domingo

O papel e a tinta, Fábulas de Leonardo Da Vinci


O papel e a tinta - Fábulas de Leonardo Da Vinci

Certo dia uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras folhas exactamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha.
- Porque você não me poupou dessa humilhação? - disse, furiosa, a folha de papel para a tinta.
- Espere! - respondeu a tinta - eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora você não é mais apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você se transformou num documento precioso!
E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas para jogá-las na lareira. Mas subitamente reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita.


Os tordos e a coruja, Fábulas de Leonardo Da Vinci

 

Os tordos e a coruja - Fábulas de Leonardo Da Vinci

Estamos livres! Estamos livres! - gritaram os tordos certo dia, vendo que um homem apanhara a coruja - agora a coruja não vai mais nos assustar. Agora dormiremos em paz.
De fato, a coruja caíra numa armadilha e o homem a colocara dentro de uma gaiola.
- Vamos ver a coruja na prisão! - disseram os tordos, voando e cantando em volta da gaiola de sua inimiga.

Porém o homem capturara a coruja com outra finalidade, a de apanhar os tordos. A coruja aliou-se imediatamente a seu captor, que prendeu-a pelo pé e colocava-a diariamente em cima de uma estaca, bem à vista. A fim de poderem ver a coruja, os tordos voaram para as árvores próximas, nas quais o homem escondera gravetos cobertos de visgo. E assim como a coruja, os tordos também perderam a liberdade.

A toupeira, Fábulas de Leonardo Da Vinci


A toupeira - Fábulas de Leonardo Da Vinci

Uma toupeira estava passeando em baixo da terra ao longo das longas galerias subterrâneas que sua família havia escavado durante muitos anos de trabalho.
Andou para a frente e para trás, subiu ao último andar e desceu até o porão como se enxergasse perfeitamente bem. Na realidade, assim como todas as toupeiras, ela tinha olhos muito pequeninos e não via quase nada.
Finalmente chegou a um caminho que não conhecia e prosseguiu adiante!
- Pare! - gritou uma voz vinda do andar inferior - essa galeria conduz ao exterior e é perigosa!
Porém a toupeira continuou a subir até chegar a um monte de terra.
Levantou o focinho e emergiu. Porém a brilhante luz do Sol cegou-lhe os olhos e ela correu de volta para a escuridão de seu abrigo.


A rede, Fábulas de Leonardo Da Vinci


A rede - Fábulas de Leonardo Da Vinci

Naquele dia, como todos os dias, a rede subiu carregada de peixes. Carpas, barbos, lampreias, trutas, enguias e muitos, muitos outros peixes foram para as cestas dos pescadores.
Lá no fundo da água do rio, os sobreviventes, assustados e com medo, não ousavam se mexer. Famílias inteiras já haviam sido enviadas para o mercado. Diversos cardumes tinham caído na rede e terminado na frigideira. Que fazer?
Um grupo de jovens peixes promoveu uma reunião atrás de uma pedra e decidiu se revoltar.
- É uma questão de vida ou morte - disseram eles - todos os dias essa rede afunda na água, cada vez num local diferente, para nos aprisionar e nos levar embora de nosso lar. Vai acabar nos matando a todos, e o rio ficará sem peixe algum. Nossos filhos têm direito à vida e precisamos fazer alguma coisa para livrá-los deste flagelo.
- E que podemos fazer? - perguntou uma truta que seguira os conspiradores.
- Destruir a rede - responderam os outros em coro
As enguias encarregaram-se de rapidamente espalhar a notícia dessa corajosa decisão e convocaram todos os peixes para um encontro na manhã seguinte, numa pequena enseada protegida por altos salgueiros.
No dia seguinte, milhões de peixes de todos os tamanhos e idades reuniram-se para declarar guerra à rede.
A liderança foi entregue a uma sábia e velha carpa, que por duas vezes conseguira escapar da prisão, mordendo as malhas da rede.
- Ouçam com atenção - disse a carpa - a rede é da largura do rio, e todas as malhas têm um chumbo preso por baixo, para que a rede afunde. Dividam-se em dois grupos. Um dos grupos suspenderá os pesos de chumbo e os carregará até a superfície, e o outro segurará as malhas por cima com firmeza. As lampreias vão serrar com os dentes a corda que mantém a rede esticada entre as duas margens. As enguias vão partir já, para fazer uma inspeção e nos informar em que local a rede foi lançada.
As enguias partiram. Os peixes formaram grupos ao longo das margens. Os barbos encorajavam os mais tímidos, relembrando-lhes o triste fim de tantos amigos e exortando-os a não terem medo de ficarem presos na rede, porque daquele dia em diante nenhum homem seria mais capaz de arrastá-la para a margem.
As enguias retornaram, missão cumprida. A rede fora lançada a uma milha dali.
Então todos os peixes, como uma frota gigantesca, partiram atrás da velha carpa.
- Tomem cuidado - disse a carpa - pois a correnteza pode arrastar vocês para dentro da rede. Sigam devagar e usem bem as nadadeiras.
E então viram a rede, cinzenta e sinistra.
Os peixes, acometidos de súbita fúria, nadaram para atacar.

A rede foi suspensa por baixo, as cordas que a seguravam foram cortadas, as malhas foram rasgadas. Mas os peixes, enfurecidos não largavam mais sua presa. Cada um segurava na boca um pedaço de malha e abanando fortemente as caudas e as nadadeiras, puxavam de todos os lados a fim de rasgar e destruir a rede. E a água parecia estar fervendo enquanto os peixes finalmente libertavam o rio daquele perigo.



A serpente e os pássaros, Fábulas de Leonardo Da Vinci


A serpente e os pássaros - Fábulas de Leonardo Da Vinci

Não havia mais tantos pássaros no bando quanto anteriormente. Cada dia um deles desaparecia misteriosamente, sem ninguém notar como. O líder do bando não conseguia encontrar explicação alguma.
Certa manhã, em vez de voar na frente, colocou-se em último lugar, a fim de poder vigiar seus companheiros.
Voaram, como sempre, em direção a uma floresta distante. Ao passarem por cima de um colina o líder notou que o ordenado bando separou-se, como se atingido por um forte vento. A maioria dos pássaros tornou a formar uma fila ordenada. Porém dois dos mais jovens prosseguiram numa rota diferente, como se atraídos por alguma força invisível.
E subitamente o líder viu a serpente. Era muito comprida e tinha diversos anéis.
Todas as manhãs ficava escondida na grama, à espera da passagem do bando. Então abria a boca e aspirava com força, sugando os pássaros para dentro de sua boca.

Tendo descoberto o perigo, o sábio líder, desse dia em diante, conduziu o bando por outra rota e a serpente nunca mais apanhou nenhum deles.




Histórias de Tia Nastácia, conto de Monteiro Lobato


Histórias de Tia Nastácia – conto de Monteiro Lobato

Pedrinho, na varanda, lia um jornal. De repente parou, e disse a Emília, que andava rondando por ali:

— Vá perguntar a vovó o que quer dizer folclore.

— Vá? Dobre a língua. Eu só faço coisas quando me pedem por favor. Pedrinho, que estava com preguiça de levantar-se, cedeu à exigência da ex-boneca.

— Emilinha do coração — disse ele — faça-me o maravilhoso favor de ir perguntar à vovó que coisa significa a palavra folclore, sim, tetéia?

Emília foi e voltou com a resposta.

— Dona Benta disse que folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria, ciência. Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, depais a filhos — os contos, as histórias, as anedotas, as superstições, as bobagens, a sabedoria popular, etc. e tal. Por que pergunta isso, Pedrinho?

O menino calou-se. Estava pensativo, com os olhos lá longe. Depois disse:

— Uma idéia que eu tive. Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando,de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela.

Emília arregalou os olhos.

— Não está má a idéia, não, Pedrinho! Às vezes a gente tem uma coisa muito interessante em casa e nem percebe.

— As negras velhas — disse Pedrinho — são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava históriase mais histórias. Quem sabe se tia Nastácia não é uma segunda tia Esméria?


Foi assim que nasceram as Histórias de Tia Nastácia.