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sexta-feira

H. C. Andersen - O menino mau


O menino mau

HÁ muito tempo havia um velho poeta, um verdadeiro bom velho poeta.
Uma noite, enquanto estava confortavelmente em sua casa, desencadeou-se uma terrível tempestade; a chuva caía em torrentes, mas o velho poeta não sentia frio, sentado num canto, ao lado da estufa, na qual ardia alegremente o fogo e chiavam as maçãs que ele colocara para assar.
– Os infelizes que estão ao relento, com esta chuva, não terão sobre o corpo nem um só fio de roupa seco – murmurou, porque era um homem de bons sentimentos.
– Abra a porta, por favor! Estou com muito frio e sinto- me gelado até os ossos! – exclamou um menino gritando em altas vozes lá fora.
E continuou chorando, sem deixar de bater na porta, ao mesmo tempo em que o vento fazia as janelas tremerem.
– Pobrezinho! – exclamou o velho poeta, enquanto se encaminhava para a porta, a fim de abri-la.
Deparou com um menino completamente desnudo, com o cabelo ruivo empapado de chuva. Tiritava de frio, de modo que se não o fizesse entrar, certamente morreria de frio.
– Pobrezinho – repetiu o velho Poeta tomando-o pela mão. – Entre que você se aquecerá. Beberá um pouco de vinho e comerá uma maçã assada. Vejo que você é um belo menino.
E ele o era, realmente. Tinha os olhos brilhantes como duas estrelas e, mesmo molhado, seu cabelo caía em lindos cachos. Parecia um anjo-menino, mas o frio lhe tirara as cores e seus membros tremiam.
Carregava um lindo arco na mão, mas que estava muito estragado pela chuva; demais, as belas cores das setas haviam desaparecido, lavadas completamente pela água.
O velho poeta sentou-se perto da estufa e pousou o menino em seus joelhos; espremeu a água que havia em seus cabelos, aqueceu-lhe as mãozinhas e ofereceu-lhe um pouco de vinho.
Logo o menino se refez e o corado apareceu novamente em suas faces; pulou para o chão e, alegre ao extremo, começou a dançar.
– Você é muito alegre! – exclamou o ancião. – Como se chama?
– Cupido – respondeu o interpelado. Não me conhece? Este é o meu arco e garanto-lhe que sei manejá-lo. Veja, já começa a fazer bem tempo e a lua está brilhando no céu.
– Mas você está com o arco escangalhado – observou o dono da casa.
– É uma pena – replicou o menino. Examinou-o com extremo cuidado e acrescentou: – já secou totalmente. Continuará funcionando bem e a corda não se estragou muito. Veja, vou experimentá-lo. Não se mova.
Encurvou o arco, colocou no mesmo uma flecha, apontou e cravou uma seta no coração do ancião.
– Vê como o meu arco não se estragou? – exclamou sorrindo.
E logo se afastou, rindo-se às gargalhadas. Era um menino muito mau, pois atirou no velho poeta, que o tratara com tanta bondade, dando-lhe vinho e a melhor das maçãs que pusera para assar.
O ancião estava estendido no solo e chorava, porque recebera uma flechada no coração e dizia a si mesmo:
– Que mau é o Cupido! Darei conta disso a todos os meninos, para que tenham cuidado e nunca brinquem com ele, pois poderiam ser vítimas de alguma travessura.
Todos os meninos e meninas bondosos a quem contou a sua aventura tiveram o maior cuidado em evitar o pequeno Cupido, mas ele sempre conseguia enganá-los, porque é muito astuto.
Quando os escolares saem do colégio, ele começa a correr ao seu lado, coberto com uma camisola preta e levando um livro debaixo do braço. Eles não o reconhecem e dão-lhe o braço, tomando-o por um colega e então ele se aproveita para cravar-lhes uma flecha no coração.
Quando as mocinhas saem da escola e quando estão na igreja. Sempre a mesma coisa com todos. Senta-se nos carros, nos teatros e produz uma chama brilhante; as pessoas pensam que aquilo não passa. de uma lâmpada, mas logo percebem seu engano.
Circula pelos jardins e corre pelos muros e em certa ocasião chegou a cravar uma flecha no coração de seu pai e no de sua mãe.
Pergunte a eles e verá o que dizem. Esse Cupido é um menino mau. Mais cedo ou mais tarde consegue desviar a sua vítima e até a sua pobre avozinha não pôde evitar sua flechada.
Isso aconteceu há muito tempo e os efeitos dessa ferida já passaram, porém, é sempre uma coisa que não esquecemos jamais. Que mau é o Cupido!
E agora que você está inteirado de sua maldade, tome muito cuidado, pois do contrário se arrependerá.

Hans Christian Andersen

terça-feira

O colarinho, contos de Hans Christian Andersen


O colarinho

conto de Hans Christian Andersen

Era uma vez um cavalheiro elegante. Tinha uma calçadeira e uma escova, e possuía o mais lindo colarinho do mundo. É a história desse Colarinho que vamos ouvir. Já havia atingido a idade em que devia casar-se e, por acaso, encontrou, certo dia, com uma Liga, na cesta de roupa lavada.
- Escuta! - disse ele - nunca vi criatura tão delgada e elegante, tão suave e graciosa. Posso perguntar como se chama?
- Não o direi - respondeu a Liga.
- Onde mora? - insistiu o Colarinho.
A Liga, porém, de tão tímida e encabulada, nem respondeu.
- A senhorita é como um gracioso cinto - disse o Colarinho - uma espécie de cinto interno... Vejo que a senhorita tanto presta serviços como enfeita.
- Não fale comigo - disse a Liga - não me parece que lhe dei pretexto para isso.
- Deu. Ser tão linda como a senhorita já é pretexto bastante.
- Não chegue tão perto de mim! - protestou a Liga - o sr. até parece homem!
- E sou. Sou um cavalheiro elegante - disse o Colarinho - tenho calçadeira e escova.
Não era bem verdade, pois quem os tinha era o seu dono, mas ele gostava de contar vantagem.
- Não chegue tão perto de mim! - repetiu a Liga - não estou habituada a isso!
- Fingida! - disse o Colarinho.
Foi ele então tirado da cesta de roupa lavada, engomado e posto no espaldar de uma cadeira, ao Sol. Em seguida, foi levado para a tábua de passar. O ferro quente veio vindo.
- Cuidado! - disse o Colarinho - sinto calor. Sinto-me outro, estou perdendo as dobras. Está me queimando!
- Trapo velho! - respondeu o Ferro.
E passou, altivo, sobre o Colarinho, imaginando ser uma locomotiva que ia a puxar vagões.
- Trapo! - repetiu.
O Colarinho desfiou um pouco nos cantos. Veio a Tesoura, para cortar os fios.
- Oh! - disse o Colarinho, vendo-a - a senhorita deve ser uma primeira bailarina! Como sabe erguer as pernas! A senhorita é a dançarina mais linda que já vi. Nenhum ser humano a poderá igualar.
- Sei disso! - atalhou a Tesoura.
- Bem merecia ser condessa - continuou o Colarinho - tudo quanto possuo é um amo elegante, uma calçadeira e uma escova. Quem me dera ter um condado!
- Estás me cortejando! - perguntou a Tesoura.
Zangou-se, e assestou-lhe um profundo corte.
- Terei, decerto, que pedir a mão à Escova - deliberou o Colarinho.
- Como conserva bem seus cabelos, senhorita - começou, ao vê-la - nunca pensou em tornar-se noiva?
- Pensei! E tanto pensei que já estou comprometida, como deve saber.
- Já é noiva! - disse o Colarinho.
Não havia mais ninguém para cortejar, e ele mandou tudo às favas.
Passou-se um longo tempo. O Colarinho foi parar no depósito de uma fábrica de papel. Havia ali uma grande reunião de trapos, os finos de um lado, e os grossos do outro, como é conveniente. Todos tinham muito o que contar, mas o Colarinho era quem mais falava: um verdadeiro fanfarrão.
- Tive muitas namoradas! - contou ele - eu não podia mais viver sossegado. Também, pudera, um cavalheiro elegante, como eu, com muita goma! Dono de uma calçadeira e de uma escova, que eu nunca usava. Deviam ter me visto naquele tempo. Nunca esquecerei minha primeira namorada, uma Liga, tão fina, tão suave e graciosa. Ela atirou-se a um balde de água por minha causa. Houve também uma primeira bailarina, de quem ainda guardo esta cicatriz. Ela era tão irascível! Minha própria Escova andava apaixonada por mim. Perdeu todo o cabelo, só de paixão. Sim, sim... Tive muitos casos assim na vida. Mas quem mais pena me causou foi a Liga, que se lançou ao balde de água. Tenho muita coisa na consciência, e bem posso tornar-me papel branco.
E foi em que todos os trapos se tornaram. Todos os trapos se transformaram em papel branco. O Colarinho veio a ser precisamente o pedaço de papel que aqui vemos, no qual está impressa esta história, e isso porque ele era um fanfarrão, alardeando coisas que nunca se tinham passado. Nisso devemos pensar, para não nos comportarmos do mesmo modo, pois não sabemos se vamos também parar um dia num depósito de trapos e nos transformaremos em papel branco, no qual será impressa toda a nossa história, até os detalhes mais secretos, vendo-a conhecida de todo o mundo, como a do Colarinho.


A colina dos Elfos, contos de Hans Christian Andersen


A colina dos Elfos

conto de Hans Christian Andersen

Umas ágeis lagartixas correram pelas fendas do tronco de uma velha árvore. Entendiam-se muito bem, pois todas falavam a língua de lagartixa.
- Que barulheira tem havido lá na velha Colina dos Elfos! - disse uma delas - já lá vão duas noite que não prego olho, por causa do alarido lá em cima. Eu podia estar na cama com dor de dente, que dava na mesma: em tal situação também não consigo dormir.
- Há qualquer coisa lá dentro - disse outra lagartixa - ficam na Colina, onde se erguem os quatro pilares vermelhos, até a hora do galo cantar. Estão limpando tudo, e as jovens elfas aprenderam novos bailados. Preparam alguma coisa, na certa.
- Falei com uma minhoca de minhas relações - informou uma terceira lagartixa - ela vinha diretamente da colina, onde cavara a terra noite e dia. Ouvira muita coisa, pois ela apenas ouve: não vê, não enxerga, a coitada. Só se vale mesmo do tato, para ajudar a audição. Esperam visitantes na Colina, visitantes ilustres. Quem são, a minhoca não quis dizer. Ou simplesmente não sabia. Todos os fogos-fátuos foram convocados, para realizarem uma marcha de archores. Ouro e prata, que não faltam lá na colina, estão sendo polidos e postos a enxugar sob a luz da Lua.
- Quem poderão ser esses visitantes? - perguntaram todas as lagartixas - o que irá haver por lá? ouçam: que zoada! Que burburinho!
Naquele momento abriu-se a Colina dos Elfos e saiu uma velha elfa solteirona, sem costas (segundo a mitologia escandinava, os elfos, embora muito graciosos e bonitos de frente, não têm costas: são ocos por trás), mas muito bem vestida, andando num passinho miúdo e rápido. Era a velha governanta do Rei dos Elfos. Tinha certo parentesco, embora remoto, com a família real, e trazia, como insígnia, um coração de âmbar na frente. Como andava depressa! Em seu passinho curto, as perninhas não paravam. Ela foi direto ao pântano, onde morava o Engole-Vento.
- O sr. está convidado a ir à Colina dos Elfos esta noite - disse ela - mas peço-lhe a gentileza de fazer-nos primeiro um grande serviço. Peço-lhe que se encarregue de distribuir os convites. Já que o sr. mesmo não tem casa, pode fazer-nos esse favor. Vamos receber visitas, gente muito nobre e ilustre, duendes de alta linhagem, e o velho Rei dos Elfos quer apresentar a todos eles o que há de melhor.
- Quem será convidado? - perguntou o Engole-Ventos.
- Para o grande baile pode vir todo o mundo, até seres humanos, contanto que saibam falar dormindo ou conheçam um pouco de outras artes nossas. Mas, para a festa inicial, haverá rigorosa seleção: só queremos a fina flor da sociedade, o que há de mais aristocrático. Já discuti com o Rei, pois, a meu ver, nem mesmo os fantasmas devemos convidar. O Tritão e suas filhas devem ser convidados em primeiro lugar; não gostam de ficar no seco, mas poderão receber, cada um, uma pedra molhada para sentar, ou coisa ainda melhor. Espero que assim não se recusem a vir dessa vez. A seguir, devem ser convidados todos os velhos duendes de primeira categoria, os de cauda, o Homem do Ribeirão e os anões. Penso também que não podemos deixar de convidar o Porco do Sepulcro, o Cavalo da Morte e o Gnomo da Igreja (segundo a superstição popular, na Dinamarca, em baixo de cada igreja que é construída, deve ser sepultado um cavalo vivo; o fantasma deste cavalo é o Cavalo da Morte, que anda à noite, mancando, pois tem só três pernas, e vai às casas onde alguém está para morrer. Em algumas igrejas era enterrado um porco vivo, e o fantasma desse porco era chamado o Porco do Sepulcro). Eles pertencem ao clero, não são, na verdade, gente nossa, mas, enfim, têm o seu cargo. Além disso, sempre nos visitam. Logo, creio que devem ser lembrados.
- Croááá... - disse o Engole-Vento, que antes tinha os apelidos Noitibó e Curiango.
E saiu voando, para convidar o pessoal.
As moças elfas já dançavam na Colina. Bailavam com um xale longo, tecido de névoa e luar, o que é lindo para os olhos que apreciam coisa assim. No centro da Colina dos Elfos, o grande salão estava muito bem arrumado e enfeitado. O chão fora lavado com luar e as paredes polidas com ungüento de feiticeira, o que as deixara brilhantes como pétalas de tulipa diante da luz. A cozinha estava abarrotada de iguarias finas - como rãs no espeto, peles de cobra-d'água, dedinhos de criança pequena, saladas de semente de chapéu-de-cobra, focinhos de camundongo molhados em cicuta, cerveja fabricada pela Bruxa do Charco, vinho cintilante de salitre das câmaras mortuárias subterrâneas, enfim: todos os manjares mais substanciais e deliciosos. Pregos enferrujados e cacos de vidraça de igreja figuravam entre as sobremesas.
O velho Rei dos Elfos mandou polir sua coroa de ouro com lápis de lousa. Era o lápis de um primeiro aluno da classe, coisa muito difícil de obter para o Rei dos Elfos. No dormitório penduravam cortinas e as prendiam com saliva de cobra-d'água. Havia, de fato, grade azafama, um interminável burburinho.
- Agora é defumar tudo com crina e cerdas de porco queimadas, e creio que fiz minha parte - disse a velha elfa solteirona.
- Paizinho! - suplicou a mais nova das elfas - irei afinal saber quem são os nobres visitantes?
- Está bem - disse o pai - não tenho outro remédio senão revelá-lo. Duas de minhas filhas têm de estar prontas para o casamento. Duas vão certamente nos deixar, para casar. Virá aqui, com os seus dois filhos, que devem escolher mulher, o Duende-Ancião lá de cima, da Noruega, residente na velha montanha de Dovre e senhor de muitos castelos, situados nas rochas, e de uma mina de ouro que vale mais do que se pensa. Ele é o verdadeiro tipo do velho norueguês, honrado, alegre e simples. Conheço-o dos velhos tempos, quando bebíamos juntos e fizemos camaradagem. Ele tinha vindo cá, buscar sua esposa, que já é morta. Era a filha do Rei das Penedias de Moen. Tenho muita saudade do velho duende norueguês. Os filhos, dizem, são uns rapazes malcriados e fanfarrões. Mas, quem sabe? Talvez não seja verdade. Além disso, eles podem mudar com o tempo. Vamos ver se minhas filhas os põem no bom caminho.
- E quando vêm eles? - perguntou uma das filhas.
- Depende dos ventos e do tempo - disse o Rei do Elfos - eles fazem uma viagem econômica. Vêm de navio. Eu queria que viessem pela Suécia, mas o velho não gosta daqueles lados. Ele não acompanha a evolução do tempo, e isso, a meu ver, é o seu único defeito.
Naquele momento vieram pulando dois fogos-fátuos, um mais depressa que o outro, por isso chegou primeiro.
- Eles vêm vindo! Eles vêm vindo! - avisou.
- Dai-me minha coroa e deixai-me ficar no lugar! - disse o Rei.
As filhas ergueram os longos xales e inclinaram-se até o chão.
Lá estava o Duende-Anão de Dovre, com sua coroa de pontas de gelo endurecidas e cones de pinheiros polidos. Trajava uma pele de urso, e calçava botas de inverno; os filhos, porém, vinham de pescoço descoberto e sem suspensórios, pois eram homens fortes.
- Isso é Colina? - perguntou o mais novo dos rapazes, apontando a Colina dos Elfos - na Noruega chamamos a isso um buraco!
- Meninos! - disse o velho - buracos vão para dentro, colinas vão para cima! Não tendes olhos para ver?
Só de uma coisa se admiravam: entenderam, sem dificuldade, a língua do lugar.
- Não nos façais de tolos! - disse o velho - devia-se crer que ainda cheirais a cueiros!
Entraram assim na Colina dos Elfos, onde se achava reunida a seleta e festiva companhia. Mas parecia reunida às pressas, como amontoada pelo vento. No entanto, tinham cuidado do conforto individual de cada um. A gente do mar estava à mesa, sentada em grandes vasilhas de água, e diziam que se sentiam como em casa. Todos observavam a etiqueta, com exceção dos dois jovens duendes noruegueses, que punham os pés sobre a mesa, convencidos de que para eles tudo ficava bem.
- Tirem as patas de cima da mesa! - disse o velho duende, e os rapazes obedeceram, embora com relutância.
Com os cones de pinheiros que traziam nos bolsos, faziam cócegas nas damas, suas vizinhas de mesa. Em seguida, tiraram as botinas, para ficarem mais à vontade, e deram-nas a uma das damas, para segurar. O pai, o velho Duende de Dovre, sim, era diferente. Sabia contar coisas bonitas das altas montanhas norueguesas, de cachoeiras que despencavam, brancas de espuma, com um fragor que parecia trovão e música de órgão misturados. Falou do salmão, que salta contra a água da correnteza, quando o génio das águas dedilha sua harpa de ouro; falou das brilhantes noites hibernais, quando soam as campainhas dos trenós e os rapazes correm, com archotes acesos, sobre os lisos campos de gelo - gelo tão transparente que as pessoas vêem, a seus pés, os peixes fugirem espavoridos. Sabia narrar com tanta vivacidade que se via e ouvia o que ele contava. Era como se escutassem as serrarias em movimento, os rapazes e moças cantando e dançando. De repente, arrebatado, o velho duende beijou a velha elfa solteirona - mas foi como um beijo de tio, embora nem fossem parentes.
Chegou a vez de as moças dançarem - não só simples bailados como sapateados. Seguiram-se bailados artísticos, individuais, e como sabiam elas usar as penas! No auge da dança, não se sabia mais o que era um lado e o que era outro, o que eram braços e o que eram pernas. Giravam com tal rapidez que o Cavalo-da-Morte até se sentiu mal e teve de sair da mesa.
- Prrrr! - disse o velho Duende - que festa de pernas!
Mas o que sabem elas, além de dançar, levantar as pernas e fazer remoinhos?
- Já o saberás! disse o Rei dos Elfos.
E chamou a mais jovem de suas filhas, fina e clara como o luar, a mais delicada dentre as irmãs. Ela tomou na boca uma varinha branca, e praticamente desapareceu. Era esta a sua arte.
O Duende-Ancião, porém, disse que não apreciava aquele tipo de arte em uma esposa, e que, segundo acreditava, também seus filhos não haveriam de apreciá-la.
A outra moça conseguia andar ao lado de si própria, como se projetasse uma sombra, coisa que os duendes não têm.
A terceira era completamente diferente: trabalhava na cervejaria da Feiticeira do Charco e sabia lardear nós de amieiro com pirilampos.
- Esta dará uma boa dona de casa - disse o Ancião, piscando os olhos.
Seguiu-se a quarta moça. Trazia consigo uma grande harpa de ouro, e, quando feriu a primeira corda, todos ergueram a perna esquerda, pois os duendes são canhotos; quando feriu a segunda corda, todos tiveram de fazer o que ela queria.
- Mulher perigosa! - opinou o Duende-Ancião.
Seus dois filhos saíram da Colina entediados com tudo aquilo.
- E o que sabe fazer a filha seguinte? - perguntou o velho.
- Aprendi a gostar de tudo quanto é norueguês - disse ela - e só me casarei com a condição de poder ir a Noruega!
- É só porque ela ouviu dizer, numa canção norueguesa, que quando o mundo se acabar, os picos noruegueses ficarão, como monumentos do passado - cochicou ao Duende-Ancião a irmã mais nova - por isso ela quer ir lá para cima, pois vive com medo do fim do mundo.
- Ah! - disse o Duende-Ancião - então é por isso? Mas o que sabe fazer a sétima e última das moças?
- Antes da sétima vem a sexta! - retificou o Rei dos Elfos, que sabia calcular.
Mas a sexta não tinha grande vontade de aparecer.
- Só sei dizer a verdade a todos - disse ela, afinal - ninguém se importa comigo e tenho meu tempo ocupado em costurar minha própria mortalha.
Veio a sétima e última. Que sabia ela? Sabia contar fábulas, tantas quantas quisesse.
- Aqui estão todos os meus cinco dedos - disse o Duende-Ancião - conta-me uma história a respeito de cada um deles.
A moça tomou-lhe a mão, e ele riu-se a valer. Quando ela chegou ao Seu-Vizinho, que tinha anel de ouro na cintura, como se soubesse que ia haver noivado, disse o Duende-Ancião:
- Segura o que tens! A mão é tua! A ti eu mesmo quero por esposa.
A moça objetou que restava contar ainda a história de Seu-Vizinho e de Minguinho.
- Estas ouviremos no inverno - disse o Duende-Ancião - e ainda a história do pinheiro, a da bétula e a dos dotes das fadas e do frio cortante. Tu terás muitas histórias a contar, pois é coisa que ninguém sabe direito lá em cima. E nós ficaremos na casa de pedra, iluminada pela luz do archote, e tomaremos nosso vinho caseiro nos cornos de ouro dos antigos reis noruegueses. O génio da água presenteou-me com alguns. Lá nos virá visitar o Duente do Gar, que te contará todas as cantigas das pastoras. Será muito alegre! O salmão saltará na cachoeira, baterá na parede de pedra, mas não conseguirá entrar. Sim, podes crer, tudo é muito belo na querida e velha Noruega! Mas onde estão os rapazes?
Sim, onde estão os rapazes? Andavam correndo pelo campo e sopravam os fogos-fátuos, apagando-os, coitados, a eles que tinham vindo para realizar a marcha dos archotes.
- Isso é coisa que se faça? - censurou o Duende-Ancião - acabo de tomar uma mão para vós. Podeis tomar agora uma das tias.
Os rapazes, porém, disseram que preferiam fazer um discurso e beber, celebrando o acontecimento. Não tinham vontade de casar. Fizeram, pois, seus discursos, beberam e celebraram. Em seguida tiraram os casacos e deitaram-se na mesa, para dormir, sem a menor cerimónia. O ancião, no entanto, ficou andando em volta da sala, dançando com sua jovem noiva, e trocou de botina com ela, o que lhe parecia mais elegante que trocar de anéis.
- O galo está cantando! - anunciou a velha solteirona, dona da casa - temos de fechar as janelas, para que o Sol não brilhe aqui dentro.
E a Colina dos Elfos fechou-se.
Lá foram as lagartixas corriam para baixo e para cima, na árvore oca.
- Como gostei do Duende-Ancião norueguês! - disse a lagartixa à companheira.
- Pois eu gostei mais dos rapazes - revelou a minhoca.
A pobrezinha, porém, não enxergava: era um bicho insignificante.


A casa Velha, contos de Hans Christian Andersen


A casa Velha

conto de Hans Christian Andersen

Aquela velha casa! Tinha perto de trezentos anos, como se podia ver por uma inscrição gravada numa viga, no meio de uma guirlanda de tulipas. Sob a porta podiam-se ler versos escritos na ortografia antiga, e sob cada janela estavam esculpidas figuras que faziam caretas engraçadas.
A casa tinha dois andares e no teto havia uma goteira terminada por uma cabeça de dragão. A chuva devia escoar-se na rua por essa cabeça; mas ela se escoava pelo ventre, pois a goteira tinha um buraco no meio. Todas as outras casas daquela rua eram novas e próprias, ornadas de grandes azulejos e muros brancos. Pareciam desdenhar a sua velha vizinha.
- Quanto tempo ainda este barraco vai ficar aqui? - pensavam elas - tira-nos toda a vista de um lado. Sua escadaria é larga como a de um castelo e alta como a da torre de uma igreja. A grande porta de ferro maciço parece a de uma antiga sepultura, com seus botões de couro. Que coisa! Imaginem só!
Numa dessas lindas casas, na frente da velha, estava na janela um menino de rosto alegre, faces coradas e olhos brilhantes. Gostava muito da velha casa, tanto à luz do Sol como ao clarão da Lua. Ele se divertia em copiar as cabeças que faziam caretas, os ornamentos que representavam soldados armados e as goteiras que se pareciam com dragões e serpentes. A velha casa era habitada por um homem idoso que usava calções curtos, um casaco com botões de couro e uma imponente peruca. Nunca se via ninguém, exceto um velho doméstico, o qual, todas as manhãs, vinha arrumar seu quarto e fazer compras. Algumas vezes olhava para a janela e então o menino o cumprimentava amistosamente; nosso homem respondia e assim eles se tornaram amigos sem nunca se terem falado. Os pais do menino diziam sempre:
- Esse velhote daí em frente parece estar à vontade; mas é uma pena que viva tão só.
Eis por que o menino, num domingo, depois de ter embrulhado algo num pedaço de papel, foi para a rua e disse ao velho doméstico:
- Ouça, se você quisesse levar isto ao velho senhor lá em frente, me daria um grande prazer. Tenho dois soldados de chumbo, e dou-lhe um, para que ele não se sinta tão só.
O velho doméstico executou o encargo com alegria e levou o soldado de chumbo para a velha casa. Mais tarde, o menino, convidado a visitar o ancião, correu para lá com a permissão de seus pais.
No interior a maior arrumação reinava por todos os lados; o corredor estava ornado de antigos retratos de cavaleiros em suas armaduras e de senhoras com vestido de seda. No fundo desse corredor havia uma grande varanda, pouco sólida, era verdade, mas toda guarnecida de folhagens e de velhos vasos de flores que tinham por alças orelhas de asno.
A seguir o menino chegou ao aposento onde estava sentado o ancião.
- Obrigado pelo soldado de chumbo, meu amiguinho - disse este último - obrigado pela sua visita!
- Disseram-me, replicou o menino - que você estava sempre sozinho; eis por que enviei-lhe um de meus soldados de chumbo para fazer-lhe companhia.
- Oh! replicou o velho sorrindo, nunca estou totalmente sozinho; muitas vezes velhos pensamentos vêm me visitar e agora você vem também; não posso queixar-me.
A seguir ele apanhou numa estante um livro de figuras onde se viam procissões magníficas, carruagens estranhas, como não existem mais e soldados levando o uniforme de valete-de-paus. Viam-se ainda as suas corporações com todas as suas bandeiras: a dos alfaiates levava dois pássaros sustidos por dois leões; a dos sapateiros estava ornada com uma águia, sem sapatos, é verdade, mas de duas cabeças. Os sapateiros gostam de ter tudo em dobro, a fim de formarem um par.
E, enquanto o menino olhava as figuras, o ancião ia até o aposento vizinho procurar doces, frutas, biscoitos e avelãs. Na verdade a velha casa não era desprovida de conforto.
- Nunca poderia suportar essa existência - dizia o soldado de chumbo - colocado sobre um cofre. Como tudo aqui é triste! Que solidão! Que infelicidade encontrar-se em semelhante situação, para quem está acostumado à vida de família! O dia não acaba nunca. Que diferença da sala onde seu pai e sua mãe conversavam alegremente e você e seus irmãos brincavam! Este ancião, na sua solidão, jamais recebe carícias; não ri e sem dúvida passa o Natal sem a sua árvore. Esta habitação se parece com uma tumba; eu nunca suportaria uma tal existência.
- Não se lamente tanto - respondia o menino - pois eu gosto daqui e depois você sabe que ele recebe sempre a visita de seus velhos pensamentos.
- É possível, mas eu nunca os vejo; nem os conheço. Jamais poderia ficar aqui!
- No entanto, é preciso ficar.
O velho voltou com um rosto sorridente, trazendo os doces, as frutas e as avelãs e o menino não pensou mais no soldadinho de chumbo. Após ter-se regalado, voltou contente e feliz para a sua casa; e não deixava de fazer um sinal amistoso ao seu velho amigo, de cada vez que o percebia na janela.
Algum tempo depois, ele fez uma segunda visita à velha casa.
- Não posso mais! - disse o soldadinho de chumbo - aqui é muito triste.
Tenho chorado chumbo derretido! Gostaria mais de ir para a guerra, arriscando-me a perder pernas e braços. Pelo menos seria uma mudança. Não aguento mais! Agora já sei o que é a visita dos velhos pensamentos; os meus vieram me visitar, mas sem dar-me o menor prazer. Eu os via na casa em frente, como se estivessem aqui. Assisti à prece matutina, às suas lições de música e me achava no meio de todos os outros brinquedos. Ai de mim! Não passavam de velhos pensamentos. Diga-me como se comporta a sua irmã, a pequena Maria. Dê-me notícias também do meu camarada, o outro soldado de chumbo; ele tem mais sorte do que eu. Não posso mais, não posso mais.
- Você não mais me pertence - respondeu o menino - e eu não tomarei aquilo que dei de presente. Entregue-se à sua sorte.
O ancião trouxe para o menino umas figuras e um jogo de antigas cartas, enormes e douradas, para diverti-lo. A seguir abriu o seu clavicórdio, tocou um minueto e cantarolou uma velha canção.
- À guerra! À guerra! - gritou o soldado de chumbo - e atirou-se ao chão.
O ancião e o menino quiseram levantá-lo, mas procuraram por todos os lados sem conseguir encontrá-lo.
O soldado de chumbo caíra numa fenda. Um mês mais tarde era inverno e o menino soprava as vidraças a fim de fundir o gelo e limpar o vidro. Dessa maneira ele poderia fitar a velha casa da frente. A neve cobria completamente a escadaria, todas as inscrições e todas as esculturas. Não se via ninguém, e, realmente, não havia ninguém; o ancião tinha morrido. Na mesma noite um carro parava na frente da porta para receber o corpo que devia ser enterrado no campo. Ninguém seguia esse carro; todos os amigos do ancião também estavam mortos. Somente o menino enviou um beijo com a ponta dos dedos para o caixão que partia.
Alguns dias mais tarde, a velha casa foi posta à venda, e o menino, da sua janela, viu levarem os retratos dos velhos cavaleiros e das castelãs, os vasos de plantas de orelhas de asno, os móveis de carvalho e o velho clavicórdio. Ao chegar a primavera a velha casa foi demolida.
- Não passa de um barraco! - repetia todo o mundo - e, em algumas horas, não se via mais do que um monte de escombros.
- Até que enfim! - disseram as casas vizinhas se pavoneando.
Alguns anos mais tarde, no local da velha casa se erguia uma casa nova e magnífica, com um pequeno jardim rodeado de uma grade de ferro; era habitada por um de nossos antigos conhecidos, o menino amigo do ancião. O menino crescera, casara-se; e, no jardim, ele olhava para sua esposa que plantava uma flor.
De repente ela retirou a mão dando um grito; algo pontudo ferira seu dedo. Que acham que era? Nada mais do que o soldadinho de chumbo, o mesmo que o menino presenteara ao ancião. Jogado para cá e para lá, ele terminara afundando na terra. A jovem senhora limpou o soldado, primeiro com uma folha verde, depois com o seu lenço. E ele despertou de um longo sono.
- Deixe-me ver! - disse seu marido sorrindo - oh! não, não é ele! Mas eu me lembro da história de um outro soldado de chumbo que me pertenceu quando eu era criança.
Então ele contou à esposa a história da velha casa, do ancião e do soldado de chumbo que ele dera a este último para fazer-lhe companhia.
Ao ouvi-lo, seus olhos se encheram de lágrimas.
- Quem sabe não se trata do mesmo soldado? - disse ela - de qualquer forma vou guardá-lo. Mas você poderia mostrar-me o túmulo do ancião?
- Não - respondeu o marido - não sei onde está e ninguém sabe também.
Todos os seus amigos morreram antes dele, ninguém o acompanhou até a última morada e eu não passava de uma criança.
- Que coisa triste é a solidão!
"Coisa pavorosa, realmente" - pensou o soldadinho de chumbo - "em todo caso, é melhor ficar só do que ser esquecido."


O isqueiro mágico, Contos de Hans Christian Andersen


O isqueiro mágico

Conto de Hans Christian Andersen (1835)

Um soldado vinha marchando pela estrada: um, dois! Um, dois! Trazia a mochila às costas e a espada no cinto, pois estivera na guerra e voltava para casa. Encontrou no caminho uma velha bruxa, horrivelmen­te feia, com o lábio inferior pendendo-lhe até o peito.
-   Boa tarde, soldado! - disse ela. - Que bela espada e que grande mochila tens aí! És um verdadeiro soldado.   Terás, já, quanto- dinheiro  quiseres.
-   Muito obrigado, velha - respondeu o soldado.
-   Vês esta grande árvore? - perguntou a bruxa, apontando a árvore ao lado dele.  - É inteiramente oca. Podes subir até a copa. Verás, então, um buraco pelo qual descerás até chegar bem embaixo. Eu te amar­ro uma corda na cintura, para poder içar-te de novo, quando me chamares.
-   E que farei lá embaixo, na árvore? - quis saber o soldado.
Vais buscar dinheiro! - disse a bruxa. - Quando chegares ao fundo, encontrarás um vasto salão muito
bem iluminado, pois nele ardem centenas de lâmpadas. Verás então três portas, que podes abrir.  As chaves estão nas fechaduras. Entrando no primeiro quarto, verás, no soalho, uma grande arca, em cuja tampa está sentado um cão. Os olhos dele são do tamanho de xí­caras de chá. Mas não te incomodes com isso. Dou-te meu avental azul enxadrezado; estende-o no chão, e em seguida vai bem depressa, pega o cão e coloca-o no meu avental. Podes então abrir a arca e tirar quantos vinténs quiseres; são todos de cobre. Mas, se preferires prata, é só entrares no quarto seguinte; ali está senta­do um cão com olhos do tamanho de rodas de moinho. Não te incomodes, porém. Coloca-o no meu avental, e serve-te do dinheiro! Entretanto, se quiseres ouro, tam­bém o terás - tanto quanto puderes carregar! Basta entrares no terceiro quarto.  Ali, o cão da arca tem olhos do tamanho da cúpula de um edifício. Esse, sim, é um cão extraordinário, verás! Mas não te incomodes. Coloca-o no meu avental e ele nada te fará. Podes então tirar da arca quanto ouro quiseres.
-   Não me parece nada mau - disse o soldado - Mas que te darei eu em troca, minha velha? Sim, imagino que hás de querer alguma paga por tudo isso.
-   Não - respondeu a bruxa. - Não quero um único vintém. Só tens de me trazer um velho isqueiro que minha avó esqueceu quando, pela última vez, este­ve lá embaixo.
-   Combinado! - concordou o soldado. - Podes já me amarrar a corda à cintura.
-   Pronto! - disse a bruxa, quando terminou de amarrar a corda. - E aqui está o meu avental azul e branco.
O soldado subiu a árvore, deixou-se escorregar pelo oco da árvore abaixo, e pouco depois estava num gran­de salão iluminado, exatamente como dissera a bruxa. Ardiam nele centenas de lâmpadas!
Abriu a primeira porta. E lá estava, a encará-lo, o cão com olhos do tamanho de xícaras de chá.
- És um lindo animal!  - disse o soldado.
E colocou-o no avental da bruxa, recolhendo tan­tas moedas de cobre quantas lhe cabiam no bolso. Tor­nou a fechar a arca, nela colocou de novo o cão, e en­trou no segundo quarto. Ali estava o cão com olhos do tamanho de rodas de moinho!
-  Não devias fitar-me tanto, pois acabarás com os olhos doendo!
Depois de dizer isso, pôs o cão no avental da bru­xa. Ao ver, porém, tanto dinheiro de prata na arca, dei­tou fora todo o dinheiro de cobre que trazia e encheu os bolsos e a mochila com as novas moedas. Entrou de­pois no terceiro quarto. Inacreditável! Lá estava o cão de olhos tão grandes como a cúpula de um edifício, a girar-lhe feito rodas!
-  Boa noite, meu prodigioso animal!  - disse o soldado, levando respeitosamente a mão ao quepe, pois nunca antes vira um cão extraordinário assim.
Após contemplá-lo por algum tempo, comentou con­sigo próprio: “Agora, chega!” Pôs o cão no soalho e abriu a arca. Quanto ouro, santo Deus! Daria para comprar a Copenhague, os porquinhos de açúcar das doceiras, todos os soldadinhos de chumbo, chicotes e cavalinhos de pau que existiam no mundo! Ali, sim, ha­via dinheiro! O soldado botou fora todas as moedas de prata com que enchera os bolsos e a mochila, substi­tuindo-as pelas de ouro. Abarrotou com elas os bolsos, a mochila, o quepe e as botas, a ponto de quase não po­der mais andar. Agora, sim, tinha dinheiro! Colocou o cão na arca, fechou a porta e gritou para cima, atra­vés do oco da árvore:
-   Já podes içar-me, minha velha!
-   Trazes o isqueiro? - perguntou ela.
-   Que coisa! - exclamou o soldado. - Não é que tinha me esquecido dele!
Pegou então o isqueiro, e a bruxa puxou-o para cima. Pouco depois estava o soldado de novo na es­trada, com os bolsos, as botas, a mochila e o quepe cheios de moedas de ouro!
-  Que vais fazer com o isqueiro? - perguntou ele.
-   Não é da tua conta - disse a bruxa. — Levas bom dinheiro. Dá-me o isqueiro, e pronto!
-   Nada disso! - retrucou o soldado. - Dize-me primeiro o que vais fazer com o isqueiro, ou eu puxo minha espada e te corto a cabeça!
-   Não direi nunca! - protestou a bruxa. - Não tenho que te dizer nada!
O soldado cortou-lhe então a cabeça, e deixou a ve­lha estendida na estrada. Depois atou todo o dinheiro no avental dela, fez uma trouxa, que pôs às costas, meteu o isqueiro no bolso e tomou o rumo da cidade.
Ali chegando, entrou numa grande hospedaria, on­de pediu o que havia de melhor - em aposentos e igua­rias. Pediu tudo aquilo de que mais gostava, pois tinha muito dinheiro e podia pagar.
O criado, porém, ao limpar-lhe as botas, estranhou que um cavalheiro tão rico usasse botas tão velhas. O soldado explicou que ainda não tivera tempo de com­prar outras. No dia seguinte, porém, ostentava ele lin­das botas novas e as roupas mais bonitas. Tornara-se um nobre, e todos lhe falavam do esplendor da cidade, do rei e da sua encantadora filha.
-   Onde poderei ver a princesa? - perguntou o soldado.
-   Ela não pode ser vista! - informaram. - Mora num grande palácio de cobre, todo cercado de muros e torres. Ninguém, a não ser o rei, pode vê-la, porque vaticinaram que ela haverá de casar-se com um soldado raso.
“Como eu gostaria de vê-la!”, pensou o soldado. Mas naturalmente compreendeu que era impossível con­seguir isso.
E foi vivendo a sua vida folgazão, indo ao teatro, passeando de carruagem nos jardins. Dava, porém, muito dinheiro aos pobres, pois sabia quanto era duro não ter vintém. Trajava roupas vistosas, e começou a ter muitos amigos, que lhe gabavam as qualidades de autên­tico cavalheiro, o que muito agradava ao soldado. Gas­tando, porém, dinheiro todos os dias e não ganhando nenhum, não tardou a ver-se, um belo dia, com apenas
dois vinténs no bolso. Teve de mudar-se dos seus ricos aposentos para uma água-furtada, e de escovar ele pró­prio suas botas e, mais tarde, remendá-las com uma ve­lha agulha de sapateiro. Seus amigos deixaram de vi­sitá-lo, alegando que não podiam subir tantas escadas.
Certa noite, era grande a escuridão e ele nem uma vela podia comprar! Lembrou-se então que havia um coto no isqueiro da bruxa. Foi buscá-lo, tateando, mas no momento em que acionou o isqueiro, saltaram faís­cas por toda a parte. Abriu-se a porta e apareceu-lhe o cão de olhos tão grandes como xícaras de chá, que lhe perguntou:
-  Que ordena, meu senhor?
O soldado ficou estupefacto.
Que estranho isqueiro era aquele? Podia pedir en­tão o que quisesse?
-  Arranja-me algum dinheiro - disse ao cão.
E zás! O cão sumiu, e logo reapareceu com um saco de moedas de cobre na boca.
O soldado ficou conhecendo os poderes mágicos do isqueiro. Se batia uma vez, aparecia o cão da arca de moedas de cobre. Se batia duas vezes, aparecia o da arca de moedas de prata. Se batia três vezes, aparecia o da arca de moedas de ouro. O soldado tornou a mu­dar-se para os aposentos de luxo, voltou a usar as rou­pas bonitas dos primeiros dias, e imediatamente todos os seus amigos passaram a procurá-lo de novo e de novo passaram a gostar dele e admirá-lo.
Certa vez ele pensou: “É bem estranho, afinal de contas, que ninguém possa ver a princesa. Todos dizem que ela é maravilhosa! Mas de que adianta isso, se a coitadinha tem de ficar o tempo todo oculta no palácio de cobre, cercada de muros e torres? Será que realmen­te não a poderei ver? E o meu isqueiro?
Bateu uma vez na mola, e imediatamente apare­ceu o cão com os olhos do tamanho de xícaras de chá.
-        É verdade que estamos na escuridão da noite - ponderou o soldado. - Mas eu gostaria tanto de ver a princesa, nem que fosse por um instantinho só!
cão desapareceu, e antes que o soldado pudesse refletir, eis que tornou a vê-lo, trazendo a princesa! Ela dormia, e era tão encantadora que qualquer um podia ver que se tratava de uma verdadeira princesa. O soldado não pôde resistir. E beijou-a. Mas logo o cão desapareceu com ela. E quando, na manhã seguin­te, o rei e a rainha tomavam chá, a princesa contou-lhes que tivera um sonho muito estranho naquela noite. Sonhara com um cão e um soldado. Ela montara no cão e o soldado a beijara.
-  Com efeito, é uma história bem estranha!   - disse a rainha.
Foi deliberado que uma das camareiras velaria jun­to à cama da princesa na noite seguinte, para ver se era mesmo um sonho - ou o que podia ser.
O soldado de novo desejou ver a princesa. O cão foi ao palácio, tomou-a sobre o dorso e correu o quanto podia, mas a camareira saiu-lhe no encalço, correndo tão depressa quanto ele. Vendo-o desaparecer na hos­pedaria, murmurou: “Agora sei onde é.”
Com um pedaço de giz, traçou uma grande cruz na porta do prédio. Isso feito, voltou ao palácio, e o cão não tardou a surgir com a princesa. Vendo, porém, uma cruz de giz na porta da hospedaria onde morava o soldado, tomou por sua vez de um pedaço de giz, e desenhou cruzes em todas as portas da cidade. Foi uma sábia medida, pois com tantas cruzes a camareira não podia mais identificar a porta da hospedaria.
Pela manhã, bem cedo, o rei, a rainha, a camareira e todos os oficiais saíram para ver onde a princesa ti­nha estado à noite.
-   Foi ali! - disse o rei, ao ver a primeira porta marcada com a cruz.
-   Talvez tenha sido ali! - exclamou a rainha, ao ver outra porta assinalada.
-   Ali há uma, e acolá outra! - disseram todos.
E para onde olhavam, viam cruzes nas portas. Com­preenderam que não valeria a pena continuar a busca.
A rainha, porém, mulher muito sagaz, que não sa­bia apenas passear de carruagem, tomou da sua grande
tesoura de ouro, recortou uma peça de seda, e costurou uma bolsinha. Encheu-a com grãozinhos de sorgo, amarrou-a às costas da princesa, e, em seguida, abriu com a tesoura um buraquinho, através do qual, por onde a princesa passasse, os grãozinhos pudessem ir caindo.
À noite, o cão tornou a ir ao palácio, pôs a princesa nas costas e levou-a para perto do soldado, que gostava cada vez mais dela, a ponto de desejar ser um príncipe para fazê-la sua esposa.
O cão nem reparou que os grãos iam caindo, desde o palácio até a janela do soldado, por onde ele entrou com a princesa. Pela manhã, o rei e a rainha descobri­ram onde a filha tinha estado. E mandaram meter o soldado no cárcere.
Ficou ele preso na escura masmorra.
-  Amanhã serás enforcado! - disseram-lhe.
Não era agradável ouvir aquilo. O pior, porém, é que ele esquecera o isqueiro na hospedaria. Pela ma­nhã, através das grades de ferro, viu o povo saindo às pressas da cidade, para o local do enforcamento. Ou­viu rufar os tambores, enquanto guardas marchavam. O povo continuava a passar. Um aprendiz de sapatei­ro, com um avental de couro, passou correndo tão rá­pido que uma das suas chinelas saiu voando em dire­ção ao muro onde o soldado espiava através das grades de ferro.
-  ó rapaz, não tenhas tanta pressa! - disse o soldado. - A função não começa antes de eu chegar lá. Queres dar um pulo até onde eu morei, e apanhar o meu isqueiro? Ganharás quatro moedas, por isso. Mas vai correndo!
O aprendiz de sapateiro, que bem queria ganhar quatro vinténs, saiu em disparada, apanhou o isqueiro e deu-o ao soldado.
E o resto veremos já!
Fora da cidade erguia-se uma grande forca. Ro­deavam-na os guardas e centenas de milhares de pes­soas. O rei e a rainha ocupavam o trono armado em
frente ao local onde se reuniam os juizes e o conselho. O soldado já estava no alto do estrado, mas, quando o verdugo ia colocar-lhe a corda ao pescoço, ele ponde­rou que era da tradição permitirem ao réu formular o último desejo. O dele era muito simples: queria dar a derradeira cachimbada de sua vida.
O rei não se opôs. O soldado pegou o isqueiro, acionou a mola uma, duas, três vezes, e surgiram en­tão os três cães: o dos olhos do tamanho de xícaras de chá, o dos olhos iguais a rodas de moinho, e o que ti­nha olhos tão grandes como a cúpula de um edifício.
-  Ajudai-me, para que eu não seja enforcado! - clamou o soldado.
Os cães atiraram-se rápidos nos juizes e aos mem­bros do conselho, pegaram uns pelas pernas e outros pelo nariz, e jogaram todos eles a muitos metros de altura, de maneira que caíam e se faziam em pedaços.
-  Poupai-me! - pedia o rei.
Mas o maior dos cães, agarrando-o com a rainha atirou os dois para o ar, como aos outros. Os guardas fugiam assustados e todo o povo gritava:
-  Soldadinho, de ora em diante serás nosso rei e terás como esposa a encantadora princesa!
Levaram o soldado na carruagem do rei e os três cães saíram dançando na frente. Os meninos assobia­vam, com os dedos na boca, e a tropa reuniu-se para apresentar armas. A princesa saiu do palácio e tornou-se rainha, que era o seu sonho. As bodas duraram oito dias. E os três cães, de olhos arregalados, tiveram as­sento à grande mesa festiva.