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terça-feira

A princesa Thumbelina, conto de Hans Christian Andersen


A princesa Thumbelina

Era uma vez uma mulher que queria muito ter um filho; mas ela não sabia a quem recorrer. Então, ela procurou uma velha bruxa, e falou,
— “Gostaria muito de ter um filho! será que você saberia onde eu poderia conseguir um?”
— “Oh! mas isso é muito fácil,” disse a bruxa. “Veja, você tem aqui um grão de cevada: esse não é do tipo que cresce no campo dos fazendeiros, e que as galinhas adoram comer. Coloque o grão dentro de um vaso de flores, e você verá o que vai acontecer.”
— “Muito obrigada,” disse a mulher, entregando a ela uma moeda de prata.
Então, ela foi para casa e plantou o grão de cevada, e imediatamente surgiu uma flor grande e linda, que se parecia com uma tulipa; mas as folhas estavam muito fechadas, como se fossem ainda um botão.
— “É uma flor muito bonita,” disse a mulher; e ela beijava suas belas folhas amarelas e vermelhas. Mas quando ela estava beijando, a flor se abriu fazendo um barulho muito alto. Era um tulipa de verdade, como ela podia ver agora; mas na parte central da flor ela viu uma menina muito extraordinariamente pequena, sentada em cima de um estame verde, olhando delicada e graciosamente. Sua altura não chegava a metade do comprimento de um polegar, e por isso ela foi chamada de Thumbelina ou "A pequena polegar".
Uma casca de noz extremamente limpa servia de berço para Thumbelina, folhas de violetas azuis eram o seu colchão, e o seu cobertor era uma pétala de rosa. Ali ela dormia à noite; mas durante o dia ela brincava em cima da mesa, onde a mulher colocava um prato rodeado por uma coroa de flores, cujos caules ficavam dentro da água; dentro da água, uma folha de tulipa ficava flutuando, e sobre a folha a graciosa menina ficava sentada, e ficava remando de um lado para outro do prato, com dois pelos brancos de cavalos que lhe serviam de remos. O cenário era mesmo encantador! Ela também gostava de cantar, e de fato, ela cantava com tanta delicadeza e suavidade, que jamais se ouviu alguém cantar assim.
Uma noite, quando ela estava deitada em sua bela caminha, eis que apareceu um sapo velho e assustador e que saltou pela janela, onde um dos vidros estava quebrado. O sapo era muito feio, grande e todo ensopado: ele saltou direto para cima da mesa, onde Thumbelina estava dormindo debaixo de uma pétala de rosa vermelha.
— “Oh, ela seria uma bela esposa para o meu filho,” disse o Sapo; e ele pegou a casca de noz onde a Thumbelina estava deitada, e saltou pela janela que dava direto para um jardim.
Ali passava um grande e largo córrego; mas as suas margens eram lamacentas e escorregadias, e o sapo morava ali com seu filho. Credo! como ele era feio, muito embora tivesse a cara do pai. “Croc! Croc! brek kek-kek!” era tudo o que ele sabia dizer quando ele viu a graciosa garotinha na casca de noz.
— “Não grite tão alto assim, ou ela poderá acordar,” disse o sapo velho. “Ela poderia escapar de nós, porque ela é tão leve como um pedacinho da pena do ganso. Nós vamos colocá-la no córrego em cima de uma daquelas folhas de lírio d'água. Ela pensaria que está numa ilha, porque ela é muito pequena e leve. Então, ela não conseguirá fugir, enquanto organizamos o salão de festa que fica debaixo da lama, onde você e ela vão viver juntos e cuidar da casa.”
Por todo o córrego cresciam muitos lírios d’água com folhas grandes e verdes, que pareciam estar flutuando sobre as águas. A folha mais distante era também a maior de todas, e o sapo velho foi nadando e colocou a casca de noz com Thumbelina em cima dela. A pobre criaturinha acordou cedo na manhã seguinte, e quando percebeu onde estava, ela começou a chorar desesperadamente; pois em torno da imensa folha verde só havia um mar de águas, e ela não conseguia chegar em terra de jeito nenhum. O sapo velho estava sentado na lama, e enfeitava o quarto com ubás e lírios-d’água amarelos — ele tinha de caprichar bastante porque a futura nora iria morar nele; depois ele nadou, com seu filho que era um exagero de feiúra, até a folha onde a Thumbelina havia sido levada. Eles queriam pegar a linda caminha onde ela estava, para ser colocada na câmara nupcial antes que ela passasse a residir ali. O sapo velho fez uma profunda reverência na água para ela, e disse,
— “Aqui está o meu filho; ele será o teu marido, e vocês terão uma vida esplendorosa aqui no pântano.”
— “Croc! Croc! brek-kek-kek!” era tudo o que seu filho sabia dizer.
Então, eles pegaram a elegante caminha, e nadaram de volta com ela; mas Thumbelina ficou sentada ali sozinha em cima da grande folha verde e chorava, pois ela não gostava da ideia de viver perto daquele sapo nojento, nem sequer admitia ter seu filho como marido. Os peixinhos que nadavam debaixo dágua viram o sapo, e também tinham ouvido o que ele havia dito; então, eles colocaram suas cabeças para fora, porque eles queriam conhecer a garotinha. Então, quando eles a viram, eles constataram que ela era tão linda, e por isso lamentaram muito que ela tivesse que conviver com aquele sapo velho. Não, isso nunca poderá acontecer! Eles se reuniram em assembleia debaixo dágua em torno do caule verde que prendia a folha, onde a pequenina ficava, e roeram o caule com seus dentes afiados, e assim a folha se soltou e começou a flutuar pelo córrego; levando Thumbelina para bem longe, onde o sapo jamais poderia alcançá-la.
Thumbelina navegou por muitos lugares, e os passarinhos que estavam sentados nos galhos das árvores olhavam para ela, e disseram, “Como ela é uma garota bonita!” A folha continuava flutuando com ela, cada vez indo para mais longe; então, Thumbelina viajou por toda a região.
Uma graciosa borboletinha branca continuava a adejar suas asas em torno dela, e finalmente pousou em cima da folha. Thumbelina gostou da borboleta, e ela estava tão maravilhada, porque o sapo agora não poderia mais alcançá-la; e os lugares por onde ela passava, era tudo muito lindo — o sol brilhava refletindo seus raios na água, era como ouro reluzente. Ela tirou o cinto que usava e amarrou uma ponta dele em torno da borboleta, e prendeu a outra ponta na folha que ela estava. A folha agora deslizava com muito mais velocidade, e Thumbelina também, porque ela estava em cima da folha.
E eis que um escaravelho enorme apareceu e veio voando; e quando a viu, imediatamente ele a agarrou pela sua cintura delicada, e ele voou levando ela e foi subindo até uma árvore. A grande folha verde continuou flutando pelo córrego, levando a borboleta em seu regaço; porque ela tinha ficado presa à folha, e não conseguia se livrar dela.
Que horror! a pequena Thumbelina ficou assustada quando o escaravelho voou com ela para o topo da árvore! Mas ela teve muita pena por causa da delicada borboleta branca que ela havia bem amarrado à folha, porque se a borboleta não conseguisse se libertar da folha, ela poderia morrer de fome. O escaravelho, todavia, não se preocupava nada com isto. Ele se sentou com ela sobre a maior folha verde da árvore, ofereceu para que ela comesse a parte mais doce das flores, e falou que ela era muito bonita, muito embora ela não se parecesse nem um pouquinho com um escaravelho. Depois foram chegando todos os outros escaravelhos que viviam na árvore para lhe fazer uma visita: eles olharam para Thumbelina, e as esposas dos escaravelhos encolheram suas antenas e disseram,
— “Credo, ela só tem duas pernas! — que aparência esquisita.”
— “E ela não tem nenhuma antena!” gritou uma outra.
— “A cintura dela é muito fina — que horror! ela parece uma criatura humana — como ela é feia!” disseram todas as mulheres dos escaravelhos.
E no entanto, Thumbelina era muito bonita. Até mesmo o escaravelho que havia voado com ela pensava desse jeito; mas quando todas as outras falaram que ela era feia, ele acabou acreditando, e perdeu todo interesse por ela — ela que fosse para onde quisesse. Então, eles desceram voando com ela de cima da árvore, e a depositaram em cima de uma margarida, e ela chorava, porque diziam que ela era feia e por isso os escaravelhos não tinham nenhum interesse por ela; e no entanto, ela era a criaturinha mais adorável que alguém poderia imaginar, e era tão frágil e delicada como uma pétala de rosa.
Durante todo o verão a pobre Thumbelina vivia em completa solidão na imensa floresta. Ela teceu para si mesma uma cama com a ramagem da grama, e a pendurou debaixo de uma grande folha de bardana, para que ela ficasse protegida da chuva; ela colheu um pouco de mel das flores como alimento, e bebia o orvalho que escorria das folhas todos os dias. De modo que o outono e o verão passavam rápidos; mas agora o inverno havia chegado, o longo e gelado inverno.
Todos os pássaros que costumavam cantar com tanta doçura para ela foram embora; flores e árvores derrubavam suas folhas; a grande folha de bardana debaixo da qual ela vivia encolheu, não ficando nada mais do que um caule amarelo e murcho; e ela tinha muito medo do frio, porque as suas roupas haviam rasgado, e era tão frágil e delicada — ó pobre Thumbelina! que quase ficou congelada. Começou a nevar, e cada floco de neve que caía sobre ela fazia o mesmo efeito que uma pá carregada em cima de um adulto, porque nós somos grandes, e ela tinha apenas uma polegada de altura. Foi ai que ela se enrolou numa folha seca, mas que era muito pouco para aquecê-la — e ela tremia de frio.
Perto da floresta para onde agora ela tinha vindo, havia uma grande plantação de milho, mas há muito tempo que não havia mais milho; apenas restolhos secos e expostos teimavam em se levantar da terra congelada. Tudo isto parecia uma imensa floresta para ela atravessar com seus pés diminutos; e, oh! como ela sofria por causa do frio. Finalmente ela conseguiu chegar na porta da casa do Rato do Campo. Este rato vivia dentro de um pequeno buraco debaixo dos restolhos. Era ali que o Rato do Campo morava, quente e confortável, e ele havia construído um depósito cheio de milho — uma cozinha de dar inveja e uma despensa. A coitadinha parou diante da porta como uma mendiga pobre e carente, e pediu um pouco de grãos de cevada, porque ela não havia comido nada durante os últimos dois dias.
— “Oh, pobre garotinha,” disse o Rato do Campo — pois afinal de contas ele era um bom e velho Rato do Campo — ”entre na minha casa e jante comigo hoje.”
E como ele ficou contente com a visita de Thumbelina, ele falou, “Se você quiser você pode ficar aqui comigo durante todo o inverno, porém, você deve manter o meu quarto quente e asseado, e também me contar histórias, porque eu gosto muito de ouvir histórias.”
E Thumbelina fez como o velho Rato do Campo lhe pediu, e passou um tempo muito agradável na companhia dele.
— “Muito em breve nós receberemos uma visita,” disse o Rato do Campo. “O meu vizinho tem o hábito de me visitar todas as semanas.
conto de Hans Christian Andersen
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Hans Christian Andersen
Thumbelina e o Rato do Campo
Ele ainda é melhor do que sou, sua casa tem quartos enormes, e ele também tem um casaco de pele negro e lindo. Se você pudesse casar-se com ele nunca lhe faltaria nada; o único problema é que ele não consegue enxergar. E você poderia contar a ele as histórias mais lindas que você conhece.”
Mas Thumbelina não se preocupava com estas coisas; a ideia de se casar com o vizinho em nada lhe interessava, porque ele era um Toupeira. Ele vinha fazer suas visitas usando seu casaco de pele de veludo negro. O Rato do Campo havia lhe falado como o Toupeira era rico e sábio também, e como a casa dele era vinte vezes maior que a do Rato do Campo; que ele era uma pessoa culta, mas que não gostava do sol e das flores bonitas, e falava coisas desagradáveis sobre eles porque nunca os havia conhecido.
O Toupeira queria que Thumbelina cantasse para ele, e ela cantou “Escaravelho, vá embora,” e “Quando o pastor foi ao campo.” Então, o toupeira se apaixonou por ela, por causa da suavidade da sua voz; mas ele não dizia nada, porque ele era um bicho muito sossegado.
Algum tempo antes, ele havia cavado um longo túnel debaixo da terra desde a sua casa até a casa do Rato do Campo; e Thumbelina e o Rato do Campo tinham permissão para caminhar por este túnel tanto quanto desejassem. Mas ele os alertou para que não ficassem com medo do pássaro morto que iriam encontrar no meio do túnel. Era um pássaro inteiro, tinha até asas e bico. Certamente ele deve ter morrido somente algum tempo antes do inverno começar, e agora estava enterrado bem no local onde o Toupeira havia construído a passagem.
O Toupeira pegou um pouco de madeira em decomposição na boca, porque a madeira brilha como fogo no escuro; e ele seguia na frente e iluminava o caminho para eles através do túnel longo e escuro. Quando eles chegaram ao local onde estava o pássaro morto, o Toupeira levantou o seu espaçoso nariz contra a parede do teto empurrando um pouco de terra, de modo que um buraco grande se formou, através do qual a claridade do dia podia brilhar. E no meio do caminho estava uma Andorinha morta, suas lindas asas pressionadas nas laterais do seu corpo, e tendo a cabeça e os pés escondidos debaixo de suas asas: a pobre ave certamente tinha morrido de frio.
Thumbelina ficou muito triste com isto; pois ela gostava de todas as aves pequenas, porque elas cantavam e gorjeavam encantadoramente para ela durante todo o verão; mas o Toupeira lhe deu um empurrão com suas pernas curtas, e disse, “Este não consegue piar mais. Deve ser muito triste ter nascido uma ave tão pequena. Graças a Deus que nenhum de meus filhos vão ser tão pequenos assim: esses passarinhos não sabem fazer nada senão um "tuit-tuit", e depois morrem de fome no inverno!”
— “Sim, você, como um animal sensível, deve ter lá suas razões,” observou o Rato do Campo. “Para que serve todo esse "tuit-tuit" para uma ave quando chega o inverno? Então, ela morre de frio e de fome. Mas tem gente que acha isso que fazer isso é muito legal.”
Thumbelina não dizia nada; mas quando os outros dois viraram suas costas para o pássaro, ela se curvou, colocou as asinhas que cobriam a cabeça da Andorinha de lado, e lhe deu um beijinho com os olhos fechados.
— “Talvez tenha sido ele que cantou para mim tão maravilhosamente durante o verão,” pensou ela. “Certamente, me deu muita alegria, este lindo pássaro!”
O Toupeira fechou agora o buraco por onde entrava a luz do sol, e fez questão de acompanhar os amigos para casa. Mas quando a noite chegou, Thumbelina não conseguia dormir de jeito nenhum; então, ela se levantou da cama, e decidiu tecer um grande e lindo tapete de feno, e foi levá-lo e o estendeu sobre o pássaro morto, e colocou um pouco de algodão macio, que ela havia encontrado num dos depósitos do Rato do Campo, ao redor da ave, para que ele pudesse sentir um pouco de calor no chão gelado.
— “Adeus, minha ave adorada!” disse ela. “Adeus! e obrigado pelas tuas lindas canções durante o verão, quando todas as árvores eram verdes, e o sol descia com seus raios aquecendo nossas cabeças.” Depois ela colocou a sua cabeça sobre o peito do pássaro, mas de repente ela se assustou, pois parecia que algo estava batendo dentro dele. Era o coração dela. A ave não estava morta; ela estava apenas dormindo ali, entorpecida pelo frio; e como havia sido aquecida, ela voltou à vida novamente.
No outono, todas as andorinhas voam para regiões quentes, mas por acaso se algumas delas se atrasa, o frio pode surpreendê-la e ela vem ao chão como se estivesse morta, sem sair do lugar de onde caiu, e então, ela fica coberta pela neve gelada.
Thumbelina tremia muito, porque ela estava assustada; porque a ave era grande, muito grande, comparada à ela, que tinha apenas uma polegada de altura. Ela porém, encheu-se de coragem, colocou o algodão mais perto em torno da ave indefesa, e trouxe uma folha de hortelá que ela costumava usar de cobertor, e a colocou sobre a cabeça da ave.
Na noite seguinte ela foi bem devagarzinho onde a ave estava — e percebeu que ela ainda estava viva, mas muito fraca; apenas por um momento ela conseguiu abrir os olhinhos, e olhou para Thumbelina, que estava diante dela e trazia um pouco de madeira em decomposição nas mãos, porque ela não tinha outra forma de iluminação.
— “Obrigada, minha linda garota,” disse a Andorinha convalescente; “Você me aqueceu de modo esplêndido. Logo vou conseguir recuperar as minhas forças, e poderei voar pelo mundo afora para sentir o calor do sol.”
— “Oh,” exclamou a menina, “lá fora está muito frio. Há neve e gelo por toda parte. Fique aqui na sua caminha quente, e eu cuidarei de você.”
Então, ela trouxe água para a Andorinha na pétala de uma flor; e a Andorinha bebeu, e contou à garota como havia machucado uma de suas asas num espinheiro, e então, ela não conseguia voar como as outras andorinhas, que conseguiam empreender mais velocidade, voando para longe, em direção às regiões mais quentes. Então, não aguentando mais, ela acabou caindo no chão, e não conseguia se lembrar de mais nada, e portanto, não sabia como ela veio parar ali onde a menina a havia encontrado.
A Andorinha permaneceu naquele lugar durante todo o inverno, e Thumbelina cuidou e tratou dela com todo o cuidado. Nem o Rato do Campo nem o Toupeira ficaram sabendo nada sobre essa história, porque eles não gostavam da pobre Andorinha. Então, assim que a primavera chegou, e o sol abraçou a terra com seu calor, a Andorinha se despediu de Thumbelina, e ela abriu o buraco que o Toupeira havia feito no teto para passagem da claridade. O sol gloriosamente caía sobre suas cabeças, e a Andorinha perguntou se Thumbelina queria ir com ela; ela disse que a menina poderia sentar em suas costas, e elas voariam para longe, para muito longe do verdor da floresta. Mas Thumbelina sabia que o velho Rato do Campo ficaria triste se ela o deixasse.
— “Não, eu não posso!” disse Thumbelina.
— “Então, adeus, adeus, minha boa e bondosa menina!” disse a Andorinha; e voou para as regiões ensolaradas. Thumbelina ficou olhando em direção a ela, e lágrimas afloraram em seus olhos, porque ela gostava muito da pobre Andorinha.
— “Tuit-uit! Tuit-uit!” cantava o passarinho, voando em direção à floresta verde. Thumbelina se sentiu muito triste. Ela não tinha permissão para sair para tomar sol. O milho que havia sido plantado no campo perto da casa do Rato do Campo crescia agora muito alto; para a pequena garotinha aquilo era uma densa floresta, pois ela era muito pequenininha. — “Agora você precisa preparar o seu enxoval neste verão,” disse o Rato do Campo para ela; pois o seu vizinho, o entediante Toupeira com casaco de veludo, havia proposto casamento a ela. “Você vai precisar de roupas de linho e de lã; nada poderá faltar quando você se tornar a esposa do senhor Toupeira.”
Thumbelina precisa fazer a roca funcionar, e o Toupeira contratou quatro aranhas para fiar e tecer para ela a noite toda. Todas as noites o Toupeira lhe fazia uma visita; e ele vivia sempre dizendo que quando o verão estivesse quase acabando, e o sol já não brilhasse e aquecesse como antes, porque agora ele queimava a terra tornando-a tão dura como pedra. Sim, quando o verão tivesse ido embora, então, ele realizaria o seu casamento com Thumbelina.
Mas ela não estava satisfeita de modo nenhum, porque ela não gostava do Toupeira, porque ele era muito entediante. Todas as manhãs quando o sol nascia, e todas as tardes quando o sol se punha, ela ía de fininho até a porta; e quando o vento separava as espigas de milho, para que ela pudesse ver o céu azul, ela pensava como o dia lá fora era lindo e gostoso, e tinha muita vontade de ver a sua amiga Andorinha novamente. Mas a Andorinha não voltava; sem dúvida ela havia voado para longe, para dentro de floresta verde e aconchegante. Quando o outono havia chegado, Thumbelina já havia terminado todo o seu enxoval.
— “Dentro de quatro semanas você estará celebrando o seu casamento,” disse para ela o Rato do Campo.
Mas Thumbelina chorava, e dizia que ela não queria se casar com o chato do Toupeira.
— “Que tolice,” dizia o Rato do Campo; “não seja teimosa, ou eu mordo você com meus dentes brancos. A criatura com quem você irá se casar é uma pessoa que tem estilo. A própria rainha não possui um casaco de pele de veludo preto; além disso a sua cozinha e as outras dependências tem de tudo. Seja grata pela tua boa sorte.”
Ora, o casamento ia ser realizado. O Toupeira já havia mandado buscar Thumbelina; ela iria morar com ele, bem debaixo da terra, e jamais poderia sair para sentir o calor do sol, pois que ele não gostava de tomar sol. A coitadinha ficou muito triste; ela teria que se despedir do glorioso sol agora, o qual afinal de contas, ela tinha permissão do Rato do Campo para ver todos os dias na porta da sua casa.
— “Adeus, meu sol adorado!” dizia ela, e esticava os seus braços em direção ao alto, e caminhou alguns passos de distância da casa do Rato do Campo, porque agora o milho havia sido colhido, e apenas os restolhos secos se espalhavam pelos campos. “Adeus!” repetiu ela, e esticava seus bracinhos em torno de uma pequena flor vermelha que ainda florescia por ali. “Mande beijos para a Andorinha em meu nome, se ela aparecer novamente.”
— “Tuit-uit! Tuit-uit!” um piado subitamente soou acima da sua cabeça. Ela olhou para cima; era a Andorinha, que acabava de chegar voando. Quando ela viu Thumbelina, ela ficou muito feliz; e Thumbelina falou para ela o quanto ela relutava para se casar com o feio do Toupeira, e que ela teria de viver embaixo na escuridão da terra, onde o sol nunca chega. E ela não conseguia parar de chorar.
— “O inverno gelado está chegando agora,” disse a Andorinha; “E eu vou voar para bem longe em busca de regiões quentes. Você não gostaria de vir comigo? Você poderia sentar nas minhas costas, você deve apenas ficar bem presa com seu cinto, então, nós voaremos para longe do repulsivo Toupeira e da sua casa escura — longe, muito longe, para além das montanhas, para lugares bem quentes, onde o sol brilha com mais beleza do que aqui, onde o verão parece uma eternidade, e existem flores encantadoras. Venha voar comigo, minha pequena Thumbelina, você salvou a minha vida quando eu fiquei congelado naquela passagem subterrânea e escura.”
— “Sim, eu irei com você!” disse Thumbelina, então, ela se subiu nas costas do passarinho, e colocou os pés em suas asas estendidas, e amarrou o seu cinto bem forte a uma de suas asas mais resistentes; então, a Andorinha voou para o alto acima da floresta e do mar, muito além das montanhas gigantes, sempre cobertas de neve; e Thumbelina sentiu frio no ar gelado, mas quando ela andou debaixo das asas quentes da andorinha, e colocava a sua pequena cabecinha para fora somente para admirar todas as maravilhas que haviam lá embaixo.
Finalmente eles chegaram nas regiões mais quentes. Ali o sol era mais caloroso e mais forte; o céu parecia duas vezes mais alto; em vales e nas cercas cresciam as uvas mais belas e deliciosas; limões e laranjas brotavam por toda a floresta; o ar tinha cheiro de mirtos e de bálsamos, e pelas estradas crianças alegres corriam por todo lado, brincando distraidamente com as borboletas. Mas a Andorinha voava cada vez mais alto, e ela ia ficando cada vez mais linda. Sob o verdor glorioso das árvores no entorno de um lago azul havia um palácio que tinha sido construído com estonteantes mármores brancos, desde tempos imemoriais. Videiras gigantes contornavam suas majestosas colunas; no topo havia muitos ninhos de Andorinhas, e num desses ninhos morava a Andorinha, que trazia a Thumbelina.
— “A minha casa fica aqui,” disse a Andorinha. “Porém, se quiseres escolher uma daquelas maravilhosas flores que crescem lá embaixo, então, eu levo você até ela, e você terá tudo o que quiser.”
— “Oh, isso vai ser muito bom,” exclamou ela, batendo suas maõzinhas.
Ali havia uma grande coluna de mármore, que estava caída no chão e havia se partido em três pedaços; e no meio dos destroços havia crescido flores brancas grandes e belas. A Andorinha voou até lá embaixo com Thumbelina, e delicadamente a colocou sobre uma das folhas largas. A pequerrucha então, ficou imensamente encantada!
No meio da flor estava um pequeno homenzinho, ele era tão branco e transparente como se tivesse sido feito de vidro; usava a mais delicada das coroas de ouro na cabeça, e tinha as asas mais reluzentes no ombro; e também não era muito maior que Thumbelina. Ele era o anjo das flores. Em cada uma das flores morava um pequeno homem ou uma pequena mulher daquele tamanho, mas aquele era o rei de todas elas.
— “Ó céus! como ele é lindo!” sussurrou Thumbelina para Andorinha.
O pequeno príncipe ficou muito assustado com a Andorinha; pois para ele a Andorinha era uma ave gigante, sendo ele tão pequenininho. Mas quando ele viu Thumbelina, ficou muito feliz; ela era a garota mais linda que ele conhecera. Foi aí que ele tirou a sua coroa de ouro, e a colocou na cabeça dela, perguntou como ela se chamava, e se ela queria ser sua esposa, e então, ela se tornaria a rainha de todas as flores. Ora, este homenzinho era do tipo muito diferente do filho do Sapo, e do Toupeira, mesmo usando um casaco de pele de veludo. Ela então disse “Sim” ao príncipe encantador.
E de cada flor surgiu uma dama ou um cavalheiro, tão lindos de se ver que ela ficou embevecida: e cada um trazia um presente para Thumbelina; mas o melhor presente foi um par de belas asas que tinha pertencido a uma grande mosca branca; elas foram bem presas nas costas de Thumbelina, e agora ela também podia voar de flor em flor. E então, a alegria era geral; e a Andorinha, que a tudo assistia lá do alto do seu ninho, cantou para eles a canção mais linda que eles podiam ouvir; porém, ela sentia uma tristeza muito grande no coração, porque ela gostava muito de Thumbelina, e não desejaria nunca ter se separado dela.
— “Você não se chamará mais Thumbelina!” disse o Anjo das Flores para ela; “esse não é um nome bonito, e você é muito linda para ser chamada assim — portanto, nós a chamaremos de Maia.”
— “Adeus, adeus!” disse a Andorinha, e ela voou para longe das regiões quentes novamente, bem distante da Dinamarca. Ali ela tinha um pequeno ninho que ficava em cima da janela do homem que gostava de contar histórias de fadas. Para ele ela cantava “Tuit-uit! Tuit-uit!” e foi dele que ficamos conhecendo toda essa linda história.
conto de Hans Christian Andersen 


O Pequeno Cláudio e o Grande Cláudio, conto de Hans Christian Andersen


O Pequeno Cláudio e o Grande Cláudio

Numa aldeia viviam dois homens que tinham o mesmo nome. Os dois eram chamados de Cláudio. Um deles tinha quatro cavalos, mas o outro tinha somente um; de modo que para diferenciá-los, as pessoas chamavam o dono dos quatro cavalos de, "O Grande Cláudio," e aquele que possuía somente um de, "Pequeno Cláudio." Agora nós vamos saber o que aconteceu com eles, porque esta é uma história verdadeira.
Durante a semana toda, o pequeno Cláudio era obrigado a arar as terras para o Grande Cláudio, e emprestar o seu único cavalo; e uma vez por semana, no domingo, o Grande Cláudio emprestava para ele os seus quatro cavalos. Então, o pequeno Cláudio podia usar e abusar de todos os cinco cavalos, porque naquele dia era como se todos eles lhe pertencessem. O sol brilhava poderoso, e os sinos da igreja tocavam alegremente a medida que as pessoas passavam, vestidas com seus melhores trajes, trazendo o livro de orações debaixo dos braços. Todos estavam indo para ouvir o pastor fazer o sermão. Eles viam o pequeno Cláudio arando com seus cinco cavalos, e ele estava tão orgulhoso de usar o chicote, e dizia, "Força, meus cinco cavalos."
"Você não deve falar assim," disse o grande Cláudio; "pois somente um deles pertence a você." Mas o pequeno Cláudio esquecia logo o que ele tinha de dizer, e quando alguém passava ele gritava, "Força, meus cinco cavalos!"
"Ora, eu gostaria que você não dissesse isso novamente," disse o grande Cláudio; "pois se o fizer, eu darei um golpe tão grande na cabeça do seu cavalo, que ele vai cair morto no mesmo lugar, e você nunca mais o verá."
"Prometo que nunca mais vou falar isso," disse o outro; mas assim que as pessoas passavam, e balançavam a cabeça para ele, e lhe diziam "Bom Dia," ele ficava tão satisfeito, e pensava como ele parecia poderoso com cinco cavalos arando o seu campo, que ele voltava a gritar novamente, "Força, todos os meus cavalos!"
"Deixa que eu comando os cavalos para você," disse o grande Cláudio; e pegando um martelo, golpeou na cabeça o único cavalo do pequeno Cláudio, o qual caiu morto instantaneamente.
"Oh, agora eu não tenho nenhum cavalo," disse o pequeno Cláudio, chorando. Pouco depois, ele retirou a pele do cavalo morto, e a deixou para secar ao vento. Depois, ele enfiou a pele seca dentro de um saco, e, colocou-a no ombro, e foi até a cidade vizinha para vender a pele do cavalo. O caminho a percorrer era muito longo, e ele tinha de passar no meio de uma floresta escura e tenebrosa. Não demorou muito e despencou uma tempestade, e ele perdeu o caminho, e antes que ele descobrisse o caminho certo, a noite chegou, e o caminho para a cidade mais próxima era longo, e para retornar para casa também já não era mais possível.
Perto da estrada havia uma fazenda muito grande. Do lado de fora se via que as janelas estavam fechadas, mas viam-se luzes pelas fendas da janela no alto. "Eu vou pedir permissão para passar esta noite aqui," pensou o pequeno Cláudio; então ele se aproximou da porta e bateu. A esposa do fazendeiro abriu a porta; mas quando ela soube o que ele queria, ela pediu para que ele fosse embora, pois o seu marido não iria permitir que ela autorizasse a entrada de estranhos. "Então eu sou obrigado a me deitar aqui fora," disse o pequeno Cláudio para si mesmo, assim que a esposa do fazendeiro fechou a porta na cara dele.
Perto da fazenda havia grandes montes de feno, e entre a casa e os montes de feno havia uma pequena cobertura, feita de palha. "Eu vou ficar deitado aqui," disse o pequeno Cláudio, assim que avistou a cobertura; "terei uma cama deliciosa, mas eu espero que a cegonha não desça até aqui e meta o bico nas minhas pernas;" porque em cima do telhado vivia uma cegonha, que havia feito um ninho ali. Então o pequeno Cláudio subiu até o teto da cobertura, e enquanto ele buscava melhor para se acomodar, ele descobriu que as janelas de madeira, que estavam fechadas, dispunham de frestas, de modo que ele podia ver todo o recinto, onde havia uma mesa enorme disposta com vinho, carne assada, e um peixe magnífico.
A esposa do fazendeiro e o sacristão estavam sentados juntos à mesa; e ela enchia o copo dele, e servia peixe a ele com abundância, que parecia ser seu prato favorito. "Ah, se eu pudesse comer um pouquinho, também," pensou o pequeno Cláudio; e então, quando ele esticou o seu pescoço em direção à janela, ele pode ver uma torta grande e apetitosa, — realmente, eles estavam degustando um delicioso banquete diante dele.
Nesse momento, ele ouviu o barulho de alguém que descia a estrada, e se dirigia para a fazenda. Era o fazendeiro que estava voltando para casa. Ele era um bom homem, porém, tinha um preconceito muito estranho, — ele não podia ver um sacristão. Se um aparecesse na sua frente, ele ficava subitamente furioso. Era por isso então, que o sacristão tinha ido visitar a esposa do fazendeiro durante a ausência do marido dela, e a bondosa mulher havia colocado para servir a ele o melhor que ela tinha na casa para comer.
Quando ela ouviu que o fazendeiro estava chegando ela ficou assustada, e pediu ao sacristão para que se escondesse dentro de um grande armário vazio que havia no recinto. Assim fez ele, pois ele sabia que o marido dela não suportava ver um sacristão. A mulher então pegou o vinho rapidamente, e escondeu todo o resto do banquete dentro do forno; pois se o seu marido tivesse visto tudo, ele iria querer saber porquê eles haviam sido trazidos ali.
"Oh, que pena," suspirou o pequeno Cláudio no alto do telhado, assim que viu todas aquelas delícias serem guardadas.
"Tem alguém aí em cima?" perguntou o fazendeiro, olhando para cima e descobrindo o pequeno Cláudio. "Porque você está deitado aí? Desça, e entre na casa comigo." Então o pequeno Cláudio desceu e contou ao fazendeiro que ele havia se perdido na floresta e solicitou a acolhida por uma noite.
"Tudo bem," disse o fazendeiro; "mas, primeiro, precisamos comer alguma coisa."
A mulher recebeu os dois com a máxima cordialidade, pendurou a roupa em cima de um móvel grande, e colocou diante deles um prato com mingau de aveia. O fazendeiro estava com muita fome, e comeu o seu mingau com grande apetite, mas o pequeno Cláudio não conseguia parar de pensar nos deliciosos assados, peixes e tortas, os quais ele sabia estarem no forno. Sob a mesa, aos seus pés, ficava o saco contendo a pele de cavalo, que ele pretendia vender na cidade próxima.
Agora o pequeno Cláudio não desejava de modo algum saborear o mingau, então ele pisou com o seu pé no saco que estava debaixo da mesa, e o couro seco fez um ruido bem alto. "Silêncio!" disse o pequeno Cláudio para o seu saco, ao mesmo tempo em que dava outro pisão no saco, foi quando se ouviu um rangido ainda mais alto.
"Ei! o que você tem dentro do saco!" perguntou o fazendeiro.
"Oh, é um saco mágico," disse o pequeno Cláudio; "e ele está dizendo que nós não precisamos comer o mingau, pois ele está dizendo que o forno está cheio de assados, peixes, e tortas."
"Maravilha!" disse o fazendeiro, levantando-se e abrindo a porta do forno; e lá estavam as deliciosas guloseimas escondidas pela esposa do fazendeiro, mas que ele imaginava tinham sido descobertas pelo saco mágico que estava debaixo da mesa. A mulher não ousou dizer nada; então ela colocou tudo na frente deles, e os dois comeram o peixe, a carne, e a torta.
Então o pequeno Cláudio deu outro pisão no saco, e ele rangiu como antes. "O que ele está dizendo agora?" perguntou o fazendeiro.
"Ele está dizendo," respondeu o pequeno Cláudio, "que há três garrafas de vinho para nós, colocadas ali no canto, perto do forno."
Então a mulher foi obrigada a trazer o vinho também, que ela tinha escondido, e o fazendeiro bebeu até ele começar a ficar feliz. Ele havia gostado do tal saco mágico que o pequeno Cláudio havia trazido ali. "Ele é capaz de adivinhar coisas ruins?" perguntou o fazendeiro. "Eu gostaria de ver isso agora que estou feliz."
"Oh, sim!" respondeu o pequeno Cláudio, "o meu saco mágico pode fazer qualquer coisa que eu lhe pedir, — não é mesmo?" perguntou ele, ao mesmo tempo em que pisava no saco até que ele rangesse. "Está ouvindo? ele respondeu 'Sim,' mas o saco mágico receia que nós não vamos querer olhar para ele."
"Oh, mas eu não tenho medo. Como é a cara dele?"
"Bem, ele é meio parecido com um sacristão."
"Deus me livre!" disse o fazendeiro, "então ele deve ser muito feio. Você sabia que eu não suporto ver a cara de um sacristão. Todavia, isso não importa, quero saber quem ele é; ou não vou me importar. No entanto, embora eu tenha coragem, não deixe que ele se aproxime muito de mim."
"Tudo bem, mas antes eu preciso consultar o saco mágico," disse o pequeno Cláudio; então ele pisou no saco, e baixou a orelha para ouvir.
"O que ele está dizendo?"
"Ele está dizendo para que você vá e abra aquele armário grande que está ali no canto, e você verá o tinhoso agachado lá dentro; porém, você deve segurar a porta com firmeza, para que ele não possa fugir."
"Você pode vir me ajudar a segurá-lo?" disse o fazendeiro, indo em direção ao armário onde a sua esposa havia ocultado o sacristão, que agora estava lá dentro, muito assustado. O fazendeiro abriu a porta bem devagar e deu uma espiada.
"Oh," exclamou ele, saltando para trás, "Eu vi, e ele é exatamente como o nosso sacristão. Como ele é assustador!" Então, depois disso, ele foi obrigado a beber mais um gole, e eles se sentaram e beberam até tarde da noite.
"Você precisa vender o seu saco mágico para mim," disse o fazendeiro; "peça quanto quiser, eu pago; na verdade, eu lhe daria uma grande quantia em ouro."
"Não, na verdade, eu não posso," disse o pequeno Cláudio; "imagine o que eu poderia deixar de lucrar se eu me desfizesse deste saco mágico."
"Mas eu gostaria de comprá-lo," disse o fazendeiro, continuando com sua insistência.
"Bem," disse, finalmente, o pequeno Cláudio, "como você foi generoso me oferecendo uma noite de hospedagem em sua casa, eu não vou recusar; você pode ficar com o saco mágico por uma quantia em dinheiro, mas eu desejo o valor integral."
"Sem dúvida você receberá," disse o fazendeiro; "mas você deve levar o armário também. Eu não o quero aqui em casa nem mais uma hora; quem poderá afirmar que o tinhoso ainda não esteja lá dentro."
Então o pequeno Cláudio deu ao fazendeiro o saco contendo o couro do cavalo morto, e recebeu em troca uma grande quantia em dinheiro — integralmente. O fazendeiro lhe ofereceu também um carrinho de mão para que ele levasse o armário e o ouro.
"Passe bem," disse o pequeno Cláudio, a medida que ele se distanciava com o dinheiro e o pesado armário, onde o sacristão ainda estava escondido. De um lado da floresta havia um rio grande e profundo, a água corria com tanta velocidade que eram poucos os que conseguiam nadar contra a correnteza. Uma ponte nova havia sido construída nos últimos dias para atravessá-lo, e no meio desta ponte o pequeno Cláudio parou, e disse, bem alto para que o sacristão o ouvisse, "Agora, o que devo fazer com este armário inútil; ele é tão pesado como se estivesse cheio de pedras: eu ficarei cansado se eu o continuar carregando, então eu devo jogá-lo no rio; se ele vier flutuando atrás de mim até a minha casa, tudo bem, se não, ele não me será necessário."
Então ele pegou o armário na mão e o levantou levemente, como se fosse jogá-lo dentro do rio.
"Não, não faça isso," gritou o sacristão de dentro do armário; "primeiro me deixe sair."
"Oh," exclamou o pequeno Cláudio, fingindo estar assustado, "ele ainda está lá dentro, não está? Então eu devo jogá-lo no rio, para que ele se afogue."
"Oh, não; oh, não," exclamou o sacristão; "Eu lhe darei uma grande quantidade em dinheiro se você me deixar sair."
"Porquê, essa é uma outra questão," disse o pequeno Cláudio, abrindo o armário. O sacristão saiu com dificuldade, empurrou o armário vazio para dentro da água, e foi para sua casa, então ele pegou uma grande quantidade de ouro e a ofereceu ao pequeno Cláudio, que já havia recebido a mesma quantidade por parte do fazendeiro, de modo que agora ele tinha um barril cheio.
"Eu fui muito bem pago pelo meu cavalo," disse o pequeno Cláudio quando ele chegou em casa, ele entrou no seu quarto, e derramou todo o dinheiro formando um amontoado no assoalho. "Sem dúvida, o grande Cláudio ficará irritado quando ele descobrir como eu fiquei rico apenas com meu único cavalo; mas eu não direi a ele exatamente como tudo aconteceu." Então ele mandou que um garoto fosse até o grande Cláudio para lhe emprestar um barril.
"Para que ele quer o barril?" pensou o grande Cláudio; então ele passou pixe no fundo do barril, para que qualquer coisa que fosse colocada nele grudasse e ali permanecesse. E assim aconteceu; pois quando o barril foi devolvido, três novos florins de prata ficaram colados a ele.
"Mas o que significa isto?" disse o grande Cláudio; então ele foi correndo para a casa do pequeno Cláudio, e perguntou, "Onde você conseguiu tanto dinheiro?"
"Oh, foi a pele do meu cavalo, eu a vendi ontem."
"Você foi muito bem pago," disse o grande Cláudio; e ele correu para sua casa, pegou um machadinho, e deu um golpe na cabeça de cada um de seus quatro cavalos, tirou a pele dos quatro, e as levou para a cidade para vender. "Peles, peles, quem quer comprar peles?" gritava ele, a medida que caminhava pelas ruas. Todos os sapateiros e curtidores de pele vieram correndo, e perguntaram a ele por quanto ele estava vendendo.
"Um barril de dinheiro, para cada cavalo," respondeu o grande Cláudio.
"Você está louco?" gritaram todos eles; "você acha que temos dinheiro para gastar em quantidades de um barril?"
"Peles, peles," ele voltou a gritar, "quem quer comprar peles?" mas a todos que perguntavam o preço, a sua resposta era, "um barril de dinheiro."
"Ele está nos fazendo de tolos," disseram todos eles; então os sapateiros pegaram suas cintas, e os curtidores seus aventais de couro, e começaram a surrar o pequeno Cláudio.
"Peles, peles!" gritavam eles, zombando dele; "sim, deixaremos uma marca na pele para você, até que ela fique toda marcada."
"Vamos expulsá-lo da cidade," disseram eles. E o grande Cláudio foi obrigado a correr o mais rápido que podia, nunca antes em sua vida ele havia apanhado tanto.
"Ah," disse ele, assim que chegou em casa; "O pequeno Cláudio vai me pagar por isto; eu vou matá-lo de tanto bater."
Durante esse período, a avozinha do pequeno Cláudio tinha morrido. Ela tinha sido nervosa, cruel e muito maldosa com ele; mas ele lamentava isso, e pegou a velhinha morta e a colocou em sua cama quentinha para ver se ele conseguia trazê-la à vida novamente. Alí ele decidiu que ela devia ficar a noite toda, enquanto ele ficou sentado numa cadeira num canto do quarto como frequentemente ele fazia isso antes. Durante a noite, enquanto ele ficou sentado ali, a porta se abriu, e o grande Cláudio entrou com um machadinho. Ele sabia bem onde a cama do pequeno Cláudio ficava; então ele foi em direção a ela, e golpeou a avozinha na cabeça, pensando que pudesse ser o pequeno Cláudio.
"Toma," exclamou ele, "agora você nao vai mais me fazer de tolo novamente;" e então ele foi para casa.
"Esse cara é muito maldoso," pensou o pequeno Cláudio; "ele pretendia me matar. Ainda bem que a minha avó já estava morta, ou ele a teria matado." Então ele vestiu a sua avó com a sua melhor roupa, emprestou um cavalo do seu vizinho, e o atrelou a uma carroça.
Depois ele colocou a velhinha no banco de trás, de modo que ela não caísse enquanto ele dirigia, e seguiu pela floresta. Ao amanhecer eles chegaram a uma grande estalagem, onde o pequeno Cláudio parou para comer alguma coisa. O estalajadeiro era um homem rico, e muito bom; mas tão impetuoso com se tivesse sido feito de pimenta e rapé.
"Bom Dia," disse ele ao pequeno Cláudio; "você chegou cedo hoje."
"Sim," disse o pequeno Cláudio; "Eu estou indo à cidade com a minha avó; ela está sentada atrás na carroça, mas ela não pode vir até aqui. Será que você poderia levar um copo de mel para ela? mas você deve falar bem alto, porque ela não consegue ouvir."
"Sim, certamente que posso," respondeu o estalajadeiro; e, derramando mel dentro de um copo, ele o levou para a avó que estava morta, mas que estava sentada verticalmente na carroça. "Aqui está um copo de mel que o seu neto me pediu para trazer," disse o estalajadeiro. A velhinha morta não respondia nada, mas continuava sentada. "Você não ouviu o que eu disse?" gritou o estalajadeiro o mais alto que pode; "aqui está o copo de mel do seu neto."
Várias vezes ele gritava, mas como ela não se mexia ele ficou furioso, e jogou o copo de mel na cara dela; o copo ficou grudado no nariz dela, e ela caiu de costas para fora da charrete, porque ela estava somente sentada lá, não estava amarrada.
"Hei!" gritou o pequeno Cláudio, saindo impetuosamente pela porta, e agarrando o estalajadeiro pela garganta; "você matou a minha avó; veja, ela está com um buraco enorme na testa."
"Oh, que azar," disse o estalajadeiro, retorcendo as mãos. "Tudo isso acontece por causa do meu péssimo temperamento. Querido pequeno Cláudio, eu lhe darei um barril de dinheiro; e sepultarei a sua avó como se ela fosse minha avó; somente não conte nada para ninguém, ou eles vão me cortar a cabeça, e isso seria muito desagradável."
E assim aconteceu que o pequeno Cláudio recebeu outro barril de dinheiro, e o estalajadeiro sepultou a sua querida avó como se fosse a dele próprio. Quando o pequeno Cláudio chegou em casa novamente, ele imediatamente enviou um garoto até a casa do grande Cláudio, pedindo-lhe que lhe emprestasse uma barril como medida. "Mas porquê será isso?" pensou o grande Cláudio; "será que eu não o matei? Preciso ir lá para ver com meus próprios olhos." Então ele foi até o pequeno Cláudio, e levou a medida de um barril consigo. "Como você conseguiu todo esse dinheiro?" perguntou o grande Cláudio, arregalando bem os seus olhos diante do tesouro do seu amigo.
"Você matou a vovó e não eu," disse o pequeno Cláudio; "então eu a vendi por um barril de dinheiro."
"Esse me parece ser um bom preço," disse o grande Cláudio. Então ele foi para casa, pegou uma machadinha, e matou a própria avó com um só golpe. Depois ele a colocou numa charrete, e partiu rumo à cidade até o boticário, e lhe perguntou se ele queria comprar um defunto.
"De quem é o corpo, e onde você o conseguiu?" perguntou o boticário.
"É a minha avó," respondeu ele; "Eu a matei com um único golpe, para que eu pudesse conseguir um barril de dinheiro com o corpo dela."
"Deus me livre!" disse o boticário, "você deve estar louco. Não me diga essas coisas, ou você perdeu todo o juízo." E então o boticário falou a ele seriamente sobre o mal que ele tinha cometido, e lhe disse que um homem tão mau assim certamente merecia ser punido. O grande Cláudio ficou tão assustado que imediatamente correu para fora da sala de cirurgia, pulou rapidamente para dentro de sua carroça, deu uma chibatata em seus cavalos, e sem perda de tempo correu desesperado para casa. O boticário e todas as pessoas acharam que ele tinha ficado louco, e deixavam que ele dirigisse a charrete para onde ele quisesse.
"Você me pagará por isto," disse o grande Cláudio, assim que ele colocou o pé na estrada, "ah, e como pagará, pequeno Cláudio." Então assim que ele chegou em casa ele pegou o maior saco que ele conseguiu encontrar e partiu em direção à casa do pequeno Cláudio. "Você me pregou uma nova peça," disse ele. "Primeiro, eu matei todos os meus cavalos, e depois a minha avó, e tudo por sua culpa; mas você não vai mais me fazer de bobo." Então ele colocou a mão em volta do corpo do pequeno Cláudio, e o empurrou para dentro do saco, e depois ele colocou o saco nos ombros, dizendo, "Agora eu vou afogá-lo no rio.
Ele tinha um longo caminho a percorrer antes de chegar ao rio, e o pequeno Cláudio não era um peso muito leve de se carregar. A estrada passava perto da igreja, e quando eles passavam em frente ele pode ouvir o órgão tocando e as pessoas cantando com muita alegria. O grande Cláudio colocou o saco perto da porta da igreja, e achou que ele também poderia entrar e ouvir um salmo antes de continuar a caminhada. O pequeno Cláudio com certeza não conseguiria sair do saco, e todas as pessoas estavam dentro da igreja; então ele entrou também.
"Oh que azar, oh que azar," suspirava o pequeno Cláudio dentro do saco, enquanto ele virava e se revirava por todos os lados; mas ele achava que ele não conseguiria soltar o cordão com o qual o saco havia sido amarrado. Por acaso, um velho criador de gados, de cabelos esbranquiçados, passava por perto, e levava na mão uma vara bastante longa, com a qual ele comandava uma grande manada de vacas e bois que iam na frente. Eles tropeçaram no saco onde o pequeno Cláudio estava, virando-o de lado. "Oh que azar," suspirou o pequeno Cláudio, "Eu sou muito jovem, e logo estarei indo para o céu."
"E eu, meu pobre amigo," disse o charreteiro, "E eu, sendo tão velho, jamais chegarei lá."
"Abra o saco," gritou o pequeno Cláudio; "entre dentro dele no meu lugar, e logo você estará lá."
"Com a maior alegria," respondeu o charreteiro, abrindo o saco, de onde o pequeno Cláudio saltou para fora o mais rápido possível. "Você vai cuidar do meu gado?" disse o velhinho, enquanto entrava dentro do saco.
"Sim," disse o pequeno Cláudio, e ele amarrou o saco, e depois foi embora com todas as vacas e os bois.
Quando o grande Cláudio saiu da igreja, ele pegou o saco, e o colocou de volta em seus ombros. Ele parecia ter ficado mais leve, pois o velho charreteiro não tinha a metade do peso do pequeno Cláudio.
"Como ele está parecendo leve agora," disse ele. "Ah, é porque eu fui a igreja!" Então ele caminhou até o rio, o qual era profundo e largo, e jogou o saco contendo o velho charreteiro dentro da água, acreditando que fosse o pequeno Cláudio. "É aí que você deve ficar!" exclamou ele; "agora você não irá me pregar nenhuma peça mais." Então ele se virou para ir para casa, mas quando ele chegou no lugar onde as duas rodovias se cruzavam, lá estava o pequeno Cláudio comandando o gado. "Como pode ser isto?" disse o grande Cláudio. "Eu não acabei de matar você afogado agora mesmo?"
"Sim," disse o pequeno Cláudio; "você me jogou dentro do rio a cerca de meia hora atrás."
"Mas onde você conseguiu todos esses belos animais?" perguntou o grande Cláudio.
"Estes animas são gados marinhos," respondeu o pequeno Cláudio. "Eu vou lhe contar a história toda, e lhe agradecer por ter-me afogado; eu me tornei superior a você agora, porque fiquei muito rico. Eu estava assustado, para dizer a verdade, quando eu estava amarrado dentro do saco, e o vento soprou em meus ouvidos quando você me atirou da ponte para dentro do rio, e eu afundei até o fundo do rio imediatamente; mas eu não me machuquei, porque eu caí sobre uma grama linda e macia que nasce lá embaixo; e de repente, o saco se abriu, e uma linda sereia veio na minha direção. Ela usava vestidos brancos como a neve, e ela tinha uma grinalda de folhas verdes em seus cabelos molhados. Ela me pegou pelas mãos, e disse, 'Então você chegou, pequeno Cláudio, eis aqui alguns gados para você começar. Meia milha depois na estrada, há uma outra manada para você.' Então eu vi quando o rio formou uma grande estrada para as pessoas que vivem no mar. Elas estavam andando e indo de lá para cá, do mar para a terra, até o lugar onde o rio terminava. O leito do rio estava coberto das flores mais lindas e de uma relva fresca e macia. Os peixes me ultrapassavam tão rapidamente como fazem os pássaros do céu. As pessoas eram tão bonitas, e que gados belíssimos estavam pastando nos montes e nos vales!"
"Mas porquê você voltou novamente," disse o grande Cláudio, "se tudo era tão lindo lá em baixo? Eu não teria feito isso?"
"Bem," disse o pequeno Cláudio, "foi uma boa estratégia da minha parte; você ouviu quando eu disse agora mesmo que uma sereia do mar me havia dito para seguir mais meia milha no caminho, e eu encontraria toda uma manada de gado. Falando de estrada, ela queria dizer o rio, pois de modo algum ela consegue viajar pela estrada de terra; mas eu sabia como o rio era sinuoso, e como ele se curva, algumas vezes para a direita e algumas vezes para a esquerda, e esse me pareceu um caminho muito longo, então eu decidi pegar um atalho; e, subindo pelo caminho de terra, e depois voltando pelos campos de volta para o rio, terei economizado meia milha, e terei conseguido todo o meu gado mais rapidamente."
"Que cara de sorte você é!" exclamou o grande Cláudio. "Você acha que eu conseguiria algum gado marinho se eu descesse até o fundo do rio?"
"Sim, eu acho que sim," disse o pequeno Cláudio; "mas eu não vou carregar você até lá dentro de um saco, você é pesado demais. Todavia, se você for lá primeiro, e depois entrar dentro de um saco, eu o jogarei com o maior prazer."
"Obrigado," disse o grande Cláudio; "mas lembre-se, se eu não encontrar nenhum gado marinho lá em baixo e subo aqui novamente e lhe dou uma boa surra."
"Não, agora, não tenha muita certeza disso!" disse o pequeno Cláudio, enquanto eles caminhavam até o rio. Quando eles chegaram perto, os gados, que estavam com muita sede, viram o rio, e desceram para beber.
"Veja como eles estão com pressa," disse o pequeno Cláudio, "eles estão desesperados para descer lá novamente,"
"Venha, me ajude, rápido," disse o grande Cláudio, afoito, "ou você vai apanhar." Então ele entrou dentro de um saco grande, que estava nas costas de um dos bois.
"Coloque uma pedra grande dentro," disse o grande Cláudio, "ou ou não vou afundar."
"Oh, não fique preocupado com isso," respondeu ele; e colocou uma pedra bem grande dentro do saco, e depois o amarrou bem apertado, e deu um empurrão.
"Plump!" Lá foi o grande Cláudio, que imediatamente afundou até o fundo do rio.
"Eu acho que ele não vai encontrar nenhum gado," disse o pequeno Cláudio, e levou toda a sua manada de volta para casa.

conto de Hans Christian Andersen