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segunda-feira

Odin na Côrte do Rei Geirrod, Lendas Nórdicas


Odin na Côrte do Rei Geirrod
Lendas Nórdicas

Havia, outrora, dois irmãos, filhos do rei Hrauding. O mais velho chamava-se Agnar e tinha dez anos de idade, enquanto o outro tinha oito anos e se chamava Geirrod. Certa feita, ambos haviam saído para pescar, com a autorização do pai, mas como o vento estivesse muito forte, acabaram por se perder e sua embarcação foi parar numa distante ilha.
- E agora, Agnar? - disse o frágil Geirrod, tentando manter a embarcação acima das águas junto com o irmão.
Mas todos os seus esforços resultaram inúteis: depois de dois ou três arremessos mais violentos, a frágil embarcação desfez-se nos penedos que recortavam a ilha. Agnar e Geirrod puderam dar-se por muito felizes por ter escapado com vida do terrível naufrágio.
Nem bem chegaram às areias da praia, mais mortos do que vivos, foram recolhidos por um pescador e sua mulher. Como o inverno recém tivesse começado - e fosse, consequentemente, época de muitos temporais, o que lhes impossibilitava o retorno à sua pátria -, Agnar e Geirrod viram-se obrigados a permanecer na ilha na companhia do casal.
O pescador e sua mulher mostraram-se muito amáveis com os dois jovens, mas, desde logo, ficou claro que ele tinha uma especial predileção por Geirrod, enquanto ela não disfarçava uma maior afeição por Agnar. Embora isto, viveram Iodos em paz e harmonia durante todo o período em que permaneceram na ilha até que a primavera deu os seus primeiros sinais.
- Agnar, meu irmão - disse o caçula Geirrod -, acho que chegou a época de voltar para a casa de nosso pai.
- Estou de acordo - respondeu o outro. - Vamos pedir aos nossos protetores que nos ajudem a construir uma nova embarcação.
E assim se fez. O pescador e sua esposa não se furtaram a ajudá-los, embora sentissem um aperto no coração por ter que se separar, tão cedo, daqueles dois jovens, que já lhes pareciam, de certa maneira, seus próprios filhos.
Agnar e Geirrod partiram, afinal, num belo dia de sol. Antes de embarcar, foram se despedir dos seus benfeitores e o pescador aproveitou para murmurar algo ao ouvido de Geirrod. Uma vez embarcados, tomaram com segurança o rumo de casa, enquanto que Odin e Frigga - pois não eram outros o pescador e sua mulher, senão, as duas principais divindades nórdicas, que ali estavam a passeio - começaram a debater entre si sobre qual dos irmãos seria o mais justo e correto.
- Não resta a menor dúvida que Agnar tem o coração mais puro - disse Frigga, convicta de suas palavras. - Somente a sua obtusa teimosia poderia levá-lo a pensar o contrário.
- Asneiras! - disse Odin, abanando a cabeça com desdém. - Qualquer idiota pode ver, perfeitamente, que o jovem Geirrod é, infinitamente, melhor que o irmão.
E a esta discussão entregaram-se com tanto gosto, que, em breve, já estavam a um passo de se engalfinhar. Odin decidiu, então, retornar para Asgard antes que o tempo fechasse de uma vez.
Mas lá foi pior, pois Frigga, que se julgava uma deusa muito virtuosa - e por isto mesmo muito rabugenta - retomou a discussão no ponto em que parará.
- Agnar é que é o tal! - corneteava ela o dia inteiro no ouvido do marido, que se fazia de desentendido. - Geirrod não é de nada! Viva Agnar! Viva Agnar!
Não restava dúvida alguma de que ela queria uma boa briga: em casa, no conforto do lar, enxergando todos os seus objetos e conhecendo o ambiente com a palma da mão, Frigga estava em seu território. Odin não tardou a perder a paciência e saiu em defesa de Geirrod e nesta chateação ficaram os dois por muito tempo, atazanando a paciência dos demais deuses com os gritos da luta conjugai.
Enquanto isto, em alto-mar, e já perto da costa onde ficava seu reino, os dois irmãos não viam a hora de desembarcar.
- Finalmente, caro Geirrod, estamos quase em casa! - gritava Agnar, sem conter a euforia.
Geirrod, no entanto, tinha o olhar voltado para a praia. Seus olhos vasculhavam a costa inteira para se certificar de que ninguém os enxergava.
- O que houve? - disse Agnar, intrigado com o mutismo do irmão.
- Nada, nada... - disse o outro, procurando disfarçar. - Estou tentando avistar algum conhecido na beira da praia.
O barco aproximou-se da costa. Geirrod pediu, então, que Agnar fosse buscar algo no fundo da embarcação e, tão logo este lhe deu as costas, golpeou-o com um pesado bastão.
- Pronto, agora fique quietinho aí!... - disse ele, com um sorriso perverso.
Tomando do remo, ele aproximou a embarcação da praia, desembarcou num pulo e devolveu às águas o barco, o qual, engolfado rapidamente numa corrente marinha, foi levado para bem longe do reino. Geirrod tinha certeza que o irmão pereceria de fome e sede antes de chegar a qualquer lugar habitado.
- Adeus, importuno! - disse Geirrod, abanando para a embarcação. - A partir de agora, o herdeiro da coroa passa a ser eu!
Geirrod apresentou-se no mesmo dia diante do pai, o velho e quase decrépito rei Hrauding, e lhe contou a história à sua maneira, repetindo-a tal como ocorrera, mudando apenas o final.
- Oh, papai...! - disse ele, engasgando fingidamente. - Não sei como lhe diga...! O seu adorado Agnar morreu em alto-mar e nossos olhos nunca mais o avistarão!
O adorado Agnar, entretanto, fora parar muitos dias depois, com as roupas em tiras e virado em um esqueleto semi-morto, numa ilha habitada por gigantes, onde ficaria ainda por muitos anos até se restabelecer da ferida provocada pelo traiçoeiro golpe, bem como das sequelas da inanição.
Mas tudo isto deveria servir, pelo menos, para resolver, de uma vez, a pendenga em Asgard: o canalha era mesmo Geirrod.

***

Infelizmente, não serviu: a partir daí mesmo é que a discussão pegou fogo na morada dos deuses. Odin, sem querer dar o braço a torcer - mesmo após o ato abominável perpetrado pelo seu favorito -, teimava, como um pai cego pelo amor, em declarar o perverso Geirrod melhor que o irmão Frigga, a seu turno, possuída pela ira e repleta de argumentos, investia contra o esposo como uma valquíria enfurecida.
- Vai teimar ainda, depois de tudo o que seu queridinho fez? - disse ela, com as mãos na cintura. - Então, ficou cego dos dois olhos de uma vez...!
- Geirrod é que é o tal - só dizia o deus, sem encontrar outro argumento.
Os anos passaram e Odin resolveu recorrer ao deboche, uma vez que Frigga não cessava de tripudiá-lo. Um dia, então, estando sentado em seu trono mágico, de onde podia avistar tudo o que se passava em qualquer parte do universo, chamou sua irritante esposa.
- Está vendo os dois? - disse ele, com uma indisfarçada nota de presunção na voz. - Geirrod é, hoje, um rei em seu país; já seu protegido não passa do afilhadinho efeminado de uma giganta qualquer numa ilha perdida no fim do mundo!
Não adiantava Frigga retorquir que Geirrod era um patife e que adquirira sua posição à custa de um odioso crime: ela bem sabia que um passado vil se dilui, facilmente, diante de um presente magnífico. Geirrod era agora um rei inconteste, sólido em seu trono, tal como Odin no seu - e, para a ralé mundana, era isto o que contava.
Então Frigga, cuja virtude neurastênica a tornava extremamente hábil na invenção de tormentos e castigos, decidiu fazer com que seu obtuso esposo provasse um pouco da perversidade de seu protegido. "Infelizmente, somente desta maneira dolorosa meu pobre esposo chegará a reconhecer a verdade...!", pensou Frigga, sentindo-se tão nobre e piedosa que chegou a converter a pena fingida que sentia por seu marido numa pena sincera por si mesma.
- Seu queridinho é tão mesquinho e egoísta - disse Frigga - que tem o péssimo hábito de torturar os próprios hóspedes, desde que não lhe caiam no agrado!
Odin enfureceu-se de verdade desta vez.
- Oh, mulher vil e caluniosa...! - disse Odin, expelindo, involuntariamente, alguns perdigotos divinos pela boca. - De onde tirou tal disparate?
- Todos sabem disto naquela corte infame! - retrucou Frigga, triunfante. - Só você, o grande patusco, é que desconhece o fato!
Odin fez, então, o que sua esposa já esperava que fizesse: prontificou-se a ir até a corte do seu protegido para provar que aquilo era uma calúnia baixa.
- Desta vez, você desceu demais e eu vou lhe provar isto!... - disse o deus, erguendo-se num ímpeto e indo logo buscar na estrebaria o seu magnífico cavalo, Sleipnir - aquele de oito patas, que era o mais veloz do universo e tudo o mais.
- Espere, leve, ao menos, um agasalho para não apanhar um resfriado na viagem - disse Frigga, demonstrando um súbito resquício de afecto, que chegou a embaraçar, por alguns instantes, o seu irado esposo. Enquanto Frigga esteve ausente - um bom tempo -, Odin chegou mesmo a sentir por ela um resquício de ternura.
"Ora, gostei disto...!", pensou ele, com uma certa humidade no olhar. "Ela ainda preocupa-se comigo, afinal!" E chegou a dar graças a si mesmo por não lê-la chamado de Frigga frígida, ofensa medonha que só usava em último caso, por saber que nada a deixava mais enlouquecida.
Dali a muito tempo, ela retornou com a pele de urso predilecta de Odin, dizendo:
- Pronto, vá lá e veja você mesmo com quem está lidando!

***

Odin chegou à noite à corte de Geirrod, incógnito, sob o nome falso de (irimnir.
- Deixem-me passar, lacaios! - disse ele, ao chegar ao portão do palácio tio novo rei, pois não fazia muito tempo que o velho havia morrido e o tratante assumido o seu lugar.
O que ele não sabia, no entanto, é que Frigga havia ordenado a um de seus mensageiros que fosse na frente levar um recado ao perverso rei (daí a demora em lhe trazer a pele de urso). Este recado dizia simplesmente:

"Magnífico rei: um canalha e traidor da pior espécie, que atende pelo nome de Grimnir, aproxima-se de sua morada para lhe trazer a desgraça e o infortúnio; se ainda quiser ter o pescoço em cima dos ombros no alvorecer do próximo dia, trate logo de aprisioná-lo e metêlo nos tormentos, assim que ele ousar pôr os pés no mesmo chão que seus divinos pés abençoam. "
Ass.: "Uma Amiga."

Odin foi recebido de maneira um tanto desleixada pelo rei, o qual estava mais deitado do que sentado em seu trono ordinário (pois aquele reino era, na verdade, bem miserável, comparado a outras cortes, infinitamente, mais ricas e brilhantes).
Um serviçal vil e careca, que parecia se regozijar, imensamente, com sua subalternidade, acabara de ler ao tirano o conteúdo do bilhete. As palavras sussurradas pelo verme calvo pareciam ter-lhe deliciado ao extremo, pois, logo em seguida, as duas tiras secas dos seus lábios se arreganharam num sorriso torpe.
- Ah! É você, então, o ilustre estrangeiro! - disse ele, escorregando mais um pouco no seu troninho de pau, pintado com uma casquinha de ouro tão fina que a unha poderia descascá-la.
Odin olhou para o alto, pois sabia que de algum lugar sua esposa o observava.
"Ilustre estrangeiro...!", pensou ele, com a vitória na mão. "Aí está, linguaruda", acrescentou, esquecendo o fiapo de ternura e assumindo, outra vez, a postura cruel do vencedor.
O estrondo de um escudo que caíra ao se desprender de uma das paredes encardidas, entretanto, atroou todo o recinto, dissolvendo o seu pequenino triunfo.
- Oh, o escudo magnífico de meu bisavô! - exclamou Geirrod, irado. -Quem foi o imbecil que o deixou cair?
Fora o Tempo, o imbecil que deixara o velho escudo cair, mas já outro imbecil - o lacaio da cabeça pelada - arremessara-se a ele sem perder um segundo.
- Aqui está, realíssima alteza!... - disse o serviçal, cuja careca estava es-carlate pela expectativa de uma recompensazinha.
- Idiota! - exclamou o tirano. - Deixou que ele amassasse!
De fato, o escudo maravilhoso - o melhor e mais rico objeto do palácio inteiro - depois da queda, virará uma bacia velha e amassada. Na verdade, o metal do qual fora feito era tão ordinário que o ferrão de uma abelha poderia atravessá-lo de lado a lado.
Mas logo as atenções estavam voltadas, novamente, para o visitante.
- O seu nome...! - disse Geirrod a Odin, com secura na voz. - As coisas começavam a dar para trás e isto era o bastante para ele mandar às favas o verniz que recobria, mal e porcamente, a sua péssima educação.
- Grimnir é meu nome! - disse Odin, com altivez.
- Levem-no imediatamente! - bradou o rei. - E já sabem para onde!
Por que Geirrod usara daquele tom?, pensava Odin, desconfiando um pouco da fidalguia do seu anfitrião. Mas, quando os guardas agarraram-no pelos braços e o levaram de arrasto para dentro do palácio, Odin ficou mais branco que um coelho enterrado na neve. O deus foi lançado na mais fétida das masmorras, e ali esteve trancafiado a noite inteira até que, ao alvorecer, dois guardas vieram e o levaram, coberto de algemas e correntes até a presença do rei.
Quando chegou ao salão, viu que havia duas fogueiras armadas.
- Coloquem-no entre as duas fogueiras! - disse o rei, que estava com uma perna por cima da guarda do trono, como quem estivesse prestes a assistir a um espetáculo muito divertido. - Agora você ficará aí nos próximos oito dias, até confessar quais são seus nefandos propósitos!
Odin estava envolto num manto escuro de propriedades mágicas e, graças a ele, pôde suportar os primeiros dias daquela bárbara prova, o que lhe deu ânimo para inventar desculpas para o comportamento monstruoso de seu anfitrião.
- Afinal, está um frio dos diabos, mesmo!... - disse, mais para que sua esposa Frigga escutasse do que para si mesmo.
Mas, no quarto dia o suplício tornou-se a tal ponto insuportável que Odin teve de admitir, finalmente, que estava diante de um tremendo canalha.
- Muito bem, Frigga, você venceu! - exclamava ele, em meio às labaredas.
O manto de Odin tinha esquentado tanto que já aderira à sua pele, causando-lhe indizíveis dores. No oitavo dia, entretanto, o filho de Geirrod - que linha o mesmo nome de seu infeliz tio, Agnar, e também o seu bom coração - sentiu pena do hóspede maltratado e lhe levou um chifre repleto de hidromel.
Um pouco refeito dos seus padecimentos, Odin chegou à conclusão dique já era hora de acabar com sua teimosia.
- Muito bem, tirano maldito! - disse o deus, liberte-me já! Caso contrário será punido com a morte!
- Enlouqueceu de vez! - disse o rei, ainda mais deliciado.
Então Odin começou a entoar as suas runas mágicas e as cadeias foram caindo uma a uma a seus pés, ao mesmo tempo em que as duas fogueiras se extinguiam diante dos olhos do rei.
Liberto, o deus supremo pôs-se em pé, pronto para a desforra. Geirrod, aterrado, ergueu-se lambem, mas ao ver que seu inimigo avançava sobre ele, tomou de sua espada. Porém, ao descer de seu trono mambembe, meteu o pé num furo do tapete vermelho e caiu de cara na ponta da espada, morrendo no mesmo instante.

Agnar, o filho de Geirrod, sucedeu ao pai no trono e a primeira medida que tomou foi mandar trazer do exílio o seu tio, de modo que ambos viveram felizes para sempre naquele pobre, porém, decente reino.

A Criação, Lendas Nórdicas


A Criação
Lendas Nórdicas


Primeiro, havia o Caos, que era o Nada do Mundo, e isto era tudo quanto nele havia. Nem Céu, nem Mar, nem Terra - nada disto havia. Apenas três reinos coexistiam: o Ginnungagap (o Grande Vazio), abismo primitivo e vazio, situado entre Musspell (o Reino do Fogo) e Niflheim (a Terra da Neblina), terra da escuridão e das névoas geladas.
Durante muitas eras, assim foi, até que as névoas começaram a subir lentamente das profundezas do Niflheim e formaram no medonho abismo de Ginnungagap um gigantesco bloco de gelo.
Das alturas abominavelmente tórridas do Musspell, desceu um ar quente e este encontro do calor que descia com o frio que subia de Niflheim começou a provocar o derretimento do imenso bloco de gelo. Após mais alguns milhares de eras - pois que o tempo, então, não se media pelos brevíssimos anos de nossos afobados calendários - o gelo foi derretendo e pingando e deixando entrever, sob a outrora gelada e espessa capa branca, a forma de um gigante.
Ymir era o seu nome - e por ser uma criatura primitiva, dotada apenas de instintos, o maniqueísmo batizou-a logo de má. Ymir dormiu durante todas estas eras, enquanto o gelo que o recobria ia derretendo mansamente, gota à gota, até que, sob o efeito do calor escaldante de Musspell, que não cessava jamais de descer das alturas, eis que ele começou a suar. O suor que lhe escorria copiosamente do corpo uniu-se, assim, à água do gelo, que brotava de seus poderosos membros - e este suor vivificante deu origem aos primeiros seres vivos. Debaixo de seu braço surgiu um casal de gigantes e da união de suas pernas veio ao mundo outro ser da mesma espécie, chamado Thrudgelmir. Estes três gigantes foram as primeiras criaturas, que surgiram de Ymir; mais tarde, Thrudgelmir geraria Bergelmir, que daria origem à toda a descendência dos gigantes.Entretanto, do gelo derretido também surgira, além das monstruosidades já citadas,uma prosaica vaca de nome Audhumla, de cujas tetas prodigiosas manavam quatro rios, que alimentavam o gigante Ymir. Audhumla nutria-se do gelo salgado, que lambia continuamente da superfície, e, deste gelo, surgiu ao primeiro dia o cabelo de um ser; no segundo, a sua cabeça; e, finalmente, no terceiro, o corpo inteiro. Esta criatura egressa do gelo chamou-se Buri e foi a progenitora dos deuses. Seu primeiro filho chamou-se Bor,e, desde que pai e filho se reconheceram, começaram a combater os gigantes, que nutriam por eles um ódio e um ciúme incontroláveis.
Esta foi a primeira guerra de que o universo teve notícia e incontáveis eras sucederam-se sem que ninguém adquirisse a supremacia. Finalmente, Bor casou-se com a giganta Bestla e, desta união, surgiram três notáveis deuses: Wotan (também chamado Odin), Vili e Ve. Dos três, o mais importante é Wotan, que um dia chegará a ser o maior de todos os deuses. E, porque assim será, um dia, ele próprio disse a seus irmãos:
- Unamo-nos a Bor e destruamos Ymir, o perverso pai dos gigantes!
Os quatro juntos derrotaram, então, o poderoso gigante, e com sua morte, acabou também a quase totalidade dos demais de sua espécie, afogada no sangue de Ymir. Um casal, entretanto, escapou do massacre: Bergelmir e sua companheira, que construíram um barco feito de um tronco escavado e foram se refugiar em Jotunheim, a terra dos Gigantes, onde geraram muitos outros. Desde então, a inimizade estabeleceu-se,definitivamente, entre deuses e gigantes, cada qual vivendo livremente em seu território, mas sempre alerta contra o inimigo.
Dos restos do cadáver do gigantesco Ymir, Wotan e seus irmãos moldaram a Midgard (Terra-Média): de sua carne, foi feita a terra; enquanto que, de seus ossos e seus dentes, fizeram-se as pedras e as montanhas. O sangue abundante de Ymir correu por toda a terra e deu origem ao grande rio que cerca o universo.
- Ponhamos, agora, a caveira de Ymir no céu - disse Wotan a seus irmãos, após haverem completado a primeira tarefa.
Wotan fez com que quatro anões mantivessem a caveira suspensa nos céus, cada qual colocado num dos pontos cardeais. Em seguida, das faíscas do fogo de Musspell,brotaram o sol, a lua e as estrelas; enquanto que, do cérebro do gigante, foram engendradas as nuvens, que recobrem todo o céu.
Entretanto, após terem remexido a carne do gigante, com a qual moldaram a terra,os três deuses descobriram nela um grande ninho de vermes. Wotan, penalizado destas criaturas, decidiu dar-lhes, então, uma outra morada, que não, o Midgard. Os seres subumanos, que pareciam um pouco mais turbulentos que os outros, foram chamados de Anões e receberam como morada as profundezas sombrias da terra (Svartalfheim).
Os demais, que pareciam ter um modo mais nobre de proceder, foram chamados de Elfos e receberam como morada as regiões amenas do Alfheim.
Completada a criação de Midgard, caminhavam, um dia, Wotan e seus irmãos sobre a terra para ver se tudo estava perfeito, quando encontraram dois grandes pedaços de troncos caídos ao solo, próximos ao oceano. Wotan esteve observando-os longo tempo, até que, afinal, teve outra grande idéia:
- Irmãos, façamos de um destes troncos um homem e do outro, uma mulher! E assim se fez: ele foi chamado de Ask (Freixo) e ela, de Embla (Olmo). Wotan lhes deu a vida e o alento;
Vili, a inteligência e os sentimentos; e Ve, os sentidos da visão e da audição. Este foi o primeiro casal, que andou sobre a terra e originou todas as raças humanas que habitariam por sucessivas eras a Terra-Média.
Depois que Midgard e os homens estavam feitos, Wotan decidiu que era preciso que os deuses tivessem também uma morada exclusiva para si:
- Façamos Asgard e que lá seja o lar dos deuses! - exclamou ele, que, como se vê, era um deus de energia e vontade inesgotáveis.
Este reino estava situado acima da elevada planície de Idawold, que flutuava muito acima da terra, impedindo que os mortais o observassem. Além disso, um rio cujas águas nunca congelavam - o Iffing - separava a planície do restante do universo. Mas, Wotan, sábio e poderoso como era, entendeu que não seria bom se jamais existisse um elo de ligação entre deuses e mortais. Por isso, determinou que fosse construída a ponte Bifrost (a ponte do Arco-íris), feita da água, do logo e do mar.
Heimdall, um estranho deus nascido ao mesmo tempo de nove gigantas, ficaria encarregado, desde então, de vigiá-la
noite e dia para que os mortais não a atravessassem livremente no rumo de Asgard. Para isso, ele portava unia grande trompa, que fazia soar todas as vezes que os deuses cruzavam a ponte.
A morada dos deuses possuía várias residências, as quais foram sendo ocupadas pelos deuses à medida que iam surgindo. O palácio de Wotan, o mais importante de todos, era chamado de Gladsheim. Ali, o deus supremo linha instalado o seu trono mágico, Hlidskialf, de onde podia observar tudo o que se passava nos Nove Mundos e receber de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Muniu (Memória), as informações trazidas das mais remotas regiões do universo.
Entretanto, se na mais alta das regiões estava situado o paraíso daquele soberbo universo, nas profundezas da terra, muito abaixo de Midgard, estava o Niflheim, o horrível e gelado reino dos mortos. Lá pontificava a sinistra deusa ú, filha de Loki, que se regozija Com a fome, a velhice e a doença, e que tem i lado a serpente Nidhogg. Esta se alimenta dos cadáveres dos mortos e se dedica a roer continuamente uma das raízes da grande árvore Yggdrasil, um freixo gigantesco que se eleva por cima do mundo e deita suas raízes nos diversos reinos, entre os quais, o próprio Asgard. Ao alto da copa frondosa desta imensa árvore, sobrevoa uma gigantesca águia, que vive em guerra aberta contra a serpente Nidhogg. Um pequeno esquilo - Ratatosk -, que passa a vida a correr desde o alto da Árvore da Vida até as profundezas onde está a terrível serpente, é o leva-traz dos insultos que estas duas criaturas se comprazem em trocar sem jamais esgotar seu infinito estoque de injúrias.
Nesta árvore fundamental, diz a lenda que o próprio Wotan esteve pendurado durante nove longas noites, com uma lança atravessada ao peito, para que pudesse aprender o significado oculto das Runas, o alfabeto nórdico, que rege e governa a vida dos deuses e dos homens. Quando seu martírio terminou, Wotan havia se tornado, definitivamente, o mais poderoso e sábio dos deuses, tendo o poder de curar doenças e de derrotar os inimigos com sua poderosa lança, Gungnir - ao mesmo tempo, sua mais poderosa arma e local de registro de todos os seus acordos.

Yggdrasil é o centro do mundo, e, enquanto suas raízes continuarem a suportar o peso de seu prodigioso tronco e de seus ramos infinitos, o mundo estará firme e a vida será soberana, sob os auspícios de Wotan, senhor dos deuses.

Sigurd, Lendas nórdicas


Sigurd
Contos e Lendas da Mitologia Nórdica

Sigurd era um herói nórdico, filho de Sigmund e Hjordis.
Foi criado pelo anão Regin, pois o seu pai morreu numa batalha antes do seu nascimento. A certa altura Sigurd pede a Regin que lhe faça uma espada suficientemente forte para vingar a morte do seu pai. No entanto todas as que o anão fazia se quebravam, até que um dia a sua mãe lhe deu a espada Oram, pertencente a seu pai, e ele uniu os fragmentos em que estava partida fazendo dela a espada da vingança.
O anão Regin tinha-lhe contado a história de Ottar e Fafnir; assim, depois de castigar os assassinos de seu pai dirigiu-se à caverna onde Fafnir transformado em dragão guardava o tesouro e matou-o. A pedido de Regin, que era irmão de Fafnir, trouxe-lhe o coração do dragão para assar. Mas ao estender-lho queimou-se com o sangue e começou a perceber a linguagem das aves, que estavam a dizer nesse momento que o anão se preparava para o assassinar. De imediato Sigurd saca da espada e mata Regin, apoderando-se de um anel, o Andvaranaut, pertencente ao tesouro roubado a Fafnir.
Vai então em busca de Brunilde para a resgatar do anel de fogo dentro do qual estava presa à espera que o cavaleiro mais destemido a viesse libertar, segundo uma sugestão dos pássaros.
Depois de libertar Brunilde ficou com ela durante alguns dias, fazendo juras de amor eterno e oferecendo-lhe o anel Andvaranaut como prova do seu afecto.
Parte depois para a corte do rei Gunnar, no palácio dos Giukungs. Lá, Grimhild, mãe de Gunnar, dá-lhe uma poção mágica para o fazer esquecer Brunilde e se casar com a sua filha e irmã do rei, a bela Gudrun.
A pedido de Gunnar, Sigurd toma a sua aparência e parte de novo para ir buscar definitivamente Brunilde e trazê-la para que se case com o rei. Esta acede ao casamento pensando-se abandonada por Sigurd e dizendo para consigo que uma vez que era mortal e desprotegida nada teria a perder em casar-se com um cavaleiro que tinha dado tantas provas de coragem. Brunilde foi então para o palácio dos Giukungs e encontrou-se com Sigurd. Este foi-se libertando do feitiço e recordando quem era o seu verdadeiro amor. Mas Brunilde, desgostosa e vingativa depois de descobrir que quem a tinha salvo pela segunda vez tinha sido Sigurd disfarçado de Gunnar, convence os irmãos do marido a matar Sigurd.
Finalmente, Brunilde mata-se junto à pira funerária de Sigurd, sendo os dois enviados ao mesmo tempo para o Helheim.
A Velha Canção de Sigurd, dos Edda, influencia a história de Siegfried.


Contos e Lendas da Mitologia Nórdica

Loki e o construtor do muro, Lendas Nórdicas


Loki e o construtor do muro
Lendas Nórdicas

Durante muitos anos, os deuses viveram junto com os mortais até que, um dia,Odin, o maior dos deuses, teve a idéia de construir Asgard, a sua morada celestial. Era preciso que os deuses tivessem um local só para si, resguardado dos ataques dos seus terríveis inimigos, os Gigantes. Nem bem, porém, haviam terminado de construir a cidade, depararam-se todos com um grande problema: é que, na pressa, esqueceram de construir também uma sólida muralha para se proteger de um eventual ataque de seus pérfidos inimigos. Odin e Loki estavam conversando sobre o assunto, tendo ao lado outros deuses, como Tyr e Heimdall, quando, de repente, viram passar perto um cavaleiro.
- Uma bela construção a que fizeram...! - disse ele, admirando a arquitetura da divina cidade. - Mas, onde está o muro que deveria protegê-lo?
Os deuses, constrangidos, foram obrigados a confessar que haviam esquecido desta parte.
- Ora, mas isto não é problema! - disse o forasteiro. - Sou o mais hábil construtor do mundo e posso erguer um belo e fortificado muro, se assim desejarem.
Um sorriso de satisfação iluminou a barba ruiva de Odin. Loki, também satisfeito acenou para o homem e lhe disse:
- E quanto tempo levará para terminá-lo?
- Em um ano e meio estará perfeito e acabado.
- Muito bem, pode começá-lo imediatamente! - disse Loki, aplaudindo o construtor.
- Esperem! - bradou Odin, interrompendo tudo. - O senhor disse que é o melhor construtor de todo o mundo, não é?
- Sim, honro-me de sê-lo!
- E, o que pede para realizar a sua tarefa? - quis saber o deus supremo, já imaginando que o hábil construtor não pediria pouco.
- Quero a mão da bela Idun em casamento - disse o outro, confirmando as mais negras previsões do maior dos deuses.
Idun era a deusa da juventude e cuidava do pomar onde brotavam as maçãs a juventude, graças às quais os deuses permaneciam sempre jovens e saudáveis.
- Ora, desapareça daqui! - disse Tyr, o mais valente dos deuses, brandindo o seu único punho para o atrevido.
Heimdall, o guardião da ponte Bifrost, que conduzia a Asgard, como não podia falar,protestou tocando sua cometa tão alto no ouvido do estrangeiro, que construtor sofreu um sobressalto e precisou de alguns minutos para recuperar inteiramente a audição. Quanto aos demais deuses, já iam todos dando as costas, incluindo Odin, quando ouviram Loki dizer ao atrevido forasteiro:
- Muito bem, se puder construir em seis meses, o negócio está fechado! Todos os rostos voltaram-se, alarmados, para o imprevidente deus.
- Imporemos apenas a condição de que realize sozinho a sua tarefa e no espaço de um único inverno - disse ainda Loki, sem se importar com as censuras que faiscavam no olhar de seus colegas. Para estes, entretanto, disse à boca pequena:
- Não se preocupem: em seis meses, ele não terá construído nem a metade do muro, o que o obrigará a nos entregá-lo de graça!
- Trato feito! - disse o construtor, que pareceu muito satisfeito com a proposta. No mesmo instante, desceu de seu cavalo Svadilfair e meteu mãos à obra. Acoplando um trenó à cauda do cavalo, ele começou a empilhar e a arrastar enormes pedregulhos pela neve com tanta vontade e determinação, que todos os deuses empalideceram, menos Loki, que olhava para o homem com um sorriso irônico.
- Não se aflija, bela Idun! - disse ele à infeliz deusa, que vertia pelos olhos pequeninas lágrimas douradas. - São fanfarronices do primeiro dia; amanhã, ele á estará exausto e jamais conseguirá terminar o muro dentro do prazo estipulado!
Mas, no segundo dia, o ritmo não diminuiu; na verdade, aumentou e, ao fim do primeiro mês, o estrangeiro já havia construído um bom pedaço, grande o bastante para deixar em pé os cabelos de Odin.
- Loki, seu idiota...! - disse ele, chamando o responsável pelo iminente desastre. - Se a coisa for neste passo, antes mesmo dos seis meses, ele terá concluído o maldito muro e perderemos Idun e as maçãs da juventude! Não lhe passou pela cabeça, cretino, que este construtor pode ser um gigante disfarçado a tramar a nossa destruição? - indagou Odin a Loki, que cocava a cabeça, com um ar culpado.
Idun, por sua vez, observava noite e dia, com desolação, a movimentação do construtor e cada pedra que ele depositava a mais sobre o muro, era um golpe cavo que soava em seu peito. Seus olhos estavam sempre postos sobre as costas suadas do infatigável construtor e de seu portentoso cavalo que arrastava no trenó, sem um minuto de descanso, os grandes pedregulhos.
O tempo passou e faltavam agora somente cinco dias para a chegada do verão e um pequeno trecho para que o muro estivesse concluído.
Odin fez um sinal para que Heimdall fizesse soar a sua trompa, convocando os deuses para uma reunião de emergência.
- E agora, seu tratante? - disse Odin, tão logo avistou Loki adentrar o salão. - Já que foi esperto o bastante para nos meter nesta enrascada, trate de arrumar um jeito de nos tirar dela, caso contrário, você irá para o sombrio Niflheim, onde sofrerá torturas tão cruéis que nem mesmo sua filha Hei o reconhecerá!
- Verei o que posso fazer, poderoso Odin - disse Loki, o qual, se era imprevidente a ponto de se meter a todo instante em enrascadas, não era menos hábil em se safar destas mesmas situações.
Loki internou-se numa grande floresta e, naquela mesma noite, enquanto o construtor trabalhava com a ajuda de seu cavalo, ele retornou de lá transformado numa belíssima égua branca. Postando-se diante do cavalo do construtor, a égua começou a relinchar melodiosamente (tanto quanto um eqüino possa ter alguma melodia), o que fez com que Svadilfair arrebentasse, afinal, os freios que o mantinham preso ao trenó e
seguisse a égua floresta adentro.
- Ei, espere, aonde vai? - gritou o construtor, espantado.
O cavalo, entretanto, lançara-se numa corrida tão desenfreada que, por mais que seu dono tentasse alcançá-lo, não pôde fazê-lo. Depois de descansar um pouco e refletir,porém, o construtor farejou naquilo o dedo de Loki.
- É claro! - exclamou furioso. - Tão certo quanto sou um gigante disfarçado de construtor, esta égua não passa do maldito Loki disfarçado!
O gigante, então, vendo que não conseguiria terminar o muro sem o auxílio de seu prodigioso cavalo, resolveu reassumir a sua forma natural para tentar completar a tarefa.
Odin, contudo, que a tudo assistia de seu trono, exclamou tomado pela ira:
- Tal como eu imaginava: o tal construtor não passa, na verdade, de um maldito gigante!... Ótimo, pois com isto fico também desobrigado de meu juramento! - Odin suspendeu no ar a mão que alimentava seus dois lobos, Geri e Freki, e ordenou,imediatamente, que um servidor fosse chamar seu filho Thor.
- Thor, preciso que, mais uma vez, faça uso de seu martelo Miollnir para derrotar este gigante impostor! - disse Odin, depositando todas as esperanças em seu valente filho.
Thor não esperou segunda ordem: empunhando seu martelo e afivelando bem à cintura o seu cinto de força, foi até o gigante, que empilhava, freneticamente, imensos pedregulhos no afã de terminar logo a sua tarefa. O rio de suor, que lhe escorria dos membros, fizera com que a neve ao seu redor tivesse derretido toda.
- Ora, vejam...! - disse Thor, ao se aproximar dele. - O pequeno construtor virou, então, de uma hora para a outra, um gigante atarefado?
- Fique longe de mim! - disse o outro, carregando em desespero a última pedra que faltava para completar o muro.
Porém, antes que tivesse tempo de colocá-la sobre o último vão do muro, Thor arremessou seu martelo com tal força e velocidade, que a cabeça do gigante se esmigalhou inteira.
- Aí está, patife, o seu pagamento! - disse o deus, recolhendo Miollnir. O gigante teve, logo em seguida, o restante de seu corpo jogado nos gelos eternos de Niflheim.
- E então, tudo correu bem? - disse Odin ao filho, tendo ao lado Idun.
- Já deve estar construindo seus muros na terrível morada de Hei! - disse Thor,enquanto retirava sua pesada luva de ferro.
Todos os deuses regozijaram-se com uma grande festa, aliviados que estavam pela derrota do gigante. Entretanto, em meio a ela, alguém perguntou:
- E Loki? Que fim levou o espertalhão?
De fato, Loki havia desaparecido de Asgard desde o instante em que entrara na floresta com o garanhão do gigante. Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele até que, um belo dia, ressurgiu, trazendo um belíssimo e prodigioso cavalo negro de oito patas.
- Ora, viva! Finalmente, reapareceu! - exclamou Odin, que, no entanto, parecia mais interessado no cavalo do que no deus desaparecido.
- Apresento a vocês Sleipnir, o cavalo mais veloz do universo! - disse Loki, todo sorridente.
Loki, por mais incrível que possa parecer, tornara-se pai de um cavalo; mas, para quem já havia sido anteriormente pai de um lobo e de uma serpente, não havia nisto nada de surpreendente. Entretanto, percebendo que Odin apaixonara-se, perdidamente, pelo cavalo, tratou logo de lhe dar o animal de presente na esperança de fazer com que esquecesse, rapidamente, de suas trapalhadas.

E foi assim que Odin se tornou dono do cavalo mais veloz do universo.

Thor em Jotunheim, Lendas Nórdicas


Thor em Jotunheim
Lendas Nórdicas


O deus Thor, filho de Odin, estava viajando rumo a Jotunheim, a terra dos Gigantes, junto com Loki e seu criado Thialfi, quando chegaram todos a uma grande floresta.
- Alto! - disse ele, erguendo o braço. - Vamos parar aqui e procurar um lugar protegido para passar a noite.
Cada qual seguiu para um lado até que Thor exclamou:
- Acho que encontrei um bom lugar!
Thor estava diante da entrada de uma imensa caverna; portando um archote, ele adentrou-a junto com os demais.
- É um lugar amplo e bem seco! - disse o servo Thialfi.
- Será que não é a toca de algum animal? - perguntou Loki.
- Vamos ver! - disse Thor, avançando mais para o interior.
Após investigar com cautela o local, perceberam que estava desabitado.
- Vejam! - exclamou Loki. - Há várias câmaras por aqui!
De facto, a caverna bifurcava-se em cinco câmaras amplas e separadas do tamanho de grandes salões.
- Vamos passar a noite nesta - disse o deus do trovão, acomodando-se junto com Loki e Thialfi na mais ampla das câmaras.
Os viajantes dormiram um bom pedaço da noite, quando, subitamente, foram despertados por um tremendo baque seguido de um ruído assustador, que lembrava o grito de mil ursos.
- O que foi isto? - exclamou Loki, pondo-se em pé.
Thor e Thialfi ficaram alertas, mas ao ruído seguiu-se um profundo silêncio. Então, todos voltaram a dormir e, como o ruído assustador não voltasse a acontecer, estiveram em paz o restante da noite.
Na manhã seguinte, saíram todos da caverna.
- Que ruído pavoroso terá sido aquele? - indagou Thialfi, que ainda estava intrigado com o incidente da noite.
- Esqueça - disse Thor -, florestas escuras como estas são pródigas em ruídos misteriosos.
Mas, o deus estava enganado, pois, logo adiante, deram de cara com um monstruoso gigante que, estirado na relva, ainda dormia profundamente.
- E esta agora? - disse Thialfi, amedrontado.
- Vamos embora, antes que ele acorde! - sussurrou Loki, dando as costas do gigante. Infelizmente, a orelha dele era tão grande, que captou o sussurro dos três e, logo, seus gigantescos olhos abriram, cobertos por remelas do tamanho de batatas fritas.
- Quem são vocês e o que fazem aqui? - gritou a criatura prodigiosa, erguendo-se com uma rapidez espantosa para alguém do seu tamanho e se pondo i procurar algo com grande avidez.
- Sou o poderoso Thor e venho com meus companheiros de Asgard no rumo de Jotunheim - disse o deus, empunhando por cautela o seu martelo Miollnir.
Mas o gigante continuava a andar de lá pra cá, sem dar muita atenção aos forasteiros até que, de repente, deu um grande grito:
- Ah, achei!...
Era a sua luva, que Thor e os demais haviam tomado por uma caverna. E a câmara, que todos haviam achado confortável e espaçosa, não era mais do que o polegar da luva!
- Sou Skrymir e vou indo também para Jotunheim - disse ele, enquanto ajeitava a luva. - Por que não vamos todos juntos?
Loki deu uma olhadela para Thor, mas este fez um sugestivo sinal com o martelo para que aceitassem o convite do gigante.
Após uma rápida refeição, seguiram em frente, tentando a muito custo acompanhar as enormes passadas do gigante, que andava adiante deles, balançando nas costas sua ruidosa mochila de provisões. Ao ver, entretanto, que os asgardianos também levavam algum mantimento, declarou com a mais cândida das vozes:
- Hum... vejo que vocês também têm o seu farnel! Partilhemos, então, como bons companheiros de viagem, as nossas provisões...!
Skrymir tomou as mochilas dos três e as introduziu dentro da sua e, com isto, estava feita a partilha.Assim, viajaram durante todo o dia com o gigante regalando-se de hora em hora, ao mesmo tempo em que os outros penavam sede e fome contínuas, até que o dia escureceu novamente e todos acomodaram-se sob uma grande árvore para descansar e passar a noite. O gigante, entretanto, antes de começar a roncar disse aos outros para que se servissem, livremente, dos mantimentos que havia em abundância na sua mochila, acrescentando cinicamente: "dormir de estômago vazio provoca pesadelos".
Não houve uma transição muito grande entre suas palavras e seu sono, pois antes que sua boca se fechasse novamente, fez-se ouvir por toda a floresta o som de seu poderoso ronco. Enquanto isso, Thor, tão faminto quanto os seus companheiros, tentava abrir a maldita mochila. Infelizmente, ela estava tão bem amarrada, que foi impossível desatar-lhe um único nó. Depois de lutar por um longo tempo com os nós cegos, Thor acabou por perder de vez a paciência e exclamou, irado:
- Definitivamente, este gigante sujo está debochando de nós!
O deus agarrou o seu martelo e avançou para o gigante, que permanecia adormecido, e desfechou um furioso golpe em sua testa. Um estrondo cavo ressoou por toda a floresta, como se um pavoroso trovão tivesse eclodido.
- O que houve? - disse Skrymir, abrindo um de seus olhos. - Oh, esta árvore deve estar cheia de ninhos de pássaros, pois acaba de cair uma pena de um filhotinho sobre a minha testa. - Depois, voltando-se para Thor e seus companheiros, perguntou: - Como é, já fizeram a refeição...? - Mas, antes que o deus pudesse responder - e certamente reclamar - Skrymir já havia adormecido outra vez.
Thor, inconformado com a desastrada tentativa, empunhou novamente o seu martelo e chegando ao pé do gigante desferiu-lhe novo golpe, agora, sobre o topo do crânio.
Skrymir acordou e levando a mão à cabeça, resmungou:
- Diacho! Agora foi uma noz que caiu! - Em seguida, virou de lado e voltou a dormir, como se nada houvesse acontecido.
Loki e Thialfi observavam as infrutíferas tentativas de Thor sem nada dizer, temerosos de que a ira do deus acabasse por se voltar contra eles. Thor resolveu esperar que o dia começasse a amanhecer para tentar um último e definitivo golpe. "De manhã estarei descansado e, então, darei cabo deste miserável!", pensou, acomodando-se para dormir.
Tão logo o sol raiou, ele se pôs em pé, mais disposto, embora ainda esfomeado e percebendo que o gigante ainda dormia profundamente, tomou de seu martelo e aplicou-lhe um golpe tão violento, que o instrumento se enterrou até o cabo dentro da cabeça do desgraçado, que acordou com um grande bocejo.
- Ou estou muito enganado - disse ele, alisando os cabelos - ou algum passarinho largou uma titica sobre a minha cabeça! - Pondo-se em pé, Skrymir conclamou os demais para que também acordassem.
- Vamos, preguiçosos...! - disse ele, estendendo os braços e derrubando dezenas de árvores à direita e à esquerda. - O sol está alto e Jotunheim já está perto!
Já haviam começado a andar, quando Skrymir resolveu advertir-lhes:
- Preparem-se, pois lá encontrarão gigantes de verdade!
- Quê? - exclamou Thialfi, incrédulo. - São ainda maiores do que você?
- Maiores...? Você deve estar brincando! - disse o gigante, dando uma sonora gargalhada. - Meu nanico, logo vocês verão que eu não passo de um anão perto deles!
Andaram mais um pouco, até que chegaram a uma grande encruzilhada.
- Muito bem, aqui nos separamos - disse Skrymir abruptamente.
Os três entreolharam-se, surpresos, não sem uma ligeira e indisfarçada manifestação de alívio.
- Mas você não vai para Jotunheim? - perguntou Loki.
- Não, vou para o norte, mas vocês devem seguir a estrada que vai para leste. Dou-lhes, entretanto, o conselho para que evitem se mostrar arrogantes quando chegarem à terra dos gigantes, pois os habitantes do lugar, e em especial Utgardloki, não admitem que forasteiro algum demonstre presunção diante deles - ainda mais, umas formiguinhas feito vocês.
Antes que Thor pudesse responder, o gigante já estava tomando o seu rumo.
- Adeus, amigos! Foi um prazer viajar ao seu lado! - disse Skrymir, lançando para as costas a sua recheada mochila. Com duas ou três passadas, desapareceu pela floresta, deixando Thor e os outros a caminho do país dos gigantes.

***

Os três companheiros já haviam caminhado bastante desde a separação, quando avistaram uma cidade no fim de uma extensa e elevada planície.
- Vejam, lá está um grande palácio! - disse Loki, apontando para a construção, que mesmo de longe já era imensa.
Aquele era o castelo de Utgardloki, um dos reis de Jotunheim, o qual, embora o nome, não tinha parentesco algum com o acompanhante de Thor.
Na verdade, era um palácio tão alto que ao tentar avistar a mais alta de suas torres quase caíram todos de costas. Quando baixaram os olhos, novamente, deram-se conta de que os imensos portões estavam fechados.
- E agora, poderoso Thor? - disse o servo Thialfi, cocando a cabeça.
- Vamos tentar abri-los à força - disse o deus do trovão, apoiando as duas mãos na porta maciça, enquanto retesava os músculos das pernas para tentar entrar no palácio.
Loki e o criado uniram-se aos esforços do deus, mas foi tudo em vão: as portas não moveram-se um único milímetro.
- Ufa!... - exclamou Loki, enxugando o suor da testa. - Por que não tentamos bater a aldrava?
De facto, havia uma gigantesca aldrava de bronze colocada no meio do portão, mas estava fora do alcance de qualquer um deles. Então, Thor, depois de estudar melhor a porta, descobriu que havia uma pequena fenda entre as duas pesadas folhas. Para os gigantes era uma fenda tão desprezível que seus olhos não podiam nem percebê-la, mas, para os visitantes, era uma passagem perfeitamente possível de ser atravessada - desde, é claro, que não se importassem em se espremer um pouquinho.
- Vamos entrar neste palácio nem que seja a última coisa que eu faça! - exclamou Thor, que possuía em grau admirável a virtude da persistência.
Thor se espremeu, então, até conseguir ultrapassar a estreitíssima fenda, sendo seguido imediatamente pelos dois companheiros.
- Ótimo! - exclamou Loki. - Já estamos dentro!
- Chhh! - fez Thor. - Temos de pegá-los de surpresa, senão nos expulsarão daqui antes mesmo que estejamos em seu salão. Ou esqueceu que deuses e gigantes são inimigos implacáveis?
Os três foram avançando, assim, pé ante pé, enquanto vozes retumbantes ecoavam pelos corredores. Por diversas vezes cruzaram com sentinelas postados à margem dos vastíssimos corredores, mas eles eram tão imensos em comparação com os intrusos, que, a menos que tivessem olhos nas canelas, jamais teriam sido capazes de percebê-los.
- É ali o salão dos gigantes! - disse Thor aos demais.
Tomando a dianteira, o deus escalou um pequeno banquinho e se fez anunciar dali com sua portentosa voz, que, no entanto, diante do vozerio assumiu as proporções diminutas do zumbido de um mosquitinho.
Loki, sempre apreciador do ridículo, seja humano ou divino, fazia um grande esforço para controlar o seu riso, enquanto que o criado Thialfi fingia ter perdido algo pelo chão.
Tomando, então, Miollnir, o seu poderoso martelo, Thor começou a malhar o banco onde estava até fazê-lo em pedaços.
- Atenção, todos! Sou Thor e vim aqui para desafiá-los!
Algumas cabeçorras, atraídas pelo ruído do martelo, voltaram-se para a direção de onde provinha aquele minúsculo, mas agora nítido ruído. Ao avistar Thor, entretanto, puseram-se a rir, deliciados, apontando para os visitantes dedos enormes como toras de carvalho desprovidas de ramos.
- Oh, então, você é Thor, o famoso deus do trovão? - exclamou uma voz, postada na ponta da grande mesa onde estavam assentados os gigantes. Ela pertencia a Utgardloki, o maioral do lugar.
- Sim, é Thor, o matador de gigantes, quem está à sua frente! - esbravejou o deus num assomo verdadeiramente admirável de audácia.
- Oh, longe de nós querermos pôr à prova a veracidade de suas palavras - disse o líder dos gigantes, descobrindo os dentes num ar de evidente deboche, embora, interiormente, tivesse dúvidas se não seria mais prudente evitar um confronto com o famoso deus (vai que era mesmo verdade o que diziam de sua força...!).
- Muito bem, forasteiros, aproximem-se - disse Utgardloki, fingindo-se bom anfitrião. - Há sempre lugar à minha mesa para mais três bocas!
"Ainda mais deste tamanhinho!", disse ele à boca pequena (por assim dizer) aos seus vizinhos de mesa, que imediatamente caíram na gargalhada.
- Mas, para que desfrutem de minha generosa hospitalidade - continuou a dizer Utgardloki em tom grandiloquente -, terão os três de nos brindar com algum prodígio de força ou habilidade!
Loki, que não estava para muitas conversas, e sentia dentro do estômago um buraco do tamanho daquelas criaturas, adiantou-se e disse:
- Quanto a mim, o único prodígio do qual me sinto capaz, neste instante, é o de comer mais do que qualquer um de vocês!
- Muito bem, está aceito o desafio! - disse um deles, erguendo-se no mesmo instante. Era Logi, um dos gigantes mais fortes - e seguramente mais esfomeado - de todo o bando. - Vamos começar o desafio imediatamente!
Loki sentou-se em frente ao gigantesco Logi e, logo, travessas imensas de carne foram postas diante dos dois. Para Loki, a carne foi servida sob a forma de pernis, enquanto, para o gigante, foram servidos bois inteiros.
Dado o sinal, os dois competidores arreganharam os dentes e lançaram-se às suas porções com terrível voracidade. Loki fez jus à sua fama de voraz comilão, tendo
esvaziado a sua travessa no mesmo espaço de tempo que o adversário. Só que este, como a perfeita personificação da Fome, não só devorara a sua porção como também os ossos e a travessa, o que lhe valeu a vitória.
- Muito bem, agora é a sua vez, nanico! - disse Utgardloki a Thialfi, que aguardava em suspense a sua vez de provar o seu valor.
- Bem, se eu tenho alguma virtude, senhor gigante - foi dizendo o criado de Thor - é a de ser o mais veloz dos mortais. Por isto, desafio qualquer um dos presentes a me vencer numa corrida.
Hugi, o mais veloz dos gigantes ali presentes, bradou da outra ponta da mesa:
- Vamos, saiam da frente, que esta é comigo!
Thialfi voltou o rosto, rapidamente, em direcção ao distante local de onde a voz soara, mas antes que seu eco tivesse terminado, ele já estava diante dele.
- Então, nanico, está pronto? - disse Hugi, com um sorriso superior.
O rei ergueu-se e foram todos para uma pista que havia no lado de fora do castelo.
Os dois, Thialfi e Hugi, foram colocados lado a lado, até que Utgardloki concluiu, a seu modo, a contagem regressiva:
- Dez! nove! oito! sete! quatro! seis!... Dez! nove! oito! cinco! dois!... Dez! nove! sete! seis! meia dúzia!... Ora, inferno, partam de uma vez!
Os pés de ambos começaram a correr com tal agilidade, que ficou muito difícil observá-los. Mas, com um esforço maior podia-se divisar as pernas de Thialfi, as quais alternavam-se com tamanha rapidez que pareciam imóveis.
De repente, entretanto, percebeu-se num pasmo, que Hugi já estava voltando!
De fato, o gigante fora tão rápido, que chegara ao fim da pista e retornava agora, cruzando por Thialfi, com uma grande risada. E, antes que o pobre Thialfi conseguisse completar o trajecto, o gigante voltou e venceu-o pela segunda vez.
Com Thialfi derrotado, chegara a vez de Thor enfrentar o desafio. Como estivesse muito sedento, propôs aos gigantes uma disputa de bebida.
- Tragam-me o maior chifre que houver, repleto de hidromel e beberei tudo de um único gole! - disse o deus, confiante em seu fôlego prodigioso. Utgardloki trouxe um chifre verdadeiramente imenso - tão imenso, que não se podia enxergar a sua extremidade - e o colocou diante de Thor.
- Pronto, aqui está, falastrão! - disse ele. - Se for mesmo forte, beberá seu conteúdo de um só trago. Se não for tão resistente assim, precisará de dois grandes tragos. Agora, se for um maricas, então, terá de dar três longos goles. Mas, não creio que tal aconteça, pois nunca ninguém tão fraco assim se apresentou por aqui! - acrescentou o gigante, empinando logo o chifre.
Thor encheu os pulmões de ar e colou a boca ao bocal, puxando todo o conteúdo do gigantesco chifre. Suas bochechas ficaram infladas e lustrosas, mas tão logo engoliu aquele grande trago, percebeu que ainda havia muito para ser engolido. Na verdade, a marca que indicava a quantidade existente dentro do recipiente mal se movera. Derrotado na primeira tentativa, Thor tomou novo fôlego e puxou nova e assustadora quantidade para dentro da boca, que quase estourou de tanto líquido. Mas, foi em vão: a marca permanecia praticamente inalterada. Os gigantes entreolhavam-se com risos e caretas.
- Não quer tentar uma última vez? - disse Utgardloki ao pé do ouvido de Thor.
Enchendo os pulmões de ar, o deus sorveu um último e prodigioso gole, a ponto de o hidromel escorrer-lhe pelas barbas numa verdadeira cachoeira.
- Desisto! - disse Thor, sabendo que nem em mil goles conseguiria beber todo o conteúdo.
- Que pena! - exclamou Utgardloki, falsamente condoído. - Pensei que o poderoso deus fosse um pouquinho mais resistente! Mas, como você é uma divindade muito respeitada, vou dar-lhe uma nova chance em um novo desafio! - disse Utgardloki, fazendo sinal para que trouxessem o seu grande gato cinzento.
- Temos aqui uma nova competição da qual participam somente as crianças:
consiste apenas em levantar do chão meu gato de estimação. É lógico que eu não teria me atrevido a propor tal brincadeira ao grande Thor seja não tivesse comprovado a sua lamentável fraqueza!
O magnífico gato, apesar de também ser gigantesco, não parecia, de facto, representar um desafio acima das forças de Thor. Por isso, o deus acolheu o desafio com um sorriso de alívio.
Thor aproximou-se do bichano, dizendo: "Aqui, Mimi, aqui!" O gato aproximou-se de mansinho com suas patas branquinhas da cor da neve e ronronou suavemente. Então, o deus envolveu o gato em seus poderosos braços e começou a suspendê-lo - ou a imaginar que o suspendia, pois na verdade o gato apenas esticara um pouco as suas pernas para dar a impressão de que cedia aos esforços do deus.
- Está difícil, deus do trovão? - disse o gigante, escarnecendo.
Todos os demais riam fungado, fazendo coro com o rei, inclusive, o gato, que parecia ter na boca ornada por elegantes bigodes um sorriso sutil de ironia.
Por mais que Thor forcejasse, nada conseguiu, além de fazer o gato erguer uma de suas patas brancas, o que pareceu, por fim, mais uma condescendência do bichano do que qualquer mérito seu.
- É fracote mesmo! - disse um dos gigantes, dobrando-se de tanto riso.
Utgardloki balançava a cabeça numa fingida desolação.
Thor, entretanto, tornara-se a tal ponto irado por causa de tantas humilhações, que resolveu lançar um último desafio aos atrevidos gigantes.
- Está bem, sou pequeno - disse o deus, espumando de raiva -, mas quero ver qual de vocês está disposto a lutar comigo!
- Meu amigo - disse Utgardloki, olhando para os homens sentados nos bancos -, aqui os fortes só brigam com os fortes. No entanto, conheço alguém a quem talvez você possa fazer frente. Chamem Elli, a minha velha ama - disse o rei a um lacaio.
Dali a instantes entrou no salão uma velha de cabelos ralos e brancos, que endereçou a Utgardloki um sorriso deserto de dentes.
- Velha Elli, aí está um desaforado que diz poder derrotá-la! - disse o gigante à velhota, que, no mesmo instante, começou a arregaçar as saias, preparando-se para o embate. - Mostre a ele quem é o mais forte por aqui!
O deus e a velha postaram-se no centro do salão e a um sinal do gigante a luta começou. Thor arremessou-se à adversária com certa cautela, pois não pretendia maltratar aquela velha centenária. Mas, ela não era nada daquilo que aparentava, e dando um pulo para o lado, que fez inveja ao próprio gato, esquivou-se do ataque e veio postar-se às costas de Thor. Em seguida, aplicou uma valente chave em um dos braços do adversário com tal força, que Thor viu-se obrigado a se ajoelhar e a reconhecer a derrota.
Com isto, encerraram-se as disputas. Thor e seus humilhados companheiros receberam um leito cada qual para descansar antes de partir na manhã seguinte. Tão logo os primeiros raios do sol surgiram no horizonte, já estavam os três prontos para ir embora daquela terra infamante. Utgardloki mandou que lhes servissem uma mesa repleta de iguarias e bebidas. Depois, acompanhou-os até a porta da cidade, e, antes que partissem, perguntou:
- E, então, Thor, gostou da viagem e da hospitalidade?
- Se lhe agrada saber, direi que nunca fui tão humilhado em toda a minha vida! - disse o deus, cabisbaixo, louco para ganhar a estrada.
- Bem, agora já pode se acalmar - disse Utgardloki, tão logo haviam transposto os portões do palácio. - Agora, que você está fora da cidade posso lhe contar o que, verdadeiramente, ocorreu.
Os três entreolharam-se, sem nada entender.
- Palavra de honra, se soubesse que possuía uma força tão descomunal e companheiros tão extraordinariamente competentes jamais teria permitido que aqui entrassem. Na verdade, iludi-os o tempo todo com minhas artimanhas. Primeiro, na floresta, onde amarrei a mochila com arame para que não pudesse desamarrá-la.
- Você? - exclamou Loki.
- Sim, Skrymir era eu mesmo! - disse Utgardloki com um grande riso. - Aquelas três pancadas que me desferiu com seu martelo, seguramente, teriam-me esfacelado o crânio, caso me tivessem realmente atingido! Mas, fui hábil o bastante para enganá-lo no momento certo, entrando para debaixo da terra, de modo que suas pancadas atingiram enormes montanhas, produzindo aquelas fendas profundas, que podem ver lá adiante.
Os três asgardianos olharam naquela direção e viram três grandes abismos que o martelo de Thor abrira naquelas encostas.
- Da mesma forma, foram enganados nas outras disputas - continuou a dizer o gigante. - O adversário de Loki na disputa da comilança não foi outro, senão o próprio Fogo, que devora tudo quanto encontra pelo caminho. Já aquele contra quem Thialfi disputou a corrida era o Pensamento, sendo impossível a qualquer um correr na mesma velocidade que ele.
Loki e Thialfi pareceram aliviados ao descobrir que não haviam sido humilhados, afinal.
- Quanto a você, poderoso Thor, jamais poderia ter esvaziado aquele imenso chifre, pois ele estava ligado na outra ponta ao inesgotável oceano; mesmo assim, se olhar bem na direção do mar, verá que ele está com a maré bem baixa, o que prova a quantidade prodigiosa de água que engoliu! Quanto ao gato, cumpre dizer que operou um feito não menos invejável, pois aquele bichano era na verdade a serpente Midgard, a vasta serpente que contorna toda a terra com suas longas espirais. Ficamos verdadeiramente espantados quando vimos que havia conseguido erguê-la um pouco acima do chão. Mas, de todas as derrotas, com certeza, a menos infamante foi a que lhe pareceu a mais vergonhosa: pois aquela velhota contra a qual lutou era a própria Velhice e jamais alguém pôde vencê-la em tempo algum.
Ao escutar o fim do discurso de Utgardloki, Thor mostrou-se tão furioso - pois, afinal, havia feito papel de bobo diante de toda aquela corte - que ergueu seu martelo Miollnir, pronto a aplicar um castigo de verdade ao gigante. Este, porém, percebendo o perigo, desapareceu instantaneamente.

Sem se dar por vencido, Thor retornou ao castelo para destruir tudo, mas quando lá chegou, uma última decepção o aguardava: o castelo havia desaparecido, como num passe de mágica!