terça-feira

O chacal que salvou o leão, Fábula Hindu


O chacal que salvou o leão

Era uma vez um leão que vivia na selva. Certo dia, quando ele foi beber água em um regato, suas patas ficaram presas na lama do chão, e ele não conseguia sair do lugar. O leão teve que ficar vários dias sem comida, pois ali não passara ninguém para ajudá-lo. Finalmente, chegou o dia em que apareceu um amável chacal, que, escavando na areia, conseguiu desprender o leão e puxá-lo para fora da lama. O leão ficou muito grato pelo chacal ter-lhe salvo a vida. Assim, o leão propôs ao chacal que passasse a viver junto a ele, e também prometeu o alimentaria sempre que capturasse um animal. O chacal, então, passou a viver com o leão, dividindo as caças com ele. Logo expandiram suas respectivas famílias (tendo leõezinhos e pequenos chacais).
Depois de muito tempo, a leoa, senhora da casa do leão, ficou farta da amizade do chacal com seu senhor. Ela disse isso aos filhotes do leão, que o disseram aos filhotes do chacal, que, por sua vez, o disseram à senhora do chacal. Esta, então, falou o que ouvira ao próprio chacal, que foi até o leão e lhe disse que, se não mais quisesse manter a amizade, deveria ter dito isso há muito tempo.
O leão estava bastante surpreso com isso, e assegurou ao chacal que jamais desejara romper a amizade, e que falaria o quanto antes com a leoa. Mas o sábio chacal disse-lhe então: “Amigo, eu sei que és sincero. Mas nossas famílias podem não manter o mesmo grau de amizade que nós. Portanto, os mantenhamos a parte; podemos até nos encontrar para caçar, mas é melhor que minha família se mantenha distante da tua”. O leão concordou com o conselho do chacal, e as duas famílias se distanciaram, mas o chacal e o leão continuaram bons amigos, saindo juntos para caçar.

Moral: Não espere que sua família corresponda ao mesmo grau de amizade que você tem com outra pessoa.


Histórias Hindus

segunda-feira

A rosa de seda, Fábula de Fernando pessoa


A rosa de seda

Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula:
A uma bordadeira dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre tolhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que uma das rosas era menos bela do que lhe convinha, c que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos tontos como este, não podiam deixar de a matar, se ela não bordasse a rosa branca.
Por fim, não havendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela,
Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe.
No fabulário, de onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma.

Fernando Pessoa,

in O Jornal, Lisboa, n.° 1, 04-04-1915

O corvo ganancioso, Fábulas do Mundo


O corvo ganancioso

Era uma vez uma boa pomba que vivia em um ninho próximo a uma cozinha. Os cozinheiros dali gostavam dela, e costumavam alimentá-la com grãos. Ela gostava do local, e tinha uma boa vida. Certo dia um corvo viu a pomba, e viu a maravilhosa comida que ela conseguia da cozinha. Assim, ele fez logo amizade com a pomba, e, sob esse pretexto, passou a compartilhar o ninho com ela. A pomba disse-lhe, então, que eles podiam passar o tempo discutindo política, religião ou outros assuntos afins, mas, em se tratando de comida, cada qual deveria cuidar de si mesmo. O corvo, então, impacientou-se, pois a comida era o único motivo pelo qual estava ali. Ele queria carne, mas tudo que a pomba conseguia da cozinha eram grãos.
Ele não mais podia esperar, e decidiu ir até a própria cozinha em busca de seu alimento. Assim, ele cautelosamente desceu pela chaminé da cozinha, onde sentiu um maravilhoso cheiro de peixe fritando na panela. O corvo não pôde resistir, e avançou pela cozinha em busca do peixe frito. Mas, no caminho, ele derrubou uma jarra, fazendo um grande barulho. A agitação alertou um cozinheiro que estava no aposento ao lado da cozinha, e ele logo capturou e matou o corvo.

Moral: A Ganância entorpece a Inteligência.

Histórias Hindus

O noivo da Rã


O noivo da Rã

Era uma vez havia um pai que tinha três filhos. Ele mandou dois procurar noivas para eles, entretanto,  o terceiro, a que chamavam Hansl O Estúpido, resolveu ficar em casa e alimentar os animais.  O pai não estava satisfeito com isso, assim finalmente disse: “Apenas vá! Você pode procurar uma noiva também!”

Então Hansl se foi, e ele chegou a uma grande floresta.  Do outro lado da floresta havia um lago.  Um sapo estava sentado nas margens da lagoa, e ele perguntou:  “E agora, Hansl,  aonde você está indo?”

“Oh, eu estou procurando uma noiva!”

“Case comigo!”  disse o sapo, e para Hansl estava tudo bem,  porque ele não sabia onde poderia encontrar uma noiva.  O sapo pulou na lagoa,  e Hansl voltou para casa.

Seus irmãos já estavam lá, e eles queriam saber se o tolo encontrou uma noiva. “Sim”, disse Hansl, “eu já tenho uma!”

No dia seguinte, o pai deu a cada um um monte de linho,  dizendo: “Vou dar uma casa aquele cuja noiva seja capaz de tecer o mais bonitos dos fios emtrês dias.” Em seguida, cada um foi embora, incluindo Hansl.

O sapo estava novamente sentado no banco da lagoa. “Agora, meu noivo, onde você está indo?”

“Falar com você. Você pode tecer?”

“Sim”, disse o sapo. Basta amarrar o linho em minhas costas.”

Hansl fez isso, e o sapo pulou na lagoa. Um fio de linho estava aparecendo na superfície e outra ponta estava no fundo do lago. “É uma pena sobre o linho. Se estragou”, pensou Hans, e ele, infeliz, voltou para casa.

Mas, mesmo assim, no terceiro dia ele voltou para a lagoa. O sapo estava novamente sentado no banco, e ele perguntou: “Agora, noivo, onde você está indo?”

“Já teceu?”

“Sim”, disse o sapo pulando na lagoa, e voltou com a meada de um fio de linho que era o mais bonito do que qualquer outro que tenha sido fiado. Hans estava feliz, e ele correu de volta para casa alegre, e ele com certeza tinha  o mais lindo dos fios.

Os irmãos se queixaram, e então o pai disse: “Vou dar a casa para aquele que trouxer para casa a noiva mais bonita.”

Os irmãos se foram mais uma vez, mas desta vez Hansl levou uma jarra de água com ele.

Os outros dois queriam saber: “Por que você está levando essa garrafa de água com você?”

“Para colocar a minha noiva dentro”

Os dois riram, “Ele deve ter mesmo uma noiva linda!”

A rã já estava sentada perto da lagoa. “Agora, meu noivo, onde você está indo?”

“Hoje eu estou voltando por você!”

Então a rã pulou na lagoa e voltou com três chaves. “Vá lá em cima”, disse. “Há um castelo lá.  Uma das três chaves abre a sala de estar, uma abre o estábulo, e outra a carruagem. N a sala há três túnicas:  uma vermelha, uma verde e uma branca.  No estábulo, há dois cavalos brancos,  dois pretos e dois marrons.  No estábulo você encontrará três coches:  um de ouro, um de prata e um de vidro.  Em cada lugar que você pode pegar aquele que você quiser”.

Uma vez dentro do castelo Hansl primeiro tentou o manto vermelho, mas ele não gostou: “Isso me faz parecer um açougueiro.” Ele não gostou do verde também: “Faz-me parecerum caçador.”  O branco bem caiu melhor.  Então ele foi para o estábulo e levou os cavalos marrons.  Na casa da carruagem, ele primeiro quis pegar a de ouro, mas era demasiado nobre para ele.  A de prata era muito pesada, então ele pegou a de vidro.  Ele engatou a parelha com os cavalo marrons e foi para o lago.

Uma bela e jovem mulher estava lá.  Ela disse, “Você me redimiu. Se você pegasse a melhor coisa em cada lugar, então eu teria que continuar a ser um sapo.  E essa floresta é um grande pomar e, a lagoa é um jardim de rosas. Tudo isso pertence a você.  Deixe o seu irmãos ficar com a casa. Você poderá se casar com quem quiser. “

“Não, você deve vir comigo, assim meu pai e meus irmãos, poderão te ver.”

Então, ela partiu com ele. O pai e os irmãos ficaram espantados quando viram Hansl com a linda e jovem mulher no coche.  Mas de súbito ela desapareceu e voou para os ceús na f orma de uma pomba branca.  Hansl deu a casa a seus irmãos.  Ele se casou com uma mulher local e foi muito feliz.  E se ele não morreu, então ele ainda deve estar vivo.


Fonte: Jungbauer Gustav, Märchen-Böhmerwald (Passau, 1923).

A primeira pedra, Lenda árabe


A primeira pedra
Lenda árabe

Na cidade de Bássora vivia um sultão muito sábio, rico, generoso, cheio de bondade e valentia.
Um dia, esse sultão saiu para passear sozinho pelos arredores de seu palácio, quando avistou quatro homens, com atitude agressiva, rodeando uma mulher, que escondia o rosto com as mãos descarnadas.
Ao serem surpreendidos pelo soberano, ficaram mudos de espanto e medo.
- Que fez esta mulher? - perguntou, sereno, o sultão.
- É uma ladra ó senhor! - respondeu um dos homens - Foi pega por nós roubando frutas de seu pomar.
- Roubei para meus filhinhos - soluçava a mulher - eles têm fome...
- A lei é clara, ó rei generoso - interrompeu-a um dos homens - diz que se deve cortar a mão direita do ladrão. Estou bem certo, ó rei, que é esse castigo que cabe a esta pecadora.
- Na minha opinião, esta pobre mulher deve ser perdoada, afinal, só quis pegar comida para os filhos. E, uma mãe desesperada que rouba para matar a fome de um filho merece nossa simpatia e faz jus ao nosso perdão. Mas, como a lei deve ser obedecida, ela vai ser castigada com impiedoso rigor. Penso, porém, que o castigo dado a um ladrão ainda é pouco para este pecado tão grave que esta infeliz cometeu. Determino que ela seja imediatamente apedrejada!
Esta determinação causou total espanto entre os homens, afinal, um sultão tão bom iria dar um castigo tão rigoroso como este?
- Vizir, atire a primeira pedra!
- Mas eu não tenho pedra alguma aqui, ó senhor!
- Então atirai esta que prende em seu turbante! - ordenou o rei.
Diante desta ordem, o vizir não teve outra saída. Com grande mágoa no coração, atirou a valiosa gema, que lhe servia de adorno, aos pés da mulher.
- Agora vós, Namã! Atirai estas pedras que brilham em vossos dedos!
- Os três homens, um a um, tiveram que se desfazer dos preciosos anéis que brilhavam em seus dedos.
Voltando-se para a mulher, disse-lhe o sultão:
- Apanhe todas estas "pedras" minha filha! Terás aí o que comprar, por toda a vida, o pão e o agasalho para seus filhinhos...Estás livre!

A pobre mulher, as lágrimas de gratidão escorrendo em seu rosto, beijou a mão do rei, tão bondoso, que era capaz de fazer a bondade, castigando ao mesmo tempo, quatro homens malvados, sem coração.

As duas melhores amigas, Conto de Moçambique


As duas melhores amigas
Conto de Moçambique

Havia duas mulheres amigas, uma que podia ter filhos, e tinha muitos, e a outra não. Um dia, a mulher estéril foi a casa da amiga e convidou-a a visitá-la, dizendo:
- Amiga, tenho muitas coisas novas em casa, venha vê-las!
- Está bem. - concordou a outra.
De manhã cedo, a mulher que tinha muitos filhos foi visitar a amiga. Ao chegar a casa desta, chamou-a:
- Amiga, minha amiga! - trazia consigo um pano que a mulher estéril aceitou e guardou.
As duas amigas ficaram a conversar, tomando um chá que a dona da casa tinha preparado para as duas. Ao acabarem o chá, a dona da casa quis, então, mostrar à amiga as coisas que tinha comprado.
Passaram para a sala e a mulher estéril abriu uma mala mostrando à amiga roupa, brincos, prata e outras coisas de valor. No final da visita, a mulher que tinha muitos filhos agradeceu, dizendo:
- Um dia há-de ir a minha casa ver a mala que eu arranjei.
E, um certo dia, a mulher que não tinha filhos, foi a casa da amiga. Mal a viram, os filhos desta gritaram:
- A sua amiga está aqui! - agradeceram a peneira que ela trazia na cabeça e guardaram-na. Começaram, então, a preparar o chá. A mãe das crianças chamava-as uma a uma:
- Fátima!
- Mamã?
- Põe o chá ao lume!
- Mariamo!
- Sim?
- Vai partir lenha!
- Anja!
- Sim?
- Vai ao poço
- Muacisse!
- Mamã?
- Vai buscar açúcar!
- Muhamede!
- Sim?
- Traz um copo!
- Mariamo!
- Vamos lá, despacha-te com o chá!
Assim que o chá ficou pronto, tomaram-no e conversaram todos um pouco. Quando a amiga se ia embora, a mulher que tinha filhos disse:
- Minha amiga, eu chamei-a para ver a mala que arranjei, mas a minha mala não tem roupa nem brincos! A mala que lhe queria mostrar são os meus filhos!
A mulher que não podia ter filhos ficou muito triste e, antes de chegar a casa, sentiu-se muito mal, com dores de cabeça e acabou por morrer.
Comentário do narrador: coisa não é coisa, coisa é pessoa!

A missão principal da mulher é a procriação e o respeito que lhe é devido aumenta com a idade e com o número de filhos. Assim, ter filhos é muito importante e quantos mais se tiver melhor, pois eles são a riqueza e o futuro da família. Nas sociedades matrilineares, donde provém este conto (Norte de Moçambique), se as mulheres não tiverem filhos a sua linhagem não continua. Quando o homem é estéril, é repudiado de imediato; a esterilidade feminina é atribuída à pouca sorte, podendo, quer num caso quer noutro, tentar-se o tratamento junto do curandeiro.


Neste conto, após tudo ter tentado para poder engravidar e não o tendo conseguido, a mulher acabou por morrer de desgosto. A sua riqueza era feita só de bens materiais, enquanto que a riqueza da amiga eram os filhos. De realçar o costume de a visitante oferecer.