ela se tinha debruçado sobre mim. Sentia a sua respiração quente nos meus cabelos e ouvia-a falar-me muito baixinho. O que dizia, não percebi, porque ainda soluçava com muita força. Não conseguia parar.
A avó então afastou-me um pouco dela e perguntou:
– Queres levá-lo para cima? Já é um pouco pesado para mim.
Claro que percebi imediatamente que se referia ao ramo e por um momento, sustive a respiração. Depois remexi no bolso, tirei um lenço e assoei as lágrimas que tinha no nariz.
– Dá cá! – disse. Peguei no ramo seco e subi ruidosamente as escadas.
Metemo-lo logo no fogão de cerâmica e ouvia-o a crepitar e a estalar.
“Será que ele sabe que fui eu que o carreguei para cima?”, pensava eu. A avó acenou-me com a cabeça e riu-se. Vi então que estava tudo bem outra vez e fiquei muito feliz com isso.


Pele de urso, contos dos irmãos Grimm


Pele de urso
contos dos irmãos Grimm


Há muito, muito tempo atrás, havia um jovem que se alistou como soldado, e era sempre o primeiro a avançar quando se tratava de chuvas de balas. Enquanto durou a guerra, tudo lhe correu às mil maravilhas; mas assim que se a paz foi assinada, ele foi demitido, e o comandante disse para que ele fosse onde desejasse. Seus pais haviam morrido, e portanto, ele não tinha mais casa, então, ele voltou para a casa de seus irmãos, e pediu para que eles o aceitassem, e ficasse com eles até a próxima guerra.
Os irmãos dele todavia, eram duros de coração e disseram: — “O que você poderia fazer aqui? você não tem utilidade para nós, vá e viva a sua própria vida.” O soldado não possuía nada além de uma carabina, ele a colocou no ombro, e partiu para o mundo. E chegou a um grande matagal, onde não conseguia enxergar nada além de um pequeno círculo de árvores, e debaixo destas árvores ele se sentou triste, e começou a pensar no seu destino.
— “Não tenho dinheiro,” pensou ele, “não tenho profissão, só sei lutar, e agora que só existe paz, eles não precisam mais de mim, então, já estou pressentindo que vou morrer de fome.”
De repente ele ouviu um barulho, e quando ele olhou em volta, uma figura estranha estava diante dele, a criatura usava um casaco verde, tinha um olhar imponente, mas tinha pés rachados que nem de cabra o qual ela ocultava.
— “Eu sei o que você está precisando,” disse o homem, “ouro e muitas riquezas é o que você terá, tanto quanto você desejar, mas primeiro é necessario que você não seja medroso, para que eu não aplique em vão o meu dinheiro.”
— “Soldado e covardia, — como estas coisas podem andar juntas?” perguntou o soldado, “podes me colocar a prova.”
— “Muito bem, então,“ respondeu o desconhecido, “olhe atrás de você.” O soldado se virou, e viu um urso enorme, que vinha rosnando atrás dele.
— “Uau,“ exclamou o soldado, “espera aí que vou dar uma coçadinha no teu nariz, até que você perca a vontade de rosnar,” e foi em direção ao urso e deu um tiro bem no meio do focinho, ele caiu e nunca mais voltou a se mexer.
— “Está provado que não te falta coragem!,” disse o desconhecido, “mas falta ainda outra condição que deves satisfazer.”
— “Desde que isso não ponha em risco a minha vida,” respondeu o soldado, que sabia muito bem diante de quem ele estava.
— “Se a tua vida correr perigo, não serei responsabilizado por isso. Tu deverás fazer tudo sozinho.”, respondeu o homem de casaco verde, que disse “nos próximos sete anos, não deverás tomar banho, nem pentear a tua barba, nem o teu cabelo, nem cortar as tuas unhas, nem rezar o padre nosso.”
— “Eu te darei um casaco e uma capa, os quais deverás usar. Se morreres durante estes sete anos, cairás em meu poder; se, pelo contrario, viveres além desse tempo, conquistarás a liberdade e serás rico o resto de teus dias.” O soldado pensou no abandono extremo em que ele se encontrava agora, mas que tantas vezes havia enfrentado a morte, que ele decidiu correr novamente esse risco, e aceitou o convite. O diabo tirou o seu casaco verde, e entregou para o soldado, e disse:
— “Enquanto estiveres usando este casaco na tua costa, e colocares as mãos dentro do bolso, sempre os encontrarás cheios de dinheiro.” Então, ele arrancou a pele do urso e disse:
— “Esta será a tua capa, e a tua cama também, pois nela dormirás, e não farás uso de nenhuma outra cama, e por causa desta roupa você será chamado a partir de agora de Pele de Urso.” Dito isto, o diabo desapareceu.

O soldado colocou o casaco, enfiou as mãos dentro do bolso, e percebeu que realmente tudo era verdade. Depois ele vestiu a pele de urso, e partiu em jornada pelo mundo, e estava feliz, e não se abstinha de nada que lhe fizesse bem e lhe trouxesse dinheiro. Durante o primeiro ano tudo veio a contento, porém, no segundo ele começou a ficar feio como um monstro. Os seus cabelos começaram a cobrir quase todo o seu rosto, a sua barba parecia um pedaço de feltro muito grosseiro, seus dedos se transformaram em garras, e o seu rosto ficou tão coberto de sujeira, que dava até para plantar agrião.
Todos aqueles que o viam, corriam dele, mas como ele sempre dava esmolas aos pobres para que orassem para que ele não morresse durante os sete próximos anos, e como ele pagava bem por tudo, ele sempre encontrava abrigo. No quarto ano, ele entrou numa estalagem, onde o próprietário não o queria receber, e não queria nem que ele ficasse no estábulo, porque ele receava que os cavalos ficassem assustados. Mas, quando Pele de Urso enfiou a mão no bolso e tirou um punhado de ducados, o anfitrião mudou de opinião e lhe ofereceu um quarto na parte externa da estalagem. Pele de Urso, no entanto, devia prometer que não seria visto, caso contrário a estalagem ficaria com má fama.
Quando Pele de Urso estava sentado à noite, e desejava do fundo do coração que os sete anos houvessem se passado, ele ouviu queixas e lamentações que vinham de um quarto anexo. Como ele tinha bom coração, ele abriu a porta, e viu que um velhinho chorava amargamente, e até punha as mãos na cabeça. Pele de Urso se aproximou, mas o homem saiu correndo e tentou escapar dele. Finalmente, quando o homem percebeu que Pele de Urso tinha voz humana, ficou mais tranquilo, e conversando amigavelmente, Pele de Urso conseguiu que o velhinho lhe revelasse a causa de sua tristeza.
Os seus recursos estavam minguando a olhos vistos, ele e as suas filhas começariam a passar fome, e ele era tão pobre que não conseguia pagar o estalajadeiro, e por isso ele seria preso.
— “Se o seu problema for somente esse,” disse Pele de Urso, “fique tranquilo, eu tenho muito dinheiro.”
E mandou que o estalajadeiro fosse trazido até ali, pagou o que o velhinho lhe devia, e pôs ainda uma bolsa cheia de dinheiro dentro do bolso do velhinho.
Quando o velhinho se viu livre de todos os seus problemas, ele não tinha palavras para agradecer.
— “Venha comigo,” disse ela a Pele de Urso, “as minhas filhas são verdadeiras maravilhas da natureza, escolha uma delas para ti como esposa.” Quando elas souberem o que você fez por mim, elas não irão te rejeitar.”
— “A princípio você parece estranho, mas elas saberão dar um jeito na sua aparência de novo.” Isto agradou muito ao Pele de Urso, e ele foi.

Quando a filha mais velha o viu, ela ficou muito assustada, com o aspecto dele, e ela gritou e fugiu dele. A segunda ficou parada e o media da cabeça aos pés, mas, então, ela disse:
— “Como é que eu posso aceitar um marido que não tem mais a forma humana e que parece um bicho?” O urso pelado que passou por aqui uma vez e que tinha feições humanas me agradava muito mais, pois, de qualquer jeito ele usava roupas e luvas de um hussardo[1]. Se ele fosse apenas feio eu me acostumaria com isso.”
Porém, a mais jovem disse,
— “Querido pai, ele deve ser um bom homem por tê-lo ajudado a resolver os teus problemas, portanto, se você prometeu que daria uma noiva para ele, a sua promessa deve ser cumprida.” Era uma pena que o rosto de Pele de Urso estivesse coberto de sujeira e de pelos, pois se não estivesse, elas teriam visto como ele ficou feliz ao ouvir estas palavras.
Ele tirou o anel do dedo, dividiu o anel em dois, e deu a ela a metade, e a outra ele guardou para si. Ele escreveu seu nome, todavia, na metade que ficou com ela, e o nome dela, na metade que guardou para ele, e pediu para que ela guardasse com cuidado a metade dela, e então, ele pediu licença e saiu:
— “Eu tenho de perambular por três anos ainda, e depois disso, se eu não retornar, estarás livre, pois eu estarei morto. Mas ore a Deus para que Ele preserve a minha vida.”
A pobre noiva prometida se vestiu inteiramente de preto, e quando ela pensava no seu futuro noivo, os seus olhos se enchiam de lágrimas. As suas irmãs somente a desprezavam e zombavam dela:
— “Cuidado,” dizia a mais velha, ”se você der a mão pra ele, ele vai machucar você com as suas garras.”
— “Seja esperta,” dizia a segunda, “ursos gostam de doces, se ele simpatizar com você, ele vai devorar você inteirinha.”
— “Deves fazer tudo que ele mandar,” começou a mais velha novamente, “ou então, ele vai começar a rosnar.” E a segunda aproveitou e disse:
— “Mas vocês serão felizes no casamento, porque os ursos gostam de dançar.” A noiva ficava em silêncio, e não permitia que as suas irmãs a entediassem. Pele de Urso, todavia, viajava pelo mundo de um lugar para outro, fazia o bem quando lhe era possível, e gostava de fazer doações aos pobres para que eles pudem orar por ele.

Finalmente, quando raiou o último dia dos sete anos, ele tirou a capa mais uma vez, e se sentou debaixo do círculo de árvores. Não demorou muito e o vento começou a assobiar forte, e o tinhoso apareceu diante dele, e olhava furioso para ele, então, ele jogou o seu casaco velho para o Pele de Urso, e pediu o seu manto verde de volta.
— “Nunca chegamos tão longe em nosso acordo,” falou Pele de Urso, ‘‘tu deves me limpar primeiro.” Se o filho do cão gostava ou não, ele foi obrigado a buscar água, e a lavar o Pele de Urso, pentear seu cabelo, e cortar suas unhas. Depois disto, ele ficou parecendo um soldado valente, e estava muito mais bonito do que havia estado antes.
Quando o diabo tinha ido embora, Pele de Urso ficou muito aliviado. Ele foi à cidade, vestiu um magnífico casaco de veludo, se sentou numa carruagem puxada por quatro cavalos, e correu para a casa da sua noiva. Ninguém o reconheceu, o pai acreditou que se tratasse de um general muito importante, e o conduziu para o lugar onde as suas filhas estavam esperando. Ele foi obrigado a se colocar no meio das duas mais velhas, que serviram vinho para ele, lhe ofereceram os melhores pedaços de carne, e ficaram pensando que em todo o mundo não existiria homem mais perfeito.
A noiva, no entanto, sentou-se de frente para ele vestida de preto, e não ousava levantar os olhos, nem tinha coragem de dizer palavra alguma. Quando finalmente ele perguntou ao pai se daria como esposa uma de suas filhas, as duas mais velhas pularam, correram para os seus dormitórios, e vestiram roupas maravilhosas, e cada uma delas ficou imaginando que seria ela a escolhida. O desconhecido, assim que ele ficou a sós com a sua noiva, trouxe a metade do anel que havia ficado com ele, e o jogou dentro de um copo de vinho que ele apanhara em cima da mesa para ela.
Ela pegou o vinho, e depois que ela o bebeu, e descobriu a metade do anel no fundo do copo, o coração dela começou a bater forte. Ela pegou a outra metade, que usava num colar ao redor do pescoço, juntou as duas partes, e viu que as duas metades se encaixavam exatamente uma na outra. Então, ele disse:
— “Eu sou o teu noivo prometido, a quem conhecestes como Pele de Urso, mas, com a graça de Deus a forma humana me foi restituída, e mais uma vez estou limpo de novo.”
Ele foi até ela, abraçou—a, e deu—lhe um beijo. Enquanto isso, as duas irmãs voltaram todas enfeitadas e quando elas viram que o belo homem já estava comprometido com a irmã mais jovem, e souberam que ele era o Pele de Urso, fugiram tomadas de ódio e furiosas. Uma delas se atirou no poço, e a outra se enforcou na árvore. À noite, alguém bateu à porta, e quando o noivo a abriu, viu que era o diabo em seu casaco verde, que disse:

— “Veja você, que eu perdi a tua alma, mas, em compensação consegui duas!”