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segunda-feira

Segunda Noite, Conto do terceiro chaik, Mil e Uma Noites


Segunda Noite, conto do terceiro chaik
Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI NA SEGUNDA NOITE…

Doniazad disse à sua irmã Sherezade: “ó, minha irmã, termina, para nós, eu te peço, o conto que é a história do mercador e do gênio”. E Sherezade respondeu: De todo o coração e como homenagem devida – se contudo, o rei permitir.” E então o rei disse: “Podes falar”.

Ela disse:
Contaram-me, ó Rei, que quando o mercador viu chorar o bezerro, seu coração foi tomado de piedade e ele disse ao pastor: “Deixa esse bezerro entre o gado.”
Quanta coisa! E o gênio admirava-se com a história espantosa. Depois, o chaik, dono da gazela, continuou:
“Ó rei dos gênios, tudo isso aconteceu. E a filha do meu tio, essa gazela que aqui está, também estava olhando e dizendo: “É preciso sacrificar aquele bezerro, porque está no ponto!” Mas eu não podia, por piedade, resolver-me a sacrificá-lo. E ordenei ao pastor que o levasse. Ele o levou, saindo daí com ele.
No segundo dia, eu estava sentado quando o pastor veio a mim e disse: “Ó, meu senhor, vou dizer uma coisa que te alegrará e essa novidade me valerá uma gratificação.” Respondi: “Certamente.” Ele disse:
“Minha filha é feiticeira, porque aprendeu feitiçaria com uma velha que morava em nossa casa. Ora, ontem, quando tu me deste o bezerro, eu entrei com ele onde estava minha filha. Apenas o viu, ela cobriu o rosto com o véu, e pôs-se a chorar, depois a rir. Em seguida me disse: “Ó, pai, meu valor desceu assim tão baixo a teus olhos que deixas que homens estranhos penetrem meus aposentos?”
Eu lhe disse: “Mas onde estão esses homens estranhos? E por que choraste e em seguida riste?” Ela me disse: “Esse bezerro, que está contigo, é o filho de nosso senhor, o mercador, mas ele está encantado. E foi sua madrasta quem assim o encantou, e à mãe dele também. E foi da sua cara de bezerro que não pude deixar de rir. E se chorei, foi por causa da mãe do bezerro, sacrificada pelo pai.”
A essas palavras de minha filha fiquei surpreso, e esperei a volta da manhã para vir te pôr a par.”
Assim que ouvi as palavras daquele pastor, saí à pressa com ele, e me sentia embriagado sem vinho, pela quantidade de alegria e felicidade que me vinham, por rever meu filho. Quando chegamos à casa do pastor, a jovem desejou-me boas vindas e beijou-me a mão. Depois o bezerro veio para mim e rolou a meus pés. Então eu disse à filha do pastor:
- É verdade o que me contas sobre esse bezerro?
- Sim, certamente, meu senhor! Esse bezerro é teu filho, a chama do teu coração.
- Ó gentil e piedosa adolescente, se libertares meu filho, dando-lhe novamente a forma de filho de Adão, te darei tudo quanto tenho em gado e em propriedades que estão sob a guarda do teu pai.
Ela sorriu ao ouvir essas palavras e disse:
- Meu senhor, não quero riquezas, senão sob duas condições: a primeira é casar com teu filho. A segunda é que me deixarás enfeitiçar e aprisionar quem eu quiser! Sem o que não respondo pela eficácia de minha intervenção contra as perfídias de tua esposa.”
Assim que ouvi as palavras da filha do pastor, disse-lhe:
- Assim seja! E, além disso, terás as riquezas que estão sob a guarda do teu pai. No que se refere à filha de meu tio, podes dispor do seu sangue.
Assim que ela ouviu minhas palavras, apanhou uma pequena bacia de cobre, encheu-a de água, e pronunciou sobre a água uns encantamentos: depois aspergiu o bezerro, dizendo-lhe: “Se Alá te criou bezerro, continua bezerro, sem mudar de forma! Mas se estás encantado, volta à tua primitiva forma.”
A estas palavras, imediatamente o bezerro começou a agitar-se, sacudindo-se até se tornar um ser humano. Então, atirei-me sobre ele, beijando-o e abraçando-o.
Depois, disse-lhe: Ó, meu filho! Alá, senhor dos destinos, reservou alguém para te salvar!”
Depois do que, ó bom gênio, casei meu filho com a filha do pastor. E ela, por sua ciência de feitiçaria, encantou a filha de meu tio e transformou-a nesta gazela que aqui está e que tu vês! E eu, ao passar por este lugar, vi estas pessoas reunidas e perguntei-lhes o que faziam, e soube por elas o que acontecera a este mercador que aqui está. E sentei-me para ver o que podia acontecer. E esta é a minha história.”
Então o ifrit disse: “História muito espantosa! Por isso dou-te o terço de sangue que pediste. Quanto aos outros dois terços do sangue deste maldito, vou tomá-los, contra a vontade dele, nesta hora!”
Nesse instante, avançou o segundo chaik, senhor dos cães negros, e disse:

CONTO DO SEGUNDO CHAIK

“Sabe, ó rei dos gênios, que estes dois cães que aqui vês são meus irmãos e que sou o terceiro. Ora, logo que morreu, nosso pai nos deixou de herança três mil dinares. Com minha parte, abri uma loja onde comecei a vender e a comprar. Um dos meus irmãos se pôs a viajar para se fazer comerciante e se ausentou por um ano, com as caravanas. Quando voltou, nada mais tinha. Então eu lhe disse: “Irmão, eu não te aconselhei a não viajar?” Ele se pôs a chorar, dizendo: “Ó, irmão, Alá é poderoso e permitiu que tal coisa me acontecesse. Assim, tuas palavras, agora, não me podem mais ser de proveito, pois que nada possuo.”
Então o levei comigo à loja e depois aos banhos, dei-lhe uma bela roupa. Em seguida sentamos juntos para comer e eu lhe disse: “Irmão, vou fazer a conta do lucro de minha loja, de um ano a outro e, sem tocar no capital, dividirei este lucro contigo.” E assim fiz, e achei que naquele ano tinha ganho mil dinares. Então agradeci a Alá, que é grande, e fiquei muito feliz. Depois dividi o ganho em duas partes, entre meu irmão e eu. E ficamos juntos durante dias.
Mas, de novo, meus irmãos resolveram partir, e quiseram que eu partisse com eles. Porem não aceitei, e lhes disse: “Que ganhaste vós, viajando, para que eu me sinta tentado a imitar-vos?”
Então eles começaram a insistir, mas sem sucesso, porque não obedeci aos seus desejos. Ao contrário, continuamos a tocar nossas respectivas lojas, vendendo e comprando durante um ano inteiro. Após, eles recomeçaram a me propor viagem, e eu continuei a não aceitar, e isso durou seis anos. Afinal, acabei concordando com eles e antes da partida, lhes disse:
“Meus irmãos, contemos o que possuímos em dinheiro.” Contamos e achamos ao todo seis mil dinares. Então, lhes disse: “Vamos enterrar a metade debaixo da terra para poder utilizá-la se uma infelicidade nos acontecer. E tomemos cada um mil dinares para comerciar em ponto pequeno.” Eles responderam: “Que Alá favoreça essa idéia!” Então tomei o dinheiro, dividi-o em duas partes iguais, enterrei três mil dinares e quanto aos outros três mil, distribui-os entre nós três. Depois, fizemos nossas compras de mercadorias diversas, alugamos um navio para nele transportar nossas aquisições, e partimos.
A viagem durou um mês inteiro, ao fim do qual entramos numa cidade onde vendemos nossas mercadorias, e tivemos um lucro de dez para cada dinar. Depois deixamos aquela cidade.
Ao chegarmos à beira-mar, encontramos uma mulher, vestida de trajos velhos e usados, que se aproximou de mim, beijou-me a mão e disse: “Meu senhor, podes me socorrer e prestar um serviço? Em troca, saberei recompensar teu benefício.” Disse-lhe: “Sim, com certeza! Posso socorrer e ajudar, mas não te sintas obrigada a mostrar reconhecimento.” Ela me respondeu: “Meu senhor, então casa-te comigo e me leve para teu país, e eu te devotarei minha alma! Fazei-me pois esse favor, pois sou daquelas que sabem o preço de uma obrigação e de um benefício. E não te envergonhes de minha pobre condição!” Quando ouvi aquelas palavras, tive por ela uma piedade cordial, porque não há nada que não se faça, com a vontade de Alá. Levei-a, vesti-a com roupas belíssimas, depois estendi para ela, no navio, magníficos tapetes e lhe fiz acolhimento hospitaleiro e amplo, cheio de urbanidade. Em seguida, partimos.
E meu coração amou-a com grande amor. Eu não a deixava, dia ou noite. E só eu, entre meus irmãos, podia possuí-la. Assim, meus irmãos encheram-se de ciúmes e me invejaram também pela minha riqueza e pela qualidade de minhas mercadorias. E atiravam avidamente olhares sobre tudo o que eu possuía, e tramaram minha morte e o roubo de meu dinheiro; porque um demónio fazia que vissem aquela ação sob as mais belas cores.
Um dia em que eu dormia ao lado de minha esposa, aproximaram-se, agarraram-nos e nos atiraram ao mar. E minha esposa acordou na água. Então, subitamente, ela se transformou em ifrita. Tomou-me em seus ombros e me colocou numa ilha. Depois desapareceu todo o resto da noite, voltando pela manhã, quando me disse: “Não me reconheces? Sou tua esposa! Salvei-te da morte, com a permissão de Alá! Porque, sabes, sou uma ifrita. E, desde o momento que te vi, meu coração te amou, simplesmente porque Alá assim o quis. Quando me viste na pobre condição em que eu estava, tu assim mesmo me quiseste e casaste comigo. Agora, em troca, salvei-te da morte.
Quanto a teus irmãos, estou enfurecida contra eles, com certeza é preciso que eu os mate!”
A essas palavras fiquei estupefato, e agradeci por seu ato, e lhe disse: “Quanto a meus irmãos, realmente, peço-te que não faças isso.” Depois lhe contei o que tinha acontecido entre mim e eles, desde o começo até o fim. Quando ouviu minhas palavras, ela disse: “Esta noite voarei até eles e farei naufragar seu navio e eles perecerão!” Eu lhe disse: “Por Alá, não faças isso, porque o Senhor dos provérbios disse: Ó benfeitor do homem indigno! Sabe que o criminoso está suficientemente punido pelo seu próprio crime! Ora, sejam eles o que forem, ainda assim são meus irmãos!” Ela disse: É absolutamente preciso que eu os mate.” Implorei inutilmente a sua indulgência. Depois do que ela me tomou sobre seus ombros e me pôs sobre o terraço de minha casa.
Então, abri as portas de minha casa. A seguir, retirei os três mil dinares do esconderijo. E abri minha loja, depois de ter feito as visitas necessárias e os cumprimentos de uso. E fiz novas compras.
Quando a noite chegou, fechei minha loja e, entrando em minha casa, encontrei estes dois cães amarrados a um canto. Quando me viram, levantaram-se e começaram a chorar, mas imediatamente apareceu minha esposa e disse: “Esses são teus irmãos.” Eu lhe disse: “Quem os pôs assim?” Ela respondeu: “Eu. Pedi a minha irmã, que é bem mais versada do que eu em encantamentos, e ela os pôs nesse estado, do qual só poderão sair ao fim de dez anos.”
E é por isso, ó poderoso gênio, que vim ter a este lugar, à procura de minha cunhada, para lhe pedir que liberte meus irmãos, pois já se passaram dez anos. Quando aqui cheguei, encontrei este bom homem, soube da sua aventura, e não quis sair até saber o seu término. Esta é minha história!”
O gênio disse: “Realmente, um conto espantoso! Por isso te concedo o terço de sangue, em resgate ao crime. Mas vou retirar desse maldito que atirou os caroços, o terço de sangue que me é devido.

Então avançou o terceiro chaik, senhor da mula, e disse ao gênio: “Eu contarei uma história mais maravilhosa do que as dos outros dois. E tu me darás, como graça, o resto do sangue, em resgate do crime.”
O gênio respondeu: “Que assim seja!”

CONTO DO TERCEIRO CHAIK

E o terceiro chaik disse:
“Ó sultão dos gênios! Esta mula que aqui está era minha esposa. Uma vez fiz viagem e estive ausente dela por um ano inteiro. Quando voltei, durante a noite, encontrei-a deitada com um escravo, sobre nosso leito. Os dois ali estavam, e conversavam, requebravam-se e riam, se beijavam e se excitavam, galhofando. Assim que ela me viu, levantou-se muito depressa e se atirou sobre mim, tendo na mão uma tigela de água. Murmurou algumas palavras sobre a tigela e disse: “Sai de tua própria forma e toma a imagem de um cão!”
E imediatamente me transformei num cão e ela me expulsou de casa. E eu saí, e desde então, não cessei de errar, e acabei por chegar à loja de um açougueiro. Aproximei-me e comecei a comer ossos. Quando o dono da loja me viu, segurou-me e foi comigo para sua casa.
Quando a filha do açougueiro me viu, depressa velou o rosto, por minha causa, e disse a seu pai: “É assim que se procede? Vens com um homem e entras com ele em nossos aposentos!” Seu pai lhe perguntou: “Mas onde está este homem?” Ela respondeu: “Esse cão é um homem. E foi uma mulher que o encantou. Sou capaz de libertá-lo.” A essas palavras, o pai disse: “Por Alá, conjuro-te a libertá-lo!” Ela tomou uma tigela e depois de ter murmurado sobre aquela água algumas palavras, aspergiu-me com algumas gotas e disse: “Sai dessa forma e volta à tua primitiva forma!” Então voltei a ser o que era e beijei a mão da jovem, e lhe disse: “Desejo agora que encantes minha esposa como fui por ela encantado.” Ela me deu um pouco de água e me disse: “Se encontrares tua esposa adormecida, atira-lhe esta água e ela se transformará naquilo que desejares!” Encontrei-a adormecida, joguei-lhe a água e disse: “Sai dessa forma e transforma-te em mula!” No mesmo instante ela se transformou em mula.
E é ela mesma que vês com teus próprios olhos, ó sultão e chefe dos reis dos gênios!
Então o gênio voltou-se para a mula e disse-lhe: “Isso é verdade?” E ela pôs a sacudir a cabeça e disse, por sinais: “Oh! Sim! Sim! É verdade!
Toda aquela história fez que o gênio tivesse prazer e emoção. E fez dom ao velho do último terço do sangue. Então...

Nessa altura, Sherazade viu aparecer a manhã e, discreta, calou-se. Então sua irmã Doniazad disse: Ó, minha irmã! Como tuas palavras são doces e gentis e deliciosas em sua frescura!” Sherazade respondeu: “E isso não é nada se comparado com o que te contarei na próxima noite, se estiver ainda viva, e se o rei houver por bem me conservar.” E o rei disse consigo mesmo: “Por Alá! Não a matarei até ouvir a continuação de sua narrativa, que é espantosa!”

Depois o rei e Sherazade passaram o resto da noite enlaçados, até pela manhã. Depois do que o rei saiu e foi para a sala de sua justiça. E o vizir e os oficiais entraram. O rei julgou, nomeou, demitiu, deu ordens até o fim do dia, quando voltou ao seu palácio.

Terceira Noite, História do pescador e do ifrit, Mil e Uma Noites


Terceira Noite, história do pescador e do ifrit
Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI A TERCEIRA NOITE

Doniazad disse: Ó, minha irmã, te peço: completa para nós tua história!
E Sherazade respondeu: De todo o coração amigo e generoso. Depois, continuou:
Contaram-me, ó Rei, que quando o terceiro chaik contou ao gênio o conto mais espantoso dos três, o gênio ficou maravilhado e emocionado, disse:
“Concedo-te o resgate do crime.” E soltou o mercador.
Então o mercador, todo feliz, adiantou-se para os chaikes e agradeceu-lhes muito. E eles, por sua vez, o felicitaram pela sua libertação.
E cada um deles voltou ao seu país e à sua vida.

Mas, continuou Sherazade, isso tudo não foi mais espantoso do que a História do pescador.
Então o Rei disse a Sherazade: “Que história do pescador?”

HISTÓRIA DO PESCADOR E DO IFRIT
Sherazade disse:
Contaram-me, ó poderoso rei, que havia um pescador, de idade muito avançada, casado, pai de três filhos e muito pobre.
Tinha o costume de tirar a rede quatro vezes por dia, e não mais. Ora, um dia, no início da tarde, ele foi para a beira do mar, descansou seu balaio, atirou a rede e ficou esperando até que ela pousasse no fundo da água. Então recolheu os filhos e viu que a rede pesava muito e não conseguia puxá-la. Levou, então, a ponta do fio à terra e amarrou-a a uma estaca enfiada na areia. Depois despiu-se e mergulhou na água que ficava em volta da rede e não cessou de debater-se até soltá-la. Alegrou-se, tornou a se vestir e, aproximando-se da rede, encontrou um burro morto. Vendo aquilo, desolou-se e disse: “Não há força e poder senão em Alá, o todo poderoso.” Depois, disse: “Mas, em verdade, este dom de Alá é espantoso!”
Retirou a rede, torceu-a e, quando terminou, estendeu-a. Depois, desceu para a água e disse: “Em nome de Alá!” e atirou novamente a rede, esperando que chegasse ao fundo. Tentou retirá-la mas notou que, como antes, estava presa ao fundo. Acreditando ser um grande peixe, amarrou a ponta a uma estaca, despiu-se e mergulhou. Quando levou a rede à margem, encontrou nela um jarro enorme, cheio de lama e areia. Vendo aquilo, disse: “Ó traições da sorte! Piedade! Que tristeza. Sobre a terra, nenhuma recompensa é igual ao mérito, nem digna do sacrifício. Às vezes saio de casa para procurar a fortuna. E dizem-me que ela morreu há tempos. Miséria. É assim, ó Fortuna, que relegas os sábios à obscuridade, para deixar que os tolos governem o mundo.”
Depois, atirou o jarro para longe de si, torceu a rede, limpou-a, pediu perdão a Alá pela sua revolta e voltou ao mar pela terceira vez. Atirou a rede, esperou que ela atingisse o fundo e, tendo-a retirado, encontrou potes quebrados e pedaços de vidro. Vendo aquilo, recitou outra vez versos de um poeta: “Ó Poeta, o vento da fortuna jamais soprará ao teu lado! Ignoras, ingénuo, que  nem tua pena de caniço nem as linhas harmoniosas de tua escrita não te hão de enriquecer?”
E, erguendo a cabeça para o céu, exclamou: “Alá! Tu o sabes! Eu não te atiro minha rede senão quatro vezes. Ora, eis que a deitei três vezes ao mar!” depois disso, invocou ainda uma vez o nome de Alá e jogou a rede ao mar, esperando que deitasse ao fundo. Dessa vez, apesar de todos os esforços, não conseguiu retirar a rede que se agarrou às rochas do fundo. Então exclamou: “Não há força e poder senão em Alá!”
Depois, despiu-se, mergulhou em torno da rede e se pôs a manobrar até que a desprendeu e a trouxe para terra. Abriu-a e ali encontrou um grande vaso de cobre amarelo, cheio e intacto. Sua boca estava selada com chumbo, trazendo o sinete de Salomão, filho de Davi. Vendo aquilo, o pescador ficou muito feliz, e exclamou: “Eis uma coisa que venderei aos caldeireiros, pois deve valer pelo menos 10 dinares de ouro!” Tentou sacudir o vaso, mas viu que era muito pesado, e disse consigo mesmo: “Preciso abri-lo e ver seu conteúdo, que colocarei no saco; em seguida venderei o vaso.”
Tomou, então, uma faca e começou a descolar o chumbo. Virou o vaso e dele nada saiu, exceto uma fumaça que subiu até o céu, e se desenrolou na superfície do solo. O pescador espantou-se. Depois a fumaça condensou-se e se transformou num ifrit, cuja cabeça tocava as nuvens e os pés ficavam plantados ao chão. A cabeça daquele ifrit era como uma cúpula, as mãos como forcados, os pés como mastros, sua boca uma caverna, seus dentes como seixos, seus olhos como tochas. Seus cabelos estavam em desordem e empoeirados. À vista daquele gênio, o pescador ficou apavorado, seus músculos tremeram, seus dentes serraram, a saliva secou e seus olhos cegaram para a luz.
Quando o ifrit viu o pescador, exclamou: “Não há outro Deus senão Alá, e Salomão é o profeta de Alá!” E dirigindo-se ao pescador, disse-lhe: “E tu, ó grande Salomão, profeta de Alá, não me mates, porque nunca mais te desobedecerei e não me amotinarei contra tuas ordens!” Então o pescador disse: “Gigante, ousas dizer que Salomão é o profeta de Alá! Salomão morreu há mil e oitocentos anos, e nós estamos no fim dos tempos. Que história é essa, então? Qual a causa de tua entrada neste vaso?” O gênio respondeu: “Não há outro Deus senão Alá! Deixa-me dar uma boa nova, pescador.” O pescador disse: “O que me vais anunciar?” Ele respondeu: “Tua morte. E neste mesmo momento, e da mais horrível maneira.” O pescador respondeu: “Por essa notícia tu mereces, ó tenente dos ifrits, que o céu te retire sua protecção! E possa ele afastar-te de nós! Por que, pois, queres tu minha morte? O que fiz para merecê-la? Libertei-te daquela prolongada prisão no mar e te trouxe a terra!” Então o ifrit disse: “Pensa e escolhe a morte que preferes, e a forma pela qual apreciarás ser morto!” O pescador disse: “Qual o meu crime, para merecer tal punição?”
O ifrit falou: “Escuta minha história, ó pescador.” O pescador disse: “Fala! E sê breve em teu discurso porque minha alma, de impaciência, está a ponto de sair de meu pé!” O ifrit então contou:
“Sabe que sou um gênio rebelde. Havia me revoltado contra Salomão, filho de Davi. Meu nome é Sakir-El-Gênio. Salomão mandou ter comigo seu vizir, Assef, que me levou, apesar de meus esforços, e me conduziu à presença de Salomão. Vendo-me, Salomão fez a conjuração a Alá e me ordenou abraçar sua religião e lhe prestar obediência. Recusei. Então ele fez trazer este vaso e nele me aprisionou. Depois, fechou-o com chumbo e imprimiu nele o sinete com o nome do Muito Alto. Depois deu ordens aos gênios fiéis que me atiraram ao mar. Fiquei cem anos no fundo da água, e dizia em meu coração: “Farei eternamente rico aquele que me libertar.” Mas os cem anos se passaram e ninguém me libertou. Quando entrei no segundo período de cem anos, disse comigo: “Descobrirei e darei os tesouros da terra “àquele que me libertar.” Mas ninguém me libertou. Então, fiquei tomado de tremenda cólera e disse em minha alma: “Agora, matarei aquele que me libertar, e só lhe concederei que escolha a sua morte! Foi então que tu vieste me libertar. E te concederei que escolhas teu gênero de morte.”
Ouvindo isso, o pescador disse: “Ó Alá, que coisa mais prodigiosa! Foi preciso que fosse logo eu quem te libertasse. Ó ifrit, concede-me graça, e Alá te recompensará! Mas se me fizeres perecer, Alá fará surgir alguém que te faça perecer por tua fez.” Então o ifrit lhe disse: “Mas eu quero te matar justamente porque me libertaste!” E o pescador disse: “Ó chaik dos ifrits é assim que tu pagas o bem?” Mas o ifrit lhe disse: “Chega de abusar das palavras! Sabes que é absolutamente necessária a tua morte!” Então o pescador disse consigo mesmo: “Eu não sou senão um homem e ele é um gênio. Mas Alá deu-me uma razão bem assentada e assim vou arranjar um meio para perdê-lo, um estratagema para enganá-lo. E verei bem se ele, por sua vez, poderá combinar alguma coisa com sua malícia e sua astúcia.” Então ele disse ao gênio: “Decidiste verdadeiramente a minha morte.” O ifrit respondeu: “Não tenhas dúvidas.” Então ele disse: “Pelo nome do Muito Alto, que está gravado sobre o sinete de Salomão, conjuro-te a responder com a verdade à minha pergunta!” Quando o ifrit ouviu o nome do Muito Alto, ficou emocionado e muito impressionado, e disse: “Podes fazer a pergunta, que te responderei com a verdade.” Então o pescador disse: “Como pudeste caber inteiro neste vaso onde mal caberiam teu pé ou tua mão?” O ifrit disse: “Por caso duvidarias disso?” O pescador respondeu: “Com efeito eu não acreditarei nunca, a menos que te veja com meus próprios olhos, entrar no vaso.”


Mas nesse momento Sherazade viu aparecer a manhã e discreta, calou-se. E o rei Chariar disse, em sua calma: “Realmente esta história é prodigiosa em extremo. Assim, vou esperar o fim e em seguida farei dessa filha do meu vizir o que fiz das outras jovens.”

Quarta Noite, História do vizir do rei Iunan e do médico Ruian, Mil e Uma Noites



Quarta Noite, História do vizir do rei Iunan e do médico Ruian

Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI NA QUARTA NOITE

Ela disse:
Contaram-me, ó Rei, que quando o pescador disse ao ifrit: “Não acreditarei nunca, a menos que te veja com meus próprios olhos, entrar no vaso.” O ifrit se agitou, sacudiu-se e tornou-se em fumaça que subiu ao céu, condensou-se e começou a entrar no vaso, aos pouquinhos, até ao fim. Então o pescador agarrou rapidamente a coberta de chumbo gravada com o sinete de Salomão e fechou o vaso. Depois, chamou o ifrit e lhe disse: “Olá! Estima a pesa o gênero de morte com que preferes morrer, senão vou te atirar ao mar, e construirei uma casa nas margens e impedirei, seja quem for, de te pescar, dizendo: “Aqui há um gênio; libertado, ele quererá matar seu libertador, e enumerará para ele as variedades de morte, permitindo-lhe escolhê-la.” Quando o ifrit ouviu isso, tentou sair, mas não pôde. E viu que estava aprisionado com o sinete de Salomão. Compreendeu, então, que o pescador o fechara na masmorra contra a qual não prevalecem nem os mais fortes nem os mais fracos dentre os gênios. E compreendendo que o pescador o levava para o lado do mar, disse-lhe: “Não! Não!” E o pescador: “É preciso, oh! É preciso!” Então o gênio começou a adoçar seus termos. Submeteu-se e disse: “Pescador, que vais tu fazer de mim?” Ele disse: “Atirar-te ao mar! Porque se ali estiveste durante mil e oitocentos anos, eu vou lá te prender até a hora do juízo: Pois não te supliquei que me conservasses para que Alá te conservasse? E que não me matasses, para que Alá não te matasse? Ora, tu repeliste uma súplica, e agiste como um celerado! Assim, Alá entregou-te em minhas mãos! E não tenho nenhum remorso do que estou para fazer!” O ifrit então disse: “Abre o vaso e te cumularei de benefícios!” Ele respondeu: “Tu mentes, maldito!” Aliás, entre mim e ti se passa exatamente o que se passou entre o vizir do rei Iunan e o médico Ruian!”
E o ifrit disse: “Mas quem era o vizir do rei Iunan e o médico Ruian? E que história é essa?”

HISTÓRIA DO VIZIR DO REI IUNAN E DO MÉDICO RUIAN

O pescador disse:
“Sabe, ifrit, que havia no tempo passado, na terra de Furs, na terra de Ruman, um rei chamado Iunan. Era poderoso, rico, senhor de exércitos formidáveis. Mas seu corpo era afligido por uma lepra que tinha desesperado os médicos e os sábios. Nem drogas, nem pílulas, nem pomadas produziam efeito sobre ele, e nenhum dos médicos podia encontrar para o rei remédio eficaz. Um dia, um velho médico famoso, chamado Ruian, veio à cidade do rei Iunan. Ele era versado em livros gregos, persas, romanos, árabes e sírios. Tinha estudado medicina e astronomia, das quais sabia muito bem os princípios e as regras, os bons e os maus efeitos; possuía a virtude das plantas e das ervas secas e verdes, e seus bons e maus efeitos; tinha, enfim, estudado a filosofia e todas as ciências médicas, e outras ciências ainda. Assim, quando o médico entrou na cidade e ali passou alguns dias, ficou sabendo a história do rei e da lepra que o atormentava e também dos insucessos dos tratamentos de todos os médicos e sábios. Ouvindo essa notícia, o médico passou a noite preocupado. Mas, quando pela manha acordou, e que a luz do dia brilhou e o sol saudou o mundo, vestiu-se com seus mais belos trajos e entrou no palácio de Iunan. Depois, beijou a terra em frente dele, fez votos pela duração eterna de seu poder e das graças de Alá. Em seguida falou-lhe e o fez saber quem ele era, dizendo: “Soube do mal que caiu sobre teu corpo e sei que a maior parte dos médicos não te pôde curar. Vou tratar-te, ó rei, e não te farei beber medicamentos nem te untarei com pomadas!” A essas palavras o rei Iunan se espantou e disse: “como farás?
Se me curares, te enriquecerei até os filhos dos teus filhos e te concederei todos os teus desejos e sua realização, e serás meu companheiro de bebida e meu amigo. Realmente me curarás sem remédios nem pomadas?” Ele respondeu: “Sim. Eu te curarei sem fadigas nem penas para teu corpo.” Então o rei se espantou da maneira mais prodigiosa e disse: “Ó grande médico, que dia e que momento verão realizar-se o que acabas de me prometer? Apressa-te!” Ele respondeu: “Ouço e obedeço.”
Então saiu da casa do rei e alugou uma casa onde colocou seus livros, remédios e  plantas aromáticas. Depois fez um extrato com seus medicamentos e seus símplices, preparou um malho curto e recurvo, cuja extremidade esvaziou, e ali adaptou uma bengala. E fez também uma bola, da melhor forma que lhe foi possível. Quando terminou completamente seu trabalho, subiu aos aposentos do rei, no segundo dia, entrou onde ele estava e beijou a terra em frente dele. A seguir prescreveu que fosse à praça de jogos a cavalo, e que jogasse com a bola e com o malho.
O rei foi, acompanhado de seus emires, camareiros, vizires e chefes do reino. Mal tinha chegado à praça quando o médico chegou também e lhe deu o malho dizendo: “Toma este malho e empunha-o desta maneira. Bate no chão e na bola com toda a tua força. E faz de maneira que chegues a transpirar a palma da mão e todo teu corpo. Dessa forma o remédio penetrará na palma de tua mão e circulará por todo o teu corpo. Quando tiveres transpirado e o remédio tenha tido tempo de agir, volta ao palácio e em seguida ao banho. E então, estarás curado. Enquanto isso, que a paz esteja contigo.”
Então o rei Iunan tomou o malho do médico, agarrando-o com toda a mão. Do seu lado, os cavaleiros lhe lançaram a bola. Então ele se pôs a galopar atrás da bola, atingindo-a, batendo-lhe com violência, sempre tendo à mão o malho, fortemente seguro. Não cessou de bater na bola senão quando se viu transpirando bem, na palma da mão e em todo o corpo. Quando o médico Ruian viu que o remédio tinha circulado em todo o corpo, ordenou-lhe que voltasse ao palácio e que fosse imediatamente tomar banho. O rei imediatamente mandou que se preparasse seu banho. Em seguida, vestiu-se, montou em seu cavalo e voltou ao palácio para dormir.
Eis o que fez o rei Iunan. Quanto ao médico, voltou a se deitar em sua casa, levantou-se pela manhã, subiu ao palácio do rei e pediu permissão para entrar, o que o rei permitiu; entrou, beijou a terra em frente dele e começou a declamar alguns versos:

Se a eloqüência te escolhesse como pai, ela refloresceria!
E a ninguém mais, além de ti, ela poderia escolher.
Ó luminoso rosto cuja claridade embaçaria a chama de uma Brasa ardente!
Tuas altas ações te fizeram atingir os alcantis da glória
E tu és o bem-amado do destino, que nada tem a recusar-te!

O rei, após ouvir os versos, levantou e atirou-se com carinho ao pescoço do médico. Depois, fê-lo sentar-se ao seu lado, mandando que lhe dessem magníficos trajos de honra.
Com efeito, quando o rei saiu do banho, tinha olhado para seu corpo e não mais encontrara traços da lepra. E sua pele se tornara pura como prata virgem. Ele, então, se regozijara com a mais excessiva alegria, e seu peito se dilatara e se expandira. Quando a manhã se erguera, o rei tinha entrado no Divã e se sentara na sala do trono: e os camareiros e os grandes do reino tinham entrado.   Também o médico Ruian. Fôra então que, ao vê-lo, o rei se tinha levantado com solicitude e o tinha feito sentar-se a seu lado. Então, serviram aos dois alimentos, iguarias e bebidas, durante todo o dia. Quando a noite tombou, o rei deu ao médico dois mil dinares, sem contar os trajos de honra e os presentes, e lhe deu a montar seu próprio cavalo. E foi assim que o médico voltou à sua casa.
Quanto  ao rei, não cessava de admirar a arte do médico e dizer: “Ele me tratou pelo exterior do meu corpo, sem me untar de pomada! Ora, por Alá! É uma ciência sublime! É preciso, pois, que eu cumule esse homem com os benefícios de minha generosidade e que o tome como companheiro afetuoso para sempre!” E o rei se deitou,   contentíssimo, cheio de alegria, vendo-se são de corpo e livre da doença.
No dia seguinte pela manhã, sentando-se o rei no seu trono, os chefes da nação ficaram de pé à sua frente, os emires e vizires sentados à sua direita e à sua esquerda. Ele fez, então, chamar o médico que veio, beijou a terra em frente dele. O rei levantou-se, fê-lo sentar-se ao seu lado, comeu com ele, desejou-lhe longa vida, deu-lhe trajos de honra e outras coisas ainda mais magníficas. Depois, cessou de se ocupar dele apenas ao aproximar-se a noite. E lhe fez dar, como remuneração, cinco outros trajos de honra e mil dinares. E foi assim que o médico voltou à sua casa.
Quando chegou a manhã, o rei foi para o Divã, ficando cercado de amires, vizires e camareiros. Entre os vizires havia um, de aspecto repulsivo, rosto sinistro e de mau agouro, terrível, sordidamente avaro, invejoso e petrificado de ciúme e ódio. Quando esse vizir viu o rei colocar a seu lado o médico e lhe conceder todos os benefícios, sentiu-se enciumado  e resolveu perdê-lo, segundo o provérbio que diz: “O invejoso ataca toda a gente: a opressão está de emboscada no coração do invejoso. A força a revela e a fraqueza a tem latente.” O vizir aproximou-se então do rei Iunan, beijou a terra em frente dele e disse: “Ó Rei, tu que envolves a humanidade nos teus benefícios, tenho comigo um conselho de prodigiosa importância, e que não poderia esconder sem me tornar verdadeiramente um filho adulterino: se me ordenares que te revele, eu to revelarei!” Então o rei, todo perturbado com as palavras do vizir, disse: “E qual é o teu conselho?” Ele respondeu: “Ó Rei glorioso, os antigos disseram: Aquele que não olha o fim e as consequências não terá a fortuna como amiga” – e eu acabo de ver o rei falhar em julgamento, fazendo benefícios ao seu inimigo, àquele que deseja o aniquilamento de seu reino, cumulando-o de favores, cobrindo-o de generosidades. Ora, eu estou, por causa disso tudo, no maior receio em relação ao rei!” A estas palavras o rei ficou extremamente perturbado, mudou de cores e disse:
“Quem é esse que tu dizes ser meu inimigo e que eu teria cumulado de favores?” Ele respondeu: “Rei, se estás dormindo, acorda! Porque faço alusão ao médico Ruian!” O rei lhe disse: “Esse é meu bom amigo, é para mim o mais querido dos homens porque me tratou de uma coisa que mantive na mão, e livrou-me da minha doença, que tinha desesperado os médicos! Não há nenhum como ele neste século, no mundo inteiro, no Oriente ou Ocidente! Assim, como ousas falar contra ele? Quanto a mim, desde este dia, vou dar-lhe salários e marcar-lhe trabalhos, para que ele tenha por mês mil dinares! Aliás, mesmo que eu lhe desse a metade do meu reino, seria pouco para ele! Assim, creio muitíssimo que tu dizes isso apenas por ciúmes, como se conta na história, que contaram, do rei Sindabad!”

Nesse momento, Sherazade foi surpreendida pela manhã, e parou sua narração.
Então Doniazad disse: Ó irmã, como tuas palavras são doces e gentis, e deliciosas e puras!” E Sherazade disse: “Mas que são essas palavras comparadas ao que contarei aos dois, na próxima noite, se estiver ainda viva e se o Rei houver por bem me conservar!” Então o rei disse, em sua alma: “Por Alá! Eu não a matarei antes de ouvir o seguimento da história!” Depois eles passaram o resto da noite enlaçados.

E o rei saiu para sua sala de justiça, onde julgou, nomeou, demitiu, terminou assuntos pendentes, e assim fez até o fim do dia. Depois voltou ao palácio. Quando a noite se aproximou ele fez a coisa do costume com Sherazade, a filha do vizir.

Quinta Noite, Mil e Uma Noites


Quinta Noite
Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI NA QUINTA NOITE

Sherazade disse:
Contaram-me, ó Rei, que o rei Iunan disse ao seu vizir:
“Ó, vizir, tu deixaste a inveja entrar em ti contra o médico, e tu queres que eu o mate, para que em seguida me arrependa, como se arrependeu Sindabad, depois de ter matado o falcão!” O vizir respondeu: “E como foi que isso aconteceu?”
Então o rei Iunan contou:

O FALCÃO DO REI SINDABAD

“Contam que havia um rei entre os reis de Furs, que era grande amigo de divertimentos, de passeios e de toda a espécie de caça. Possuía um falcão educado por ele próprio, e que não o abandonava nem de dia nem de noite, porque mesmo durante a noite o rei o trazia preso ao seu punho. E quando ia à caça, levava consigo, e tinha mandado pendurar ao pescoço da ave uma vasilha de ouro, onde lhe dava de beber. Um dia em que o rei estava em seu palácio, viu, subitamente, chegar o seu Intendente, encarregado das aves de caça, que lhe disse: “Ó rei, estamos justamente na época das caçadas!” Então o rei fez seus preparativos para a partida, e tomou o falcão sobre o punho.
Partiram e chegaram a um vale onde estenderam as redes de caça. De repente, uma gazela tombou na rede. Então o rei disse: “Matarei aquele cujo lado a gazela passar!” Depois começaram a puxar a rede em torno da gazela, que então se acercou do rei, ergueu-se sobre as patas de trás e aproximou do peito as patas dianteiras. Então o rei bateu as mãos, uma contra outra, para fazer fugir a gazela, que saltou e fugiu, passando-lhe por cima da cabeça, desaparecendo no longe daquelas terras. E o rei se voltou para os guardas e viu que eles piscavam os olhos uns para os outros e que era a ele que se referiam. Vendo isso, perguntou ao vizir: “Que têm os soldados?” Ele respondeu: “Eles dizem que tu juraste matar quem quer que visse passar a gazela ao seu lado!” E o rei disse: “Pela vida da minha cabeça! Precisamos perseguir aquela gazela e trazê-la de volta!” Depois começou a galopar sobre a pista do animal, e o falcão atirou-se sobre ela, metendo o bico nos olhos. De tal forma, cegou-a. Então o rei apanhou seu bastão, bateu com ele no animal e fê-lo rolar. Depois desceu, degolou-a, esfolou-a e suspendeu a caça sobre sua sela.   Fazia calor, e o local era árido e sem água. Assim o rei teve sede e o cavalo também. O rei se voltou e viu uma árvore de onde corria um líquido parecido com manteiga. Ora, o rei tinha a mão coberta com uma luva de pele; apanhou a vasilha do falcão, encheu-a com aquele líquido e colocou-a diante do falcão, mas o animal, com um golpe de seu pé, entornou-a. O rei apanhou a taça pela segunda vez, encheu-a, sempre pensando que a ave tinha sede, mas o falcão, pela segunda vez entornou-a. O rei ficou enraivecido contra o falcão e deu o líquido a terceira vez, mas o falcão novamente o entornou. Então o rei disse: “Que Alá te enterre, ave infernal!” Feriu depois o falcão com sua espada, e cortou-lhe as asas. Então o falcão ergueu a cabeça e pôs-se a dizer por meio de sinais: “Olha o que há sobre a árvore!” E o rei levantou a cabeça e viu uma serpente monstruosa; e o que corria era seu veneno. Então o rei arrependeu-se de ter cortado as asas do falcão. Depois, levantou-se, tornou a montar a cavalo e partiu levando a gazela. Atirou a gazela ao cozinheiro, depois sentou-se no seu trono, tendo o falcão no punho. Mas o falcão teve um soluço e morreu. Vendo aquilo o rei soltou gritos de luto e aflição por ter matado o falcão que o salvara da morte.
E tal é a história do rei Sindabad!”

Quando o vizir terminou de ouvir a narrativa do rei Iunan, disse: “Grande Rei, que mal fiz eu, cujos funestos efeitos tu tens visto? Não agi assim senão por piedade em relação a ti! E tu chegarás a conhecer a verdade de minhas palavras! Se me ouvires, estarás salvo, senão perecerás como pereceu um vizir astuto, que enganou o filho de um rei.

HISTÓRIA DO PRÍNCIPE E DA VAMPIRA

Esse rei tinha um filho muito entusiasta da caça a pé e da caça montada, e tinha também um vizir. O rei ordenou ao vizir que fosse com seu filho para onde quer que ele fosse. Esse filho, um dia, saiu à caça a pé e com ele saiu o vizir do seu pai. E todo os dois se foram, e viram um animal monstruoso. E o vizir disse ao filho do rei: “É para ti! Avança e persegue-o!” E o príncipe pôs-se a perseguir o animal, até que ele desapareceu aos olhos do vizir. De repente, o animal desapareceu no deserto. O príncipe ficou espantado, e não sabia mais para onde ir, quando viu uma escrava jovem que chorava. O príncipe perguntou: “Quem és?” Ela respondeu: “A filha de um dos reis da Índia. Enquanto eu caminhava no deserto, com a caravana, o sono apoderou-se de mim e eu caí da minha montaria, sem me aperceber. E me encontro abandonada, sozinha e muito perplexa!” Quando o príncipe ouviu aquelas palavras, tomado de compaixão, suspendeu a moça às ancas de sua montaria, colocando-a na garupa, partiu. Passando junto de uma ilhazinha deserta, a escrava disse: “Meu senhor, desejo fazer uma necessidade!” Então ele a fez descer e, vendo que ela demorava muito, seguiu-a sem que fosse notado. Ora, tratava-se de uma vampira! E ela dizia a seus filhos: “Meus filhos, hoje vos trouxe um rapaz bem gordo!” E eles disseram: “Mãe, trazei esse rapaz, para que o comamos e o metamos em nossos ventres!”
Quando o príncipe ouviu aquelas palavras, não duvidou mais de sua morte, seus músculos tremeram, ele encheu-se de terror e voltou. Quando a vampira saiu de seu covil viu que ele tinha medo e que tremia e disse-lhe: “Do que tens medo?” Ele respondeu: “Tenho um inimigo que me amedronta.” E a vampira disse: “Tu me disseste que és um príncipe.” Ele respondeu: Sim, é verdade. A vampira disse: “Então, por que não dás dinheiro ao teu inimigo para satisfazê-lo?” Ele respondeu: “Ele não se satisfaz com dinheiro, só com a alma! Ora, eu tenho muito medo, sou um homem vítima da opressão!” Ela disse:   “Se estás oprimido, como dizes, só tens que pedir auxilio a Alá, contra o teu inimigo. E Ele te salvaguardará dos seus malefícios e dos malefícios de todos que te fizerem medo!” Então o príncipe levantou a cabeça para o céu e disse: “Ó Tu, que respondes ao oprimido, se ele te implora e lhe descobres o mal, fazei-me triunfar de meu inimigo e afasta-o de mim, porque tens poder para tudo que desejas.” Quando a vampira ouviu aquela oração, desapareceu. E o príncipe voltou para junto de seu pai e lhe contou o mau conselho do vizir. E o rei ordenou a morte do vizir.”
(A seguir, o vizir do rei Iunan continuou, nestes termos:)
“E tu, Rei, se  te fiares nesse médico, ele te fará morrer da pior das mortes. E, embora tu o tenhas cumulado de favores e tenha feito dele teu íntimo, ainda assim ele prepara a tua morte. Não vês por que te livrou da moléstia pela parte externa de teu corpo, através de uma coisa que seguraste na mão? E não acreditas que foi apenas para causar tua perda com uma segunda coisa dessas, que te obrigará ainda a segurar?” Então o rei Iunan disse: “É verdade! É provável que o médico seja um espião, que veio para causar minha perda. Se ele me libertou com uma coisa que segurei na mão, pode muito bem me perder, por exemplo, com uma coisa que me dê a cheirar!” Depois o rei Iunan disse a seu vizir: “Ó vizir, que faremos dele?” E o vizir disse: “É preciso que ele venha aqui. E quando se  apresentar, é preciso golpeá-lo na nuca e tu, assim, farás cessar os malefícios e ficarás mais tranqüilo. Trai, pois, antes que ele te traia.” E o rei Iunan disse:
“Falas a verdade!” Depois o rei mandou chamar o médico que se apresentou todo contente, ignorando o que o Clemente decidira. O rei então lhe disse: Sabes por que te fiz vir aqui?” O médico respondeu:
“Ninguém sabe o desconhecido, a não ser Alá.” E o rei disse: “Fiz-te vir para tua morte.” E o médico, tomado de espanto, disse: “Que falta cometi eu?” E o rei respondeu: “Dizem que és um espião, que me vieste matar. Vou te matar antes que me mates.” Depois o rei gritou pelo porta-alfanje e ordenou-lhe: “Fere o pescoço desse traidor!” O médico disse: “Conserva-me, e Alá te conservará. E não me mates, senão Alá te matará!”
Depois reiterou seu pedido, como fiz eu em relação a ti, ifrit, sem que me atendesses. E, ao contrário, persistes em querer minha morte.
Em seguida o rei disse ao médico: Não poderei confiar nem ficar tranquilo enquanto não te matar. Porque se tu me libertaste com uma coisa que segurei, poderás me matar com algo que me farás cheirar, ou outra forma qualquer.” E o médico disse: “Rei, essa é minha recompensa? Assim retribuis o bem com o mal?” Mas o rei falou: “É preciso que morras!” Quando o médico viu que o rei queria a todo transe sua morte, chorou e se afligiu pelos serviços prestados aos que não eram dignos deles. Depois do que, o porta-alfanje avançou, vendou-lhe os olhos e tirando seu alfanje, disse ao rei:
“Com tua permissão!” Mas o médico continuou a dizer ao rei: “Conserva-me, e Alá te conservará. E não me mates, senão Alá te matará!”. Disse ainda ao rei: “Essa é minha recompensa? Eis que me tratas como o faria um crocodilo!” Alguns favoritos do rei ainda tentaram: “Rei, fazei-nos a graça do sangue deste médico, porque ele te libertou de tua doença!” O rei respondeu: “Ignorais a razão da morte deste médico: se o poupasse, estaria perdido.” Mas o médico disse: “Rei! Se minha morte é realmente necessária, concede-me um adiamento para que eu vá a minha casa a fim de me libertar de tudo e de recomendar a meus parentes e vizinhos que se incumbam de meu enterro, e sobretudo fazer presente de meus livros de medicina. Alias, tenho um livro que é realmente a essência das essências, a raridade das raridades, e que te quero dar de presente.”  Então o rei disse ao médico: “E que livro é esse?” Ele respondeu: “É um que contém coisas inestimáveis, e  o menor dos segredos é o seguinte: Se me cortas a cabeça, abre o livro e conta três folhas, virando-as: lê, em seguida, três linhas da página esquerda e então a cabeça cortada te responderá a todas as perguntas que fizeres!” A essas palavras o rei se impressionou e disse: “Mesmo que eu corte a tua cabeça, tu falarias?” Ele respondeu: “Sim, é verdade!” Então o rei permitiu que ele se fosse, mas entre guardas. O médico desceu à sua casa e naquele dia e no seguinte terminou seus negócios. Depois tornou a ir ao Divã, que estava cheio de figuras notáveis. Então o médico entrou no Divã e ficou de pé diante do rei, tendo nas mãos um livro muito velho e uma caixinha de colírio, contendo um certo pó. Depois sentou-se e disse: “Que me tragam uma bandeja!” Trouxeram a bandeja e ele despejou nela o pó, espalhando pela superfície. Disse então: “Rei, toma este livro, mas não te sirvas dele antes de me cortar a cabeça. Quando a tiveres cortado, coloca-a sobre esta bandeja e ordena que a comprimam contra este pó para estancar o sangue; depois, abrirás o livro!” Mas o rei, na sua pressa, já não o ouvia; apanhou o livro, abriu-o, mas achou as folhas coladas umas as outras. Então levou o dedo à boca, molhou-o com saliva, e conseguiu abrir a primeira folha. E fez a mesma coisa com a segunda e a terceira, e de cada vez as folhas se abriam com grande dificuldade. Dessa forma,   o rei abriu seis folhas e tentou ler, mas não havia nada escrito. E o rei disse: “Médico, não há nada escrito!” E o médico respondeu: “Continua a folhear!” E o rei continuou a virar as páginas. Mas apenas se tinham passado alguns momentos e o veneno circulou no corpo do rei, naquele momento e naquela hora, porque o livro estava envenenado. E então o rei tombou em convulsões horríveis, e gritou: “O veneno circula!” E tombou morto.
Ora, agora aprende, ó tu, ifrit! Se o rei Iunan tivesse poupado o médico Ruinan, Alá o teria por sua vez poupado. Mas ele se recusou, e assim  resolveu a própria morte.
E tu, ifrit, se tivesses querido me conservar, Alá teria te conservado!”


Nesse momento de sua narrativa, Sherezade viu aparecer a manhã e discreta calou-se, sem se aproveitar mais da permissão recebida. Então sua irmã, Doniazad, disse: “Ó minha irmã, como tuas palavras são doces, gentis e saborosas. E Sherazade respondeu: “Mas elas não são verdadeiramente nada se comparadas ao que contarei aos dois, na próxima noite, se contudo eu estiver ainda viva, e se o Rei houver por bem me preservar!” E o Rei disse a si próprio: “Por Alá! Eu não a matarei senão depois de ter ouvido o resto do conto!”Depois o rei e Sherazade passaram a noite enlaçados. Depois do que o rei saiu para presidir os negócios da justiça, voltando depois para se reunir aos seus.

Sexta Noite, Mil e Uma Noites


Sexta Noite
Mil e Uma Noites

E QUANDO FOI NA SEXTA NOITE...

Sherazade disse:
Contaram-me, Rei, que quando o pescador disse ao gênio “Se tu me tivesses conservado, eu teria te conservado, mas tu não quiseste senão a minha morte, e eu te darei a morte, aprisionado nesse vaso, e te deitarei ao mar! – então  o gênio proclamou: “Imploro, por Alá, que me poupes, sem me censurais demais pela minha ação, porque eu, se fui criminoso, sê tu benevolente! Liberta-me e te serei de grande utilidade num negócio que te fará rico para sempre.” O pescador, após ter assegurado a boa fé do ifrit, abriu o vaso. O ifrit tornou-se novamente o gênio de espantosa feiura, e deu um pontapé no vaso, atirando-o ao mar. O pescador, ao ver aquilo, lembrou ao gênio: “Tu me prometeste e juraste que não me trairias. Se me traíres, Alá te punirá.” O gênio, ao ouvir aquilo, riu-se e disse ao pescador: “Segue-me.” Os dois andaram até saírem da cidade, chegando num vaso ermo, no meio do qual existia um lado. O ifrit então ordenou ao pescador que atirasse sua rede e pescasse. O pescador olhou para a água e viu peixes brancos, vermelhos, azuis e amarelos. Tendo retirado a rede, viu ter pego quatro peixes, um de cada cor. O ifrit então orientou: “Dá esses peixes ao sultão e ele te enriquecerá. Agora, por Alá, recebe meu pedido de desculpas!
Quanto a ti, virás todos os dias pescar neste lago, mas uma vez só por dia. E agora, que Alá te tenha sob sua proteção.” E isso dizendo, o ifrit bateu os dois pés na terra, que se fendeu, engolindo-o.
O pescador voltou a cidade, maravilhado com o que tinha acontecido. Depois de passar em casa para deixar a rede, colocou os peixes numa panela de barro e levou-os ao sultão, que ficou maravilhado com a qualidade dos peixes. Disse então o sultão: “Que esses peixes sejam entregues à nossa cozinheira.” Assim o vizir ordenou-lhe que fritasse os peixes, dizendo-lhe: “Faz ver-nos hoje a prova de tua arte culinária, porque o sultão acaba de receber um homem que lhe trouxe presentes!” Tendo dito isso, o vizir se voltou, depois de ter feito suas recomendações. O rei lhe ordenou que desse ao pescador quatrocentos dinares. O pescador voltou para casa todo contente, indo comprar para os filhos tudo que podiam necessitar. E eis a história quanto ao pescador.
Quanto ao que se refere à cozinheira, ela tomou os peixes, limpou-os e arranjou-os na frigideira; deixou fritar de um lado e voltou-os para o outro lado. De repente, a parede da cozinha se abriu e por ela entrou uma jovem de talhe esbelto, faces cheias e lisas, qualidades perfeitas, pálpebras pintadas de kajal negro, rosto gentil, corpo gracioso; tinha sobre a cabeça uma echarpe de seda, brincos, braceletes e nos dedos anéis com pedras preciosas. Aproximou-me metendo uma varinha de bambu na frigideira, dizendo: “Ó peixe, tu continuarás a manter tua promessa?” Vendo aquilo, a escrava desmaiou e a jovem repetiu a pergunta pela segunda e terceira vezes. Então, todos os peixes levantaram a cabeça de dentro da frigideira e disseram: “Oh, sim! Sim!” Depois entoaram em coro:

Se deres um passo atrás
Havemos de te imitar
Se cumpres a promessa
A nossa será cumprida
Mas se tentas escapar
Insistiremos até
Que te tenhas decidido!

A essas palavras a jovem revirou a frigideira e saiu por onde havia entrado e a parede da cozinha se uniu de novo. Quando a escrava voltou a si do desmaio, viu que os peixes tinham virado carvão. E falou consigo mesma: “Pobres peixes! Mal começou o ataque e eis que eles debandam!” Enquanto ela se lamentava, chegou o vizir que lhe disse: “Leva os peixes ao sultão!” A escrava corou e contou ao vizir a história e o que seguiu, o que o deixou muito espantado. E disse: “É realmente uma história muito estranha!” e mandou procurar o pescador, dizendo-lhe: “É preciso que me tragas quatro peixes iguais aos que trouxeste da primeira vez!” O pescador foi ao lago e pegou os quatro peixes, levando-os ao vizir, que os levou à cozinheira, dizendo-lhe: “Frita-os na minha presença para que eu veja o que há nessa história.” E a mulher preparou os peixes. Mal haviam passado alguns momentos e eis que a parede se abre e a jovem aparece, vestida sempre com as mesmas vestimentas e trazendo a vareta na mão. Meteu a veta frigideira, dizendo: “Ó peixe, tu continuarás a manter tua promessa?”
Então, todos os peixes levantaram a cabeça de entoaram em coro:

Se deres um passo atrás
Havemos de te imitar
Se cumpres a promessa
A nossa será cumprida
Mas se tentas escapar
Insistiremos até
Que te tenhas decidido!


Nesse momento, Sherazade, vendo aparecer a manhã, cessou as palavras

Sétima Noite, Mil e Uma Noites


Sétima Noite
Mil e Uma Noites


E QUANDO FOI NA SÉTIMA NOITE
Ela disse:

Contaram-me, Rei, que quando os peixes começaram a falar, a jovem revirou a frigideira com sua vareta, saiu por onde havia entrado e a parede da cozinha se fechou. O vizir levantou-se e disse: “Aí está uma história que não poderei esconder do rei!” Depois, foi ter com o rei e lhe contou o que se passara. O rei lhe disse: “Preciso ver isso com meus próprios olhos!” E mandou procurar o pescador e ordenou-lhe que voltasse com quatro peixes iguais, dando-lhe para isso três dias de prazo. Mas o pescador depressa voltou ao lago e trouxe imediatamente os peixes. O rei deu-lhe quatrocentos dinares e voltando-se para o vizir, falou: “Prepara tu mesmo, diante de mim, esses peixes.” E o vizir disse: “Eu ouço e obedeço.” Então fez trazer a frigideira e se pôs a fritá-los. De repente, a parede da cozinha se abriu e dela surgiu um negro que parecia um búfalo, ou um dos gigantes da tribo de Had. E ele trazia na mão um ramo verde de árvore. E disse, com voz distinta e terrível: “Peixes, peixes, continuais mantendo sua promessa?” E os peixes levantaram a cabeça, de dentro da frigideira, e disseram: “Sim, certamente!” E, em coro, declamaram esses versos:


“Se cuidas de recuar,
Recuaremos também!
Se mantens tua promessa,
A nossa já se mantém!
Mas se nos queres burlar,
Havemos de gritar tanto
Que tu te decidirás!

Depois o negro aproximou-se da frigideira e revirou-a. Os peixes queimaram-se e ele saiu por onde havia entrado. Quando desapareceu, o rei disse: “Eis uma história sobre a qual não podemos silenciar! Aliás, não há dúvida que esses peixes devem ter uma história estranha!” Ordenou, então, que fizesse vir o pescador, perguntando-lhe: “De onde vêm esses peixes?” Ele respondeu: “De um lago situado entre quatro colinas, atrás da montanha que domina a tua cidade!” E o rei se voltou para o pescador e perguntou-lhe: “Quantos dias leva para chegar até lá?” Ele respondeu: “Senhor, basta apenas meia hora.” E o sultão ficou surpreso, ordenando aos guardas que seguissem imediatamente o pescador. O pescador, muito contrariado, se pôs a maldizer o génio. E o rei, e todos, partiram e subiram a montanha. O sultão e os soldados se espantaram com aquela extensão deserta situada entre quatro montanhas, e com aquele lago onde nadavam os peixes coloridos. O rei parou e perguntou aos que o acompanhavam: “Algum de vocês já tinha visto este lugar?” Todos responderam: “Não!” E o rei disse: “Por Alá! Não voltarei à cidade sem conhecer a verdade sobre este lago e seus peixes!” E ordenou aos soldados que cercassem a montanha, e os soldados o fizeram. Então o rei chamou o seu vizir.
Ora, esse vizir era um homem sábio, versado em todas as ciências. Quando se apresentou diante do rei, este lhe disse: “Tenho a intenção de fazer uma coisa e antes vou te dizer o que; veio-me a ideia de me isolar esta noite, e de procurar sozinho a solução do mistério deste lado e seus peixes. Tu, pois, ficará à porta da minha tenda e dirás aos emires, vizires e aos camareiros que estou indisposto e que não quero ver ninguém. E não contarás a ninguém minha intenção.” Dessa forma, o vizir não podia desobedecer. Então o rei disfarçou-se, cingiu a espada e se esgueirou para longe de seus acompanhantes, sem ser visto. Depois do que se pôs a caminhar pelo deserto, o que fez até a manhã do dia seguinte. Eis que viu, à distância, uma mancha; regozijou-se, dizendo: “É provável que ali eu encontre alguém que me explique a historia dos peixes!” Ao se aproximar, viu que era um palácio inteiramente de ferro, cuja porta tinha um batente aberto e outro fechado. Bateu à porta, mas não ouvindo resposta, bateu uma segunda e uma terceira vez; continuando a não ouvir resposta, bateu uma quarta fez, com muita força, mas ainda assim ninguém lhe respondeu. Então ele disse para si: “Este palácio está deserto.” Tomando coragem, entrou pela porte, chegando a um corredor. Ali, disse, em voz alta: “Senhores do palácio, sou um estrangeiro, um viajante dos caminhos e peço provisões para viagem!” Repetiu duas vezes o pedido. Não ouvindo qualquer resposta, respirou fundo e penetrou pelo corredor até o meio do palácio. Nada. Vazio. Viu, no entanto, que o palácio estava ricamente coberto de tapetes, e que no meio do pátio interno havia uma piscina, sobre a qual se erguiam quatro leões, que deixavam correr água de suas bocas, sobre pérolas e pedrarias belíssimas. Em volta, numerosos pássaros que não podiam voar para fora em virtude de uma rede que se estendia sobre o edifício. E o rei maravilhou-se com tudo aquilo, mas se afligiu por não encontrar ninguém que contasse a respeito do segredo dos peixes. Sentou-se na porta, pensando. De repente, ouviu um lamento muito fraco, que vinha de um coração abatido e triste.
Quando o rei ouviu os lamentos, levantou-se e se dirigiu para o lado de onde eles vinham. Encontrou uma porta separada do cómodo anterior por uma cortina. Levantou aquela cortina e, numa grande sala, viu um rapaz jovem, sentado sobre uma cama, da cintura para baixo coberto por uma colcha ricamente bordada.
Vendo-o, o rei ficou feliz e lhe disse: “A paz esteja contigo.” E o jovem continuou sentado, vestido com uma roupa de seda e ouro. “Ó senhor, desculpe-me por não me levantar!” Mas o rei disse: “Jovem, esclarece-me sobre a história do lado e dos peixes, assim como sobre este palácio e sobre a causa de tuas lágrimas!” A essas palavras, o jovem chorou ainda mais, deixando que as lágrimas corressem pelas faces. O rei, espantado, falou: “Ó jovem, o que te faz chorar?” E o jovem respondeu: “Como posso deixar de chorar quando estou reduzido a isto?” E o jovem estendeu a mão para as barras da colcha que o cobria e levantou-a. E então o rei viu que toda a metade inferior do jovem era de mármore, e a outra metade, do umbigo à cabeça, era de homem. E o jovem disse ao rei: “Sabe, ó senhor, que a história dos peixes é coisa estranha, que, se fosse escrita com a agulha sobre o canto interior do olho, para ser vista por todos, seria uma lição para o observador atento!”
E contou sua história:

HISTÓRIA DO JOVEM ENCANTADO E DOS PEIXES

“Senhor, saiba que meu pai era o rei desta cidade. Seu nome era Mahmud, e ele era senhor das Ilhas Negras e daquelas quatro montanhas. Meu pai reinou por setenta anos, depois do que se extinguiu, na misericórdia do Retribuidor. Depois de sua morte, recebi o sultanato, e me casei com a filha de meu tio. Ela me amava de uma forma tão poderosa que se por acaso eu me ausentasse, ela não comia nem bebia enquanto não me tornava a ver. E ficou sob minha protecção durante cinco anos, até que um dia foi ao hammam, depois de ter ordenado ao cozinheiro que nos preparasse iguarias para o jantar. E eu entrei no palácio e adormeci no lugar onde costumava dormir, e ordenei a duas escravas que me abanassem com seus leques. Mas fui sendo tomado pela insónia, pensando na ausência de minha esposa, e o sono não vinha. Então ouvi a escrava que estava atrás de minha cabeça dizer à que estava a meus pés: “Massuda, como nosso senhor é afligido por uma juventude infeliz! E que lástima é para ele ter uma esposa como nossa senhora, essa pérfida, essa criminosa!” E a outra respondeu: “Que Alá amaldiçoe as mulheres adúlteras! Por que aquela filha adulterina poderia ter alguém melhor do que nosso senhor, ela que passa suas noites em leitos variados?” E outra respondeu: “Verdadeiramente, nosso senhor deve ser bem despreocupado para não se dar conta dos actos daquela mulher!” E a outra: “Mas que estás supondo? Nosso senhor pode, acaso, saber o que ela faz? Ou tu estás pensando que ela o deixa agir com toda a liberdade? Fica então sabendo que aquela pérfida mistura sempre alguma coisa na taça em que nosso senhor bebe, antes de adormecer; coloca bânj (narcótico) na taça e ele tomba adormecido. Nesse estado, não pode saber o que se passa, nem onde ela vai, nem o que ela faz. Ora, depois de lhe fazer beber a dormideira, ela se veste e sai, deixando-o só, e ausenta-se até a aurora. Quando volta, queima-lhe sob o nariz umas coisas de cheirar, e ele então acorda.
Quando ouvi, meu senhor, as palavras das escravas, a luz se transformou a meus olhos em trevas. Custava-me ver a aproximação da noite para estar novamente com a filha do meu tio. Ela voltou, finalmente, do hammam. Então, estendemos a toalha e comemos durante uma hora. Depois do que, pedi o vinho que eu bebia todas as noites antes de dormir, e ela me estendeu a taça. Mas tive o cuidado de não beber; fingi levar a taça aos lábios como de costume, e derramei o líquido pela abertura da gola de meus trajos, e na mesma hora, no mesmo instante, estendi-me no leito e fingi dormir. E ela então disse: “Dorme! E jamais possas acordar! No que se refere a mim, por Alá, detesto-te, e detesto até tua imagem: e minha alma está mais que farta do teu convívio!” Depois, levantou-se, vestiu linda roupa, perfumou-se, cingiu uma espada, abriu a porta do palácio e saiu. Então me levantei e segui-a até que ela tivesse saído do palácio. E ela atravessou todos os sus da cidade e chegou enfim às portas dela. Então, dirigiu-se às portas numa língua estranha, que eu não compreendi, e os ferrolhos tombaram e as portas se abriram. Ela saiu. Segui-a sem que ela percebesse, até que chegou às colinas formadas pelo amontoado dos resíduos e a uma fortaleza coberta com uma cúpula e construída de barro cozido: ela entrou pela porta, e eu subi para o terraço da cúpula e me pus a vigiar lá de cima. E eis que ela entrou no aposentou de um negro. Aquele negro horrível tinha o lábio superior como a tampa de uma marmita e o inferior como a própria marmita; e esses dois lábios pendiam até tão em baixo que poderiam separas as pedras da areia. E ele estava doente e estendido sobre um pouco de palha. Vendo-o, a filha de meu tio beijou a terra diante dele e ele, levantando a cabeça para ela, disse: “A desgraça caia sobre ti! Por que tardaste em vir? Convidei os negros, que se puseram a beber vinhos e se misturaram às suas amantes. Quanto a mim, nada quis beber, por tua causa!” Ela disse: “Meu senhor e querido do meu coração! Não sabes que sou casada com o filho do meu tio? E que detesto até a imagem dele? E que para mim é um horror estar na companhia dele? Aliás, não fosse o receio de que isso viesse a te prejudicar, há muito teria arruinado a cidade, de alto a baixo, e feito que apenas a voz do mocho e do corvo ali fossem ouvidas; e teria transportado as pedras das ruínas para trás do monte Cáucaso!” O negro respondeu: “Mentes, libertina! Ora, eu juro pelas qualidades viris dos negros e pela nossa infinita superioridade de homens em relação aos brancos, que se outra vez te atrasares assim, repudiarei a tua amizade e não porei mais meu corpo sobre o teu! Pérfida traidora! Não estás assim atrasada senão porque foste saciar algures teus desejos de fêmea, ó mais infame das mulheres brancas!” Depois, tomou-a sob seus braços. E aconteceu o que aconteceu.”
Assim narrou o príncipe, dirigindo-se ao rei. E continuou: “Quando ouvi aquela conversa e vi com meus próprios olhos o que se seguiu entre os dois, o mundo se transformou em trevas diante do meu rosto, e eu não soube mais onde estava. Em seguida, a filha de meu tio se pôs a chorar e a se lamentar humildemente nas mãos do negro, e a dizer: “Ó meu amante, ó fruto do meu coração, não me resta senão tu! Se tu me expulsas, então estou desgraçada! Ó querido, luz dos meus olhos!” E ela não cessou de chorar e de implorar para que ele a perdoasse. Aí, ela ficou toda feliz e levantando-se, de pé, sem nada ter sobre o corpo, nem mesmo um calção, toda nua, disse: “Ó meu mestre, tens com que nutrir a tua escrava?” e o negro respondeu: “Levanta a tampa da marmita e ali encontrarás um picadinho feito com ossos de ratos, que tu comerás até moer os ossos; depois apanha a vasilha que ali está e encontrarás buza (bebida fermentada) que beberás. E ela se levantou, e comeu, e bebeu, e lavou as mãos; depois voltou e se deitou com o negro na palha dos juncos; e nua, aconchegou-se contra o negro, naqueles farrapos infectos.
Quando eu vi todas as coisas que a filha do meu tio fazia, não pude mais me conter e desci do alto da cúpula, precipitando-me na sala e arrancando a espada, resolvido a matar os dois infames. Comecei por ferir o negro no pescoço, e pensei que o havia transpassado.”


Nesse momento Sherazade viu aproximar-se a manhã e calou-se, discretamente. E quando surgiu a manhã, o rei entrou na sala de justiça e o Divã esteve abarrotado até o fim do dia. Depois o rei voltou ao seu palácio e Doniazade disse à irmã:

“Continua, te peço, a tua narração!” Ela respondeu: “De todo o coração.”

Oitava Noite, Mil e Uma Noites

Oitava Noite
Mil e Uma Noites


E QUANDO FOI NA OITAVA NOITE
Sherazade disse:

Contaram-me, ó Rei, que o rapaz encantado disse ao rei:
“Tendo ferido o negro, para cortar-lhe a cabeça, cortei-lhe, com efeito, a garganta, a pele e a carne e pensei tê-lo morto, porque ele principiou num estertor terrível e alto. E, a partir daquele momento, não sei mais o que se passou.
Mas, no dia seguinte, vi a filha do meu tio que tinha cortado os cabelos e vestido suas roupas de luto. Ela disse: “Não me censures pelo que vês, porque acabo de saber que minha mãe morreu, que meu pai foi morto na guerra e que um de meus irmãos morreu picado por um escorpião e que outro foi enterrado vivo na queda de um edifício.” A essas palavras eu não quis demonstrar coisa alguma e disse-lhe: “Faze o que acreditas necessário, porque não te proíbo.” E ela ficou fechada em seu luto, choros e acessos de sofrimento, que duraram um ano inteiro. Quando terminou o ano, ela me disse: “Quero construir para mim, em teu palácio, uma tumba em forma de zimbório, onde me isolarei na solidão e nas lágrimas, a qual chamarei de a Casa do Luto.” Respondi: “Faze o que julgas necessário.” E ela fez construir a casa, coberta por uma cúpula, contendo uma sepultura como uma escavação. Depois, transportou para ali o negro, que não morrera, mas ficara muito fraco e doente, e que não tinha mais nenhuma utilidade para a filha do meu tio. Mas aquilo não o impedia de beber todo o tempo vinho e buza. E desde o dia que fora ferido ele não podia mais falar, e continuava a viver, pois seu termo ainda não chegara. E ela, todos os dias, entrava no aposento dele, sob a cúpula, pela madrugada e à noite, e deixava-se tomar, a seu lado, de acessos de lágrimas e de loucura, dando-lhe bebidas e coisas fervidas. E não cessou de agir assim, de manhã e à noite, durante todo o segundo ano. Eu ia tendo paciência com ela durante todo esse tempo, mas um dia, entrando imprevistamente nos seus aposentos, encontrei-a chorando, ferindo o rosto, e lamentando-se:
“Se tornares a vir para perto da tua bem amada, então recolhe, por piedade, seus despojos mortais, em atenção à sua vida terrena, e dá-lhe o repouso do túmulo, onde tu queiras, mas perto de ti, se tornares a vir para tua bem-amada!
Tua voz! Que ela se lembre do meu nome de outrora, para me falar sobre o túmulo! Oh! Da minha sepultura não ouvirás senão o triste som do choque os meus ossos!”
Quando ela terminou seu lamento, eu lhe disse, a espada nua na mão: “Traidora, eis as palavras das pérfidas que renegam as ligações passadas e esmagam as amizades!” E levantando o braço, preparava-me para ferir, quando ela se levantou, subitamente e pronunciou palavras que não compreendi: “Que, pela virtude de minha feitiçaria, Alá te transforme metade pedra e metade homem!” Na mesma hora tomei a forma que vês. E não podia mais me mover, nem fazer gesto qualquer: dessa maneira, não sou nem morto nem vivo. Depois de me pôr neste estado, ela enfeitiçou as quatro ilhas do meu reino e transformou-as em montanhas com o lago no meio, e transformou meus súbditos em peixes. Mas isso não é tudo! Todos os dias ela me tortura, e me chicoteia com uma correia de couro e me dá cem chicotadas até fazer sangue! Depois me coloca, directamente sobre a pele, sob meus vestidos, uma veste de pele de camelo, cobrindo toda a minha parte superior!”
O jovem, depois dessas palavras, começou a chorar e recitou:
Na previsão da tua justiça e de teu julgamento, ó Senhor, espero com paciência, pois tal é tua vontade.
Sofro, porém, em minhas penas. E não tenho outro recurso além de ti, Alá, adorado pelo Profeta!
Então o rei voltou-se para o jovem e disse: “Tu juntaste uma pena a mais às minhas penas. Mas, dize-me onde está essa mulher?” Ele respondeu: “Na tumba com o negro, sob a cúpula. Vem aqui todos os dias e me aplica cem chicotadas, enquanto choro e grito e não posso fazer um movimento em minha defesa. Depois de ter me castigado, volta para junto do negro, levando-lhe de manhã e à noite vinhos e bebidas.”
Quando o rei ouviu aquelas palavras, disse: “Por Alá! Preciso que te preste um serviço memorável e um benefício que passará, depois de mim, ao domínio da história!” E nada mais disse a respeito, continuando a conversação até a aproximação da noite. Depois o rei se levantou e esperou que chegasse a hora dos feiticeiros. Então, despiu-se, cingiu a espada e se dirigiu para o lugar onde estava o negro. Viu, ali, as velas e os lampiões suspensos; viu, também, o incenso, os perfumes e todas as pomadas. E, subitamente, atirou-se sobre o negro, feriu-o e o trespassou, fazendo-o vomitar a alma. Depois, carregou-o nas costas e atirou-o ao fundo de um poço que havia no palácio. Voltou, vestiu-se com as roupas do negro e passeou um pouco sob a cúpula, brandindo na mão seu alfanje nu em todo seu comprimento. Depois do que, estendeu-se no mesmo lugar que o negro ocupava antes.
Ora, ao fim de uma hora veio a feiticeira, a depravada, para junto do jovem. Mal entrara, despiu o filho do seu tio, tomou de um chicote e bateu-lhe. Ele gritava: Ai! Ai! Chega! Tem piedade de mim!” Ela respondia: “E tu, tiveste piedade de mim? Poupaste meu amante? Não!” Então ela lhe vestiu a roupa de pele de camelo e colocou os outros trajes por cima. Isso feito, desceu para junto do negro, levando-lhe uma taça de vinho e a tigela das plantas cozidas. Entrou, choro e lamentou-se, dizendo: “Oh! Oh!” E disse: “Ó meu senhor, fala comigo! Ó meu senhor, conversa comigo!” Então, o novo negro, atravessando a língua na boca, pôs-se a imitar a maneira de falar dos negros e disse: “Ah! Ah! Não há força e poder senão pela vontade de Alá!” Quando ouviu aquelas palavras (depois de tanto tempo em que ele não mais falara), a mulher gritou de alegria e desmaiou; mas voltou a si e disse: “Meu senhor estará curado?” E o rei, disfarçando a voz, fazendo-a muito fraca, disse: “Libertina! Tu não mereces sequer que eu te dirija a palavra!” Ela disse: “Por que, então?” E ele respondeu: “Porque todos os dias não fazes senão castigar teu marido, e então ele grita e pede socorro e isso me tira o sono durante toda a noite e até de manhã. E teu marido não cessa de implorar e pedir graça, de tal forma que a voz dele me causa insónia. Sem tudo isso, há muito tempo teria recuperado as forças. E é justamente isso que me impede de te responder.” Ela falou: “Já que ordenas, o libertarei do estado em que ele se encontra!” E o rei disse: “Sim, liberta-o e devolve-me a tranquilidade!” Ela disse: “Ouço e obedeço!” Depois levantou-se e saiu da cúpula. Na entrada do palácio, apanhou uma tigela de cobre cheia de água e pronunciou sobre ela as palavras mágicas. A água começou a ferver, como ferve a água de uma marmita. E ela aspergiu o jovem dizendo: “Pela força das palavras pronunciadas, ordeno-te que saias dessa forma e que tomes tua forma primitiva.” E o jovem sacudiu-se e levantou-se, liberto. Então ela disse: “Vai-te e não voltes, senão te mato!” E atirou-lhe à face alguns insultos. Então ele se safou de suas mãos. E é tudo no que a ele se refere!
E ela voltou à cúpula e desceu ao interior e disse: “Meu senhor, levanta-te para que te veja!” E ele, muito fraco, disse: “Oh! Tu ainda nada fizeste! Não me devolveste senão uma parte da minha tranquilidade, mas não suprimiste a causa principal!” Ela disse: “Meu querido, mas qual é a causa principal?” Ele falou: “Os peixes do lago, que não são outra coisa senão os habitantes da antiga cidade e das quatro ilhas de outrora, não cessam toda a noite, à meia-noite, de levantar a cabeça para fora d’água e de fazer imprecações contra mim e ti. E isso me impede de recuperar minhas forças. Trata de libertá-los e então poderás buscar-me, pois certamente a saúde me terá voltado!”
Quando a desavergonhada ouviu aquelas palavras disse: “Meu senhor, coloco tua vontade sobre minha cabeça e nos meus olhos!” E tendo pronunciado o “em nome de Alá”, levantou-se, toda feliz, e se pôs a correr, chegando ao lago, apanhou um pouco d’água e...



Nesse momento, Sherazade, vendo surgir a manhã, parou discretamente sua narração.