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sexta-feira

O presente-surpresa do Rei Wod, de Chris Powling e Sally Grindley


O presente-surpresa do Rei Wod

O rei Wod era muito, muito rico.
Tinha tanto dinheiro que podia encher a meia de Natal de todas as crianças do país – incluindo a tua, se lá morasses – e ainda lhe sobraria muito dinheiro. Por que razão, então, odiava ele o Natal?
A razão era esta. O Rei Wod queria um presente-supresa na manhã de Natal.
Só isso?
Aha… não esqueçamos quão rico ele era. Todos os anos, acontecia a mesma coisa. Por muito maravilhoso que fosse o presente que recebia, nunca era novidade. Por exemplo:
Um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris.
Um livro de respostas a todas as perguntas dos professores.
Um cesto de piquenique que brilhava no escuro quando o levávamos a uma festa depois da meia-noite.
Uma almofada para nos adormecer ao som de uma canção.
Uma poça de água para saltar dentro de casa sem molhar a carpete…
Para quê mais exemplos?
“Já tenho um desses”, dizia sempre o Rei Wod.
Um dia, bem cedo, numa manhã de Natal, mesmo antes de o sol nascer, o Rei perdeu a paciência. Deu um pontapé no trono, rasgou o manto em dois e atirou a coroa pela janela.
— Será que ninguém pode trazer-me um presente-surpresa? — gritou. — Chamem o feiticeiro real!
— Aqui me tendes, Majestade.
— Não fiques aí especado! Faz alguma coisa. Isto é uma ordem!
ABRA – CA – ZAM!
— O que é que aconteceu?
Num abrir e fechar de olhos, o Rei Wod encontrou-se numa floresta escura, coberta de neve.
— Onde estou? No Pólo Norte? — perguntou. — Esperem até eu regressar ao palácio. Aquele feiticeiro não sabe com quem se meteu!
Agora, porém, quem estava em apuros era o Rei Wod. Em alguns sítios, a neve chegava-lhe aos joelhos e, noutros, mesmo aos sovacos. O Rei não sabia onde se encontrava. Em breve estava tão hirto e gelado como um pingente de neve.
— Se não me mexer depressa, acabo por me transformar num pingente. Um pingente gigante. Alto lá, será que estou a ver além uma casa?
Suspirando de alívio, caminhou pesadamente até chegar a uma cabana minúscula, com o telhado coberto de neve, situada na orla da floresta.
A cabana estava vazia.
Não que estivesse abandonada. Havia uma lareira acesa, comida na despensa e mobília confortável na sala de estar.
— Onde estará o dono? — perguntou o Rei. — E porque não há decorações de Natal e uma árvore com luzinhas?
Na cabana não havia o menor indício de Natal. Excepto um calendário do Advento em cima do fogão de sala. Estava aberto no dia 24 de Dezembro.
— É véspera de Natal — disse o Rei.
Isto tornou a cabana ainda mais deserta. O Rei sentia-se só. Será que iria passar o primeiro Natal sozinho da sua vida?
— Para começar, é melhor aquecer-me. E tenho de me manter ocupado.
Foi divertido cortar uma árvore na floresta e colocá-la num canto da sala, especialmente depois de ter encontrado uma grande caixa com decorações de Natal no armário debaixo das escadas.
Também foi divertido pendurá-las, bem como acender a lareira e pôr a mesa para a ceia de Natal.
Depois de ter feito tudo isto, o Rei desenhou um cartão de Natal para o dono da cabana e colocou-o em cima da chaminé. Fez, em seguida, uma embalagem de oferta, dentro da qual colocou um bilhete:
Este espaço está reservado para um presente do Rei Wod. Pode ser um livro de respostas a todas as perguntas dos professores, um cesto de piquenique que brilha no escuro quando o levamos a uma festa depois da meia-noite, um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris… O que lhe apetecer. A escolha é sua.
Colocou, depois, a caixinha debaixo da árvore de Natal. Por último, pôs a mesa para mais uma pessoa.
— Nunca se sabe… — suspirou.
Adormeceu profundamente diante da lareira.
A claridade do dia acordou-o. A claridade e o tilintar de campainhas de trenó. A porta abriu-se de repente e um homem gorducho entrou. Exactamente o tipo de pessoa que esperaríamos ver num sítio como este. Como trazia geada nas sobrancelhas, gelo na barba, flocos de neve a derreter no fato vermelho, e um saco vazio, o Rei Wod demorou algum tempo a reconhecê-lo.
— Pai Natal! — arquejou.
— Como está? Quem é o senhor?
— Sou o Rei Wod. Desculpe esta…
— O Rei Wod?
O Pai Natal olhou o seu visitante com espanto.
— Isso quer dizer que a carta do feiticeiro era verdadeira? A carta que dizia que me ia trazer…
A voz do Pai Natal foi-se apagando, enquanto percorria com os olhos as decorações, a mesa de jantar, o cartão na chaminé, e o presente debaixo da árvore.
— Como é que sabia? — exclamou este.
— Sabia? — perguntou Wod. — Sabia o quê?
— Que nunca tive um Natal a sério?
— Nunca?
— Estou sempre demasiado ocupado antes do Natal. Depois fico demasiado cansado. E agora Vossa Majestade organizou tudo para mim. Que Deus o abençoe! Estou-lhe tão grato. Como se lembrou de um presente-surpresa tão bonito?
— Presente-surpresa?
— O meu próprio Natal — respondeu o Pai Natal. — É o meu primeiro Natal.
— É o primeiro que ofereço — disse o Rei, pensativo.
Mas deu-se logo conta de que não seria o último.
Wod nunca esqueceu a lição que o seu feiticeiro lhe deu. Faz sentido que, quando se é um rei que tem tudo, receber um presente-surpresa é difícil. Mas dar um é fácil.
Algum tempo depois, quando nomeou o feiticeiro seu Primeiro-Ministro, o Rei disse:
— Só há um pequeno problema. O que devo pôr na caixa que deixei debaixo do abeto? O Pai Natal não sabia de que presente gostava mais.
— É simples — sorriu o feiticeiro.
E sussurrou algo ao ouvido do Rei Wod.
Adorava dizer-vos o que ele sugeriu. Mas isso iria estragar a surpresa.

Chris Powling e Sally Grindley (org.), Christmas stories, London, Kingfisher, 1994

quinta-feira

Mais ou menos Natal, de Dyan Sheldon e Sally Grindley


Mais ou menos Natal

As ruas estavam decoradas com fios prateados e luzes coloridas.
As lojas ostentavam anjinhos, veados e duendes sorridentes. Havia Pais Natais em todo o lado.
Belinda também queria celebrar o Natal.
— Não sejas pateta — disse-lhe a mãe. — Nós não celebramos o Natal. Não é o nosso feriado.
Mas Belinda queria oferecer presentes. Queria fazer bolachas com formato de estrelas. Queria cantar canções de Natal. Queria ter uma árvore de Natal, coberta de bolas brilhantes e luzes tremeluzentes. E um anjo no topo.
— Toda a gente celebra o Natal — insistiu.
— Não, não celebra — retorquiu a mãe. — As pessoas têm feriados diferentes.
Belinda franziu o sobrolho.
— Pelo menos parece.
— Já pensaste no Tio Franck? — perguntou a mãe. — Ele não celebra o Natal. E a minha amiga Sandra e a família dela também não. Nem a tua amiga Emily. O médico que te tratou no Verão passado também não celebra o Natal.
— Mas celebram os outros — continuou.
— Não te importes com isso — aconselhou a mãe.
— É difícil — confessou Belinda.
A mãe ficou pensativa. Belinda continuou:
— Podíamos ao menos ter uma árvore. Não muito grande — acrescentou.
— Há muitas árvores lá fora. Que é onde devem estar — opinou a mãe.
Belinda foi para as aulas. A turma estava a fazer serpentinas de papel.
— Já fizeste a tua árvore? — perguntou Amy.
Belinda interrogava-se sobre o que faria com a sua serpentina.
— Não, ainda não — respondeu.
— Vou fazer uma caixa especial para a minha mãe guardar as canetas dela — disse David.
— E eu vou fazer uma jarra para a minha. O que vais fazer para a tua mãe, Belinda ? — perguntou Amy.
— Ainda não decidi — respondeu ela.
— Vou pedir ao Pai Natal que me traga um skate — disse Amy. — E tu, David, o que vais pedir-lhe?
— Eu quero uma bicicleta nova — disse David.
— E tu, Belinda?
— Acho que a minha serpentina é comprida demais — respondeu esta.
Nessa noite, Belinda estava a ver televisão com os pais. Três ursos polares cantavam canções, com chapéus de Pai Natal.
— Estás muito calada, filha — reparou o pai.
— Hum — retorquiu Belinda.
— O que se passa? — insistiu o pai.
— Nada — respondeu a filha.
— O que é aquela coisa verde e vermelha que puseste no cesto de papéis? — perguntou a mãe.
— Nada — respondeu Belinda.
A mãe soergueu a serpentina de papel.
— Não me parece que seja nada — comentou.
— É uma coisa sem interesse que fizemos na escola.
— Oh! — exclamou o pai.
A mãe debruçou-se sobre o marido e sussurrou:
— A nossa filha está aborrecida porque não celebramos o Natal.
─ Ah! — exclamou o pai.
Era véspera de Natal. Não havia ninguém com quem brincar ou sequer ver um vídeo. Todos estavam a preparar-se para o Natal. Todos excepto Belinda, que observava da janela a neve a cair lá fora.
— Vais ficar aí o dia todo? — perguntou a mãe.
— Talvez — respondeu Belinda.
— Porque não vais brincar lá para fora? — sugeriu a mãe.
— Não me apetece — respondeu a filha.
— E se levasses o teu trenó?
— Não me apetece — respondeu Belinda.
— E que tal veres um vídeo?
— Não me apetece.
— Queres ajudar-me a fazer bolachas? — perguntou por fim a mãe.
— Bolachas? — admirou-se Belinda.
— Sim. Até tenho algum açúcar vermelho e verde que podemos pôr-lhes em cima.
— Como se fossem bolachas de Natal? — perguntou Belinda.
A mãe sorriu:
— Mais ou menos.
O pai entrou em casa.
— Cheira bem! — gritou do patamar.
— São bolachas mais ou menos de Natal — anunciou Belinda.
Foi então que viu que o pai trazia uma árvore muito pequenina num vaso.
— O que é isso? — quis saber a filha.
— É um pequeno louro que estava à venda no supermercado — respondeu o pai.
Colocou a árvore em frente da janela.
— Penso que ficaria bonita com a tua serpentina de papel — disse o pai.
— E sabes que mais? — perguntou a mãe de Belinda. — Penso que tenho alguns lacinhos que lhe ficariam bem.
— E que tal se pendurássemos algumas bolachas? — continuou o pai. — Ficava mais alegre.
Belinda olhou para a mãe e para o pai.
— Querem dizer que podemos decorá-la como se fosse uma árvore de Natal?
— Mais ou menos — respondeu o pai.
Chegou, por fim, o Dia de Natal. O pai de Belinda estava sentado na sala, a olhar para a árvore-mais-ou-menos-de-Natal.
— É muito bonita, sobretudo por causa da tua serpentina de papel. É pena que mais ninguém a veja.
— É mesmo isso que eu estava a pensar — disse a mãe. — Temos tantas bolachas deliciosas e ninguém para ajudar a comê-las.
O pai exclamou:
— Tive uma ideia. Porque não convidamos alguns amigos para as partilharem connosco?
— Mas hoje estão todos a celebrar o Natal — disse Belinda, com tristeza.
— Nem todos. O Tio Frank, a Sandra e a família dela, a Emily e a família dela, e aquele médico simpático que te tratou no Verão passado…
Belinda estava a divertir-se imenso. A sala estava cheia de gente. Estavam todos a comer bolachas, a beber ponche e a jogar jogos. O médico estava a contar anedotas. Todos se riam.
— E vejam só o que encontrei no sótão — disse a mãe de Belinda. — Luzinhas da festa de aniversário da Belinda!
— Perfeito! ─ exclamou o pai. — Podemos pô-las na árvore.
Todos se puseram em círculo a observar.
— Que bonito! — admiraram, quando as luzes se acenderam.
— Que festa bonita! — disse a Emily.
— É a melhor de todas as que assisti — disse a Sandra.
— Concordo plenamente — assentiu o médico.
— Até parece uma festa de Natal — sorriu o Tio Frank.
— Oh, Tio Frank! — exclamou Belinda — Mais ou menos.


Dyan Sheldon e Sally Grindley (org.), Christmas stories, London, Kingfisher, 1994

A Fava, o Brinde e o Bolo-Rei, de José Jorge Letria


A Fava, o Brinde e o Bolo-Rei

Dentro do enorme bolo-rei encomendado para a noite de Natal as coisas estavam muito longe de correr bem. Porquê? Porque a fava e o brinde tinham passado da fase de amuo à de corte de relações devido às discussões antigas que sempre houvera entre ambos.
A fava entendia que o seu papel era, há muito, desvalorizado, fazendo ela, as mais das vezes, o papel de má da fita. Sempre que alguém partia um dente a trincar uma fatia ou ficava incomodado por não lhe ter saído o brinde, mesmo que ele fosse insignificante, o comentário costumava ser:
— Maldita fava, que não está aqui a fazer nada, que só causa problemas e que, ainda por cima, nem serve para ser comida.
Por isso, a fava exigira já ao pasteleiro que a embelezasse, revestindo-a, por exemplo, de chocolate, o que sempre poderia torná-la mais apetecível e menos desprezada. Mas o pasteleiro recusara-se a fazê-lo, em nome de uma velha tradição de que se sentia guardião.
Por sua vez, o brinde, que se encontrava numa posição favorável, sendo sempre o mais procurado no bolo-rei, juntamente com algumas frutas cristalizadas, achava que aquilo que se gastava com a compra bem podia ser aplicado na melhoria da sua qualidade. Queria, por exemplo, deixar de ser feito em metal barato, do género que escurece e enferruja rapidamente, e passar a ser feito em prata, o que lhe daria o direito de não ser atirado para o fundo de uma caixa esquecida num sótão, ou mesmo para o caixote do lixo.
Em relação a esta exigência também o pasteleiro não se mostrava disposto a ceder, afirmando, por exemplo:
— Se eu fizesse o que me pedes, o brinde sairia muito mais caro do que o bolo-rei.
Eram estes problemas que se encontravam na origem das discussões e dos conflitos a que o pasteleiro se sentia incapaz de pôr termo. Por isso pediu a intervenção da Fada do Natal, com o objectivo de a levar a pôr um pouco de bom senso nas cabeças da fava e do brinde.
A Fada do Natal apareceu na cozinha sem aviso e encontrou a fava e o brinde muito amuados, cada um para seu canto, recusando-se a entrar naquele bolo-rei e, por sua vez, o pasteleiro desesperado a desabafar:
— Se eles se recusarem a colaborar, eu não poderei satisfazer a minha encomenda e, assim, uma família grande passará a noite de Natal sem o bolo-rei que tanto deseja.
Ao escutar esta queixa, a Fada do Natal tomou uma decisão inesperada: puxou da sua varinha mágica e transformou o brinde em fava e a fava em brinde, medida que deixou ambos completamente confusos e sem saberem o que haviam de dizer.
Aproveitando o silêncio da fava que agora era brinde e do brinde que agora era fava, o pasteleiro pôs os dois dentro do bolo-rei, ainda em fase de massa mole, e meteu-o dentro do forno. De lá de dentro saíam vozinhas dizendo coisas do género: “Mas que grande confusão. Ainda há pouco tinha forma de fava e agora olho para mim e vejo um brinde prateado” ou “ando eu a pedir para me fazerem em prata e agora não passo de uma rija e triste fava”.
O pasteleiro sentiu uma grande vontade de rir com a confusão que a sua amiga Fada do Natal acabara de criar para o ajudar e por achar inútil toda aquela discussão que prometia arrastar-se para além do que era razoável.
— Obrigado, Fada do Natal, pela preciosa ajuda que me deste. O que posso agora fazer para te compensar? — disse o pasteleiro.
— É simples. Faz chegar o bolo-rei ao seu destino, para que aqueles que o esperam não sejam prejudicados e, se tiveres outros bolos-reis que ninguém tenha comprado, fá-los chegar às mãos daqueles que não têm casa nem família — respondeu a Fada do Natal.
— Então a fava e o brinde?
— Ficarão assim até perceberem que, vistas do outro lado, as coisas são sempre diferentes do que imaginámos. Talvez assim se acalmem e deixem de te causar problemas inúteis.

José Jorge Letria, A Árvore das Histórias de Natal, Porto, Ambar, 2006

O Espírito do Natal, de José Jorge Letria


O Espírito do Natal

Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novo-rico.
— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.
— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses como eu pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?
O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com uma nova pergunta:
— Então e o espírito do Natal?
— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.
O homem magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de crianças que o esperavam.
Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de criança a dizer:
— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.

José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal

Porto, Ambar, 2006

Bolo-Rei, de Maria Rosa Colaço


Bolo-Rei

Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.
De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências.
Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.
Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o brilho dos copos de cristal.
Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à distribuição nos pratinhos de sobremesa.
— Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!
E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado do paladar, se comeu a sobremesa.
A prenda calhou à criada.
— Que sorte! Mostre lá!
— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.
— E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?
— Come que está bom e fofinho!
Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em negativas.
— Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: queres mais um bocadinho de bolo?
— Ao menos acaba esse!
— Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.
Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!
Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.
— Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?
— Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?
Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, ralha:
— Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…
Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:
— É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.
E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, quente ainda, do esconderijo em que estivera.
E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que a mãe o aconchegou junto de si.
Sem palavras, mãe.
Sem palavras.
Maria Rosa Colaço

Viagem com Homem dentro (adaptação)