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sexta-feira

A Bela Adormecida, conto de Charles Perrault


A Bela Adormecida

Era uma vez um Rei e uma Rainha que viviam muito tristes por não terem filhos. Fizeram tratamentos em termas de todo o mundo, promessas, peregrinações e devoções especiais. Experimentaram tudo, mas sem resultado. Até que um dia a Rainha ficou grávida e deu à luz uma menina.
Fizeram-lhe um baptismo magnífico. Foram escolhidas como madrinhas da Princesinha todas as fadas que foi possível encontrar no país (e encontraram-se sete), para que, com os dons que lhe concedessem, conforme era costume das fadas naquele tempo, a Princesa tivesse todas as perfeições possíveis e imagináveis.
Depois da cerimónia do baptismo, regressaram todos em cortejo ao palácio real, onde tinha sido preparado um grande banquete em honra das fadas. O lugar de cada uma tinha sido marcado com um estojo de ouro maciço que continha uma colher, um garfo e uma faca de ouro, enfeitado com diamantes e rubis.
Enquanto cada qual se sentava no seu lugar, chegou uma fada velha, que ninguém se tinha lembrado de convidar, pois havia mais de cinquenta anos que não saía da sua torre e todos pensavam que já estivesse morta. O Rei arranjou-lhe um lugar na mesa, mas não lhe foi possível dar-lhe um estojo de ouro maciço como o das outras, porque só haviam sido feitos sete, um para cada uma das sete fadas. A velha julgou que estavam a desprezá-la e resmungou entredentes palavras ameaçadoras.
Uma das jovens fadas, a que estava sentada ao seu lado, ouviu-a e, temendo que pudesse dar à Princesinha algum presente maléfico, mal todos se levantaram da mesa, foi-se esconder por detrás de um cortinado, para ser a última a falar e, deste modo, poder reparar o mal que a velha lhe viesse a fazer. Entretanto, as fadas começaram a desfiar os dons que traziam à princesa.
A mais jovem deu-lhe o condão de ser a mulher mais bonita do mundo; a segunda, o de ser boa como um anjo; a terceira, ter um encanto admirável em tudo o que fizesse; a quarta, dançar maravilhosamente; a quinta, cantar como um rouxinol; e a sexta, saber tocar qualquer instrumento musical com a máxima perfeição.
Chegada a sua vez, a velha fada disse, abanando a cabeça mais por despeito do que por velhice, que a Princesa espetaria o bico de um fuso na mão e, desse modo, morreria. Um tão terrível dom fez estremecer os presentes, e não houve quem não chorasse. Nesse preciso momento a jovem fada saiu de trás do cortinado e pronunciou em voz clara estas palavras:
- Rei e Rainha, tranquilizai-vos! A vossa filha não morrerá assim. Infelizmente, não tenho poder que chegue para desfazer tudo o que fez uma fada mais velha do que eu. Sim, a Princesinha picar-se-á na mão com um fuso, mas, em vez de morrer, apenas cairá num sono profundo que durará cem anos, findos os quais um príncipe virá acordá-la.
O Rei, desejoso de evitar a desgraça anunciada pela velha, mandou logo distribuir um edital em que se proibia, a quem quer que fosse, fiar com um fuso ou ter fusos em casa, sob pena de morte.
Passados quinze ou dezasseis anos, numa altura em que o Rei e a Rainha tinham ido para uma das suas casas de campo, aconteceu que a jovem Princesa, passeando pelo castelo de quarto em quarto, chegou ao cimo de uma torre. Aí, num pequeno sótão, encontrou uma simpática velha que estava sozinha a fiar.
- Que está a fazer, avozinha? - perguntou a Princesa.
- Estou a fiar, minha querida - respondeu-lhe a velha, que não a conhecia.
- Ah... Que bonito! - exclamou a Princesa. - Como se faz? Deixe-me experimentar, a ver se também sou capaz.
No seu entusiasmo, nem sequer teve tempo de pegar no fuso. O que a fada tinha anunciado, cumpriu-se e a jovem Princesa espetou a mão e caiu sem sentidos. A boa velha pôs-se a gritar por socorro. Acorreu gente de todo o lado. Salpicaram de água o rosto da Princesa, desapertaram-lhe os laços, deram-lhe pancadinhas nas mãos, esfregaram-lhe as têmporas com água-de-colónia, mas nada a fez voltar a si.
Então o Rei, que tinha subido depois de ouvir todo aquele rebuliço, lembrou-se do presságio das fadas. Mandou transportar a Princesa para o mais belo quarto do palácio e deitá-la numa cama bordada a ouro e prata. Parecia um anjo, tão bonita era. O desmaio não lhe alterara as cores: as faces permaneceram rosadas e os lábios cor de coral. Tinha os olhos fechados, mas podia sentir-se a respiração suave, o que significava que não morrera.
O Rei ordenou que a deixassem dormir tranquila, até que chegasse a sua hora de acordar. A fada boa que lhe salvara a vida, encontrava-se no reino de Mataquim, a doze mil léguas de distância, quando se verificou aquele incidente. Contudo, foi logo avisada por um anãozinho que calçava as botas das sete léguas. A fada partiu de imediato e, uma hora depois, viram-na chegar num carro de fogo, puxado por dragões.
O Rei deu-lhe o braço para a ajudar a descer do carro e a fada aprovou tudo o que ele tinha feito, mas, porque era muito previdente, pensou que, quando a Princesa acordasse, se sentiria perdida, se ficasse completamente sozinha naquele velho castelo.
Assim, tocou com a sua varinha em tudo o que se encontrava no castelo (excepto no Rei e na Rainha): governantas, damas de honor, criadas de quarto, cortesãos, oficiais, mordomos, cozinheiros, ajudantes, moços, guardas, pajens, escudeiros. Tocou também em todos os cavalos que havia nas cavalariças, nos grandes mastins de guarda e, por fim, na pequena Pufi, a cadelinha da Princesa, que estava junto dela na cama. Mal lhes tocou, todos adormeceram, para só acordarem quando a sua Princesa acordasse. Deste modo, todos estariam prontos a servi-la quando fosse necessário. Até os espetos que estavam ao lume cheios de perdizes e de faisões adormeceram; e o mesmo aconteceu com o lume.
Tudo isto se passou num instante: as Fadas são desembaraçadas nas suas tarefas.
Então o Rei e a Rainha, depois de terem beijado a sua querida filha sem a despertarem, saíram do castelo e decidiram proibir que alguém se aproximasse dali. Esta proibição não era necessária, pois dentro de um quarto de hora cresceu a toda a volta do parque uma tal quantidade de árvores, grandes e pequenas, de silvas e de tojos, tão emaranhados uns nos outros que nem animal, nem homem algum poderia passar. Assim, só se conseguiam ver as ameias das torres do castelo e mesmo só de muito longe.
Passados cem anos, o filho do rei que então reinava, e que pertencia a uma família diferente da da Princesa, passou por aqueles lugares à caça. Quis saber o que eram as torres que se avistavam sobre tão grande e tão densa floresta. Cada qual lhe repetia o que tinha ouvido dizer. Segundo uns, tratava-se de um velho castelo habitado por espíritos, segundo outros, todos os bruxos do país vinham celebrar ali as suas cerimónias mágicas. De acordo com a maioria das pessoas, o edifício era habitado por um ogre que para ali levava todas as crianças que conseguia apanhar, a fim de as comer confortavelmente e sem ser incomodado, pois só ele possuía o condão de abrir uma passagem através do bosque. O Príncipe não sabia em que havia de acreditar, até que um velho camponês lhe disse:
- Meu bom Príncipe, há mais de cinquenta anos ouvi o meu pai dizer que naquele castelo há uma Princesa, a mais bela do mundo. Deverá dormir durante cem anos e será acordada pelo filho de um Rei, ao qual está destinada.
Ao ouvir estas palavras, o jovem Príncipe sentiu uma grande emoção e decidiu sem hesitar que teria de ser ele a pôr fim a tão bela aventura. Levado pelo amor e pela glória, resolveu ir imediatamente saber o que realmente se passava.
Quando avançou em direcção ao bosque, as grandes árvores, as silvas e os tojos afastaram-se para o deixarem passar. Caminhou, sem dificuldade, em direcção ao castelo e, surpreendido, verificou que nenhum dos membros da sua comitiva tinha podido segui-lo, porque as árvores se voltavam a cerrar mal ele passava.
Entrou num grande pátio e tudo o que aí viu o enregelou de medo: um silêncio terrível, por todo o lado a imagem da morte. Corpos de homens e de animais, estendidos no chão, pareciam sem vida.

Atravessou um grande pátio, subiu a escadaria, entrou na sala dos guardas que permaneciam alinhados, ressonando ruidosamente. Passou por vários quartos cheios de fidalgos e de damas, todos adormecidos, uns de pé, outros sentados. Entrou depois num quarto todo dourado, onde viu, sobre uma cama, uma Princesa muito bela que parecia ter quinze ou dezasseis anos. Aproximou-se a tremer e ajoelhou-se a admirá-la. Então, chegado o fim do encantamento, a Princesa acordou e, olhando-o ternamente, disse-lhe:
- Sois vós, meu Príncipe? Demorastes muito tempo!
O Príncipe, fascinado com estas palavras, não sabia como demonstrar a sua alegria. Declarou-lhe simplesmente que a amava mais do que a si próprio. Sentia-se mais tímido do que ela, o que não é para admirar: a linda Princesa tivera muito tempo para sonhar com o que havia de lhe dizer, pois, segundo parece a boa Fada, durante tão longo sono, dera-lhe o prazer de ter bons sonhos. Havia quatro horas que conversavam e ainda não tinham dito metade das coisas que queriam dizer um ao outro.
Entretanto, todo o palácio tinha acordado com a Princesa. Cada um tratava do que lhe dizia respeito e, como não estavam apaixonados, estavam cheios de fome. A dama de honor disse à Princesa que a refeição estava servida. O Príncipe ajudou a Princesa a levantar-se. Estava magnificamente vestida e muito linda.
Passaram ao salão dos espelhos e aí jantaram, servidos pelos criados da Princesa. Os violinos e os oboés tocaram músicas antigas mas muito bonitas, embora tivessem estado quase cem anos sem se fazerem ouvir.
Terminada a refeição, celebrou-se o casamento. Os príncipes abriram o baile e a festa durou uma semana.


Charles Perrault

terça-feira

A bela adormecida, contos dos irmãos Grimm


A bela adormecida
contos dos irmãos Grimm

Há muito tempo atrás havia um Rei e uma Rainha que diziam todos os dias,
Ah, se nós tivéssemos uma criança! mas eles nunca tiveram uma. Aconteceu uma vez, quando a Rainha estava tomando banho, um sapo pulou para fora da água, saltou para a terra e disse para ela,
Seu desejo será realizado, antes que se passe um ano você terá uma filha.
O que o sapo tinha dito, aconteceu, e a Rainha teve a pequena menina que era tão linda que o Rei não podia se conter de felicidade e ordenou que uma grande festa fosse realizada. Ele convidou não somente seus parentes, amigos e familiares mas também as Fadas Madrinhas, para que elas pudessem ser gentis e agradáveis com a criança. Havia treze delas em seu reino, porém, como ele só tinha doze pratos dourados para comer, uma delas não foi convidada.
A festa foi realizada com todo esplendor, e quando chegou no final as Fadas Madrinhas concederam presentes mágicos ao bebê: uma ofereceu virtude, a outra beleza, a terceira riqueza e assim por diante com tudo no mundo que uma pessoa poderia desejar.

Quando onze delas já tinham cumprido suas promessas, de repente a décima terceira apareceu.
Ela queria se vingar por não ter sido convidada, e sem cumprimentar qualquer pessoa, ou olhar para ninguém, gritou em voz alta,
A filha do Rei deverá em seu décimo quinto aniversário picar o dedo com um fuso e cairá morta. E, sem dizer mais nenhuma palavra, virou-se e se retirou do local.
Todos ficaram chocados, mas a décima segunda, que ainda não havia oferecido o seu presente, adiantou-se e como não podia desfazer a maldição, mas, somente amenizá-la, disse,
Não será a morte, mas um sono profundo que durará cem anos, é o que acontecerá à princesa.
O Rei, que estava disposto a afastar a sua querida filha de tal maldição, deu ordens para que todo fuso do reino fosse destruída. Enquanto isso, os desejos das Fadas Madrinhas foram todos cumpridos para a jovem menina, porque ela era tão bela, modesta, de bom caráter e sábia que todos que a viam se encantavam por ela.

Aconteceu que, bem no dia de seu décimo quinto aniversário, o Rei e a Rainha não estavam em casa, e a jovem foi deixada no palácio totalmente sozinha. Então ela foi a todos os tipos de lugares, olhou nas salas e nos dormitórios exatamente como queria e por fim chegou até a uma velha torre. Ela subiu uma estreita escada em caracol e alcançou uma pequena porta. Uma pequena chave enferrujada estava na tranca, e quando ela virou a porta se abriu, e ali na pequena sala estava sentada uma velhinha com um fuso, muito ocupada fiando seu linho.
Bom dia, minha senhora, disse a filha do Rei, — o que você está fazendo?
Estou fiando, disse a velha apontou com a cabeça.
Que tipo de coisa é isto, que fica chacoalhando tão alegremente? disse a garota, que pegou o fuso e queria fiar também. Porém, mal tocou o fuso e a maldição se realizou e ela picou o dedo no fuso.
No momento em que sentiu a picada, ela caiu sobre a cama e ali permaneceu, e caiu em sono profundo. E este sono se estendeu por todo o palácio, o Rei e a Rainha, que tinham acabado de voltar pra casa, entraram no grande salão e começaram a dormir, e toda a corte com eles. Os cavalos também dormiram nos estábulo, os cães nos quintais, os pombos nos telhados e as moscas nas paredes. Até o fogo que estava crepitando começou a ficar calmo e a se apagar, a carne assada deixada para fritar, e o cozinheiro, que estava para puxar o cabelo de um serviçal porque ele havia esquecido de algo, o deixou e começou a dormir. O vento parou e as árvores que ficavam diante do castelo nem uma folha voltou a se mover.
Porém, em torno do castelo começou a crescer uma cerca de espinhos, que aumentava a cada ano, e que por fim cresceu até cobrir quase todo o castelo e ao redor dele, e então nada mais podia ser visto, nem mesmo a bandeira que estava no telhado. Mas a história da bela adormecida — Rosa do espinho, pois assim ela era chamada, correu o país, e então, de tempos em tempos, príncipes vieram e tentaram atravessar a cerca de espinhos para entrar no castelo.
Mas eles descobriram que era impossível, porque os espinhos eram bem presos juntos, como se tivessem mãos e os jovens ficavam presos neles, e não conseguiam se soltar, e tinham uma morte lastimável.
Após muitos e muitos anos um príncipe veio novamente ao reino e ouviu a história de um velhinho que falava sobre a cerca de espinhos, e que um castelo ficava atrás dela, na qual dormia uma princesa maravilhosamente bela, cujo nome era Rosa dos Espinhos, e que estava dormindo há centenas de anos, bem como o Rei e a Rainha e toda a corte estavam dormindo também. Ele havia ouvido também, de seu avô, que muitos princípes já tinham vindo, e já haviam tentado atravessar a cerca de espinhos, mas eles foram espetados pela cerca de espinho, e tiveram uma morte lastimável. Então o jovem disse, — Eu não tenho medo e irei ver a bela adormecida. O velhinho tentou dissuadi-lo como pode, mas, ele não deu ouvido a suas palavras.
Mas por essa época, os cem anos já haviam se passado, e o dia havia chegado quando A Bela Adormecida devia acordar novamente. Quando o filho do rei se aproximou da cerca de espinhos, não havia nada, além de flores grandes e belas, que se abriam e se separavam umas das outras, tudo de maneira muito ordenada, deixando-o passar sem machucá-lo, depois elas voltavam a se fechar como um espinheiro. No pátio do castelo ele viu os cavalos e os cães malhados que estavam deitados, dormindo; no teto estavam os pombos com suas cabecinhas protegidas por suas asas.
E quando ele entrou no castelo, as moscas estavam dormindo na parede, o cozinheiro, que estava ainda na cozinha, levantava a mão para agarrar o menino, e a criada estava sentada perto da galinha preta a qual ela ia depenar.
Depois, ele continuou andando, e tudo estava tão silencioso que até o ruído da respiração podia ser ouvido, e ele finalmente chegou à torre, e abriu a porta que dava para o pequeno cômodo onde A Bela Adormecida estava dormindo. Lá estava ela, tão linda, que ele não conseguia desviar olhos dela, então ele parou e deu um beijo nela. Porém, assim que ele a beijou, A Bela Adormecida abriu os olhos, e acordou, e olhou para ele bem suavemente.
Depois os dois desceram juntos, e o rei acordou, depois a rainha, e toda a corte, e olhavam uns para os outros totalmente espantados. E os cavalos que estavam no pátio ficaram de pé e se balançavam uns para os outros, os cães saltavam, e abanavam seus rabinhos, os pombos no telhado desprotegeram suas cabecinhas que estavam debaixo de suas asas, olharam ao redor, e voaram livres para os campos, as moscas da parede começaram a andar novamente, o fogareiro da cozinha queimava e tremeluzia e cozinhava a comida, o assado começou a girar e a fritar novamente, e o cozinheiro deu um tamanho tapa nas orelhas do garoto que ele começou a chorar, e a criada depenou a galinha e a deixou pronta para assar.

E então o casamento do príncipe com a Bela Adormecida foi celebrado com todo esplendor, e eles viveram felizes até o fim de seus dias.

sexta-feira

A Bela Adormecida


A Bela Adormecida

Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens, poderosos e ricos, mas pouco felizes, porque não tinham concretizado maior sonho deles: terem filhos.
— Se pudéssemos ter um filho! — suspirava o rei.
— E se Deus quisesse, que nascesse uma menina! —animava-se a rainha.
— E por que não gêmeos? — acrescentava o rei.
Mas os filhos não chegavam, e o casal real ficava cada vez mais triste. Não se alegravam nem com os bailes da corte, nem com as caçadas, nem com os gracejos dos bufões, e em todo o castelo reinava uma grande melancolia.
Mas, numa tarde de verão, a rainha foi banhar-se no riacho que passava no fundo do parque real. E, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha.
— Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: Antes que passe um ano a senhora dará à luz uma menina.
E a profecia da rã se concretizou, e meses depois a rainha deu a luz a uma linda menina.
O rei, que estava tão feliz, deu uma grande festa de batizado para a pequena princesa que se chamava Aurora.
Convidou uma multidão de súditos: parentes, amigos, nobres do reino e, como convidadas de honra, as treze fadas que viviam nos confins do reino. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
— Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se ofender. E uma fada ofendida…
O rei refletiu longamente e decidiu:
— Não convidaremos a décima terceira fada — disse, resoluto. — Talvez nem saiba que nasceu a nossa filha e que daremos uma festa. Assim, não teremos complicações.
Partiram somente doze mensageiros, com convites para doze fadas, conforme o rei resolvera.
No dia da festa, cada uma das fadas chegou perto do berço em que dormia a princesa Aurora e ofereceu à recém-nascida um presente maravilhoso.
— Será a mais bela moça do reino — disse a primeira fada, debruçando-se sobre o berço.
— E a de caráter mais justo — acrescentou a segunda.
— Terá riquezas a perder de vista — proclamou a terceira.
— Ninguém terá o coração mais caridoso que o seu — afirmou a quarta.
— A sua inteligência brilhará como um sol — comentou a quinta.
Onze fadas já tinham passado em frente ao berço e dado a pequena princesa um dom; faltava somente uma (entretida em tirar uma mancha do vestido, no qual um garçom desajeitado tinha virado uma taça de sorvete) quando chegou a décima terceira, aquela que não tinha sido convidada por falta de pratos de ouro.
Estava com a expressão muito sombria e ameaçadora, terrivelmente ofendida por ter sido excluída. Lançou um olhar maldoso para a princesa Aurora, que dormia tranqüila, e disse: — Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.
E foi embora, deixando um silêncio desanimador e os pais desesperados.
Então aproximou-se a décima segunda fada, que devia ainda oferecer seu presente.
— Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, Aurora não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo.
Passados os primeiros momentos de espanto e temor, o rei, decidiu tomar providências, mandou queimar todas as rocas do reino. E, daquele dia em diante, ninguém mais fiava, nem linho, nem algodão, nem lã. Ninguém além da torre do castelo.
Aurora crescia, e os presentes das fadas, apesar da maldição, estavam dando resultados. Era bonita, boa, gentil e caridosa, os súditos a adoravam.
No dia em que completou quinze anos, o rei e a rainha estavam ausentes, ocupados numa partida de caça. Talvez, quem sabe, em todo esse tempo tivessem até esquecido a profecia da fada malvada.
A princesa Aurora, porém, estava se aborrecendo por estar sozinha e começou a andar pelas salas do castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho.
Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou, maravilhada. Nunca tinha visto um fuso.
— Bom dia, vovozinha.
— Bom dia a você, linda garota.
— O que está fazendo? Que instrumento é esse?
Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar bonachão:
— Não está vendo? Estou fiando!
A princesa, fascinada, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
— Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também? Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Aurora furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.
Na mesma hora, aquele sono estranho se difundiu por todo o palácio.
Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça.
Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado.
Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos.
Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio.
Em volta do castelo surgiu rapidamente uma extensa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto.
Nem os muros apareciam, nem a ponte levadiça, nem as torres, nem a bandeira hasteada que pendia na torre mais alta.
Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história da princesa Aurora, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. A princesa Aurora, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel.


Alguns cavalheiros, mais audaciosos, tentaram sem êxito chegar ao castelo. A grande barreira de mato e espinheiros, cerrada e impenetrável, parecia animada por vontade própria: os galhos avançavam para cima dos coitados que tentavam passar: seguravam-nos, arranhavam-nos até fazê-los sangrar, e fechavam as mínimas frestas.
Aqueles que tinham sorte conseguiam escapar, voltando em condições lastimáveis, machucados e sangrando. Outros, mais teimosos, sacrificavam a própria vida.
Um dia, chegou nas redondezas um jovem príncipe, bonito e corajoso. Soube pelo bisavô a história da bela adormecida que, desde muitos anos, tantos jovens a procuravam em vão alcançar.
— Quero tentar também — disse o príncipe aos habitantes de uma aldeia pouco distante do castelo.
Aconselharam-no a não ir. — Ninguém nunca conseguiu!
— Outros jovens, fortes e corajosos como você, falharam…
— Alguns morreram entre os espinheiros…
— Desista!
Muitos foram, os que tentarem desanimá-lo.
No dia em que o príncipe decidiu satisfazer a sua vontade se completavam justamente os cem anos da festa do batizado e das predições das fadas. Chegara, finalmente, o dia em que a bela adormecida poderia despertar.
Quando o príncipe se encaminhou para o castelo viu que, no lugar das árvores e galhos cheios de espinhos, se estendiam aos milhares, bem espessas, enormes carreiras de flores perfumadas. E mais, aquela mata de flores cheirosas se abriu diante dele, como para encorajá-lo a prosseguir; e voltou a se fechar logo, após sua passagem.
O príncipe chegou em frente ao castelo. A ponte elevadiça estava abaixada e dois guardas dormiam ao lado do portão, apoiados nas armas. No pátio havia um grande número de cães, alguns deitados no chão, outros encostados nos cantos; os cavalos que ocupavam as estrebarias dormiam em pé.
Nas grandes salas do castelo reinava um silêncio tão profundo que o príncipe ouvia sua própria respiração, um pouco ofegante, ressoando naquela quietude. A cada passo do príncipe se levantavam nuvens de poeira.
Salões, escadarias, corredores, cozinha… Por toda parte, o mesmo espetáculo: gente que dormia nas mais estranhas posições.
O príncipe preambulou por longo tempo no castelo. Enfim, achou o portãozinho de ferro que levava à torre, subiu a escada e chegou ao quartinho em que dormia A princesa Aurora.
A princesa estava tão bela, com os cabelos soltos, espalhados nos travesseiros, o rosto rosado e risonho. O príncipe ficou deslumbrado. Logo que se recobrou se inclinou e deu-lhe um beijo.
Imediatamente, Aurora despertou, olhou par ao príncipe e sorriu.
Todo o reino também despertara naquele instante.
Acordou também o cozinheiro que assava a carne; o servente, bocejando, continuou lavando as louças, enquanto as damas da corte voltavam a enrolar seus cabelos.
O fogo das lareiras e dos braseiros subiu alto pelas chaminés, e o vento fazia murmurar as folhas das árvores. A vida voltara ao normal. Logo, o rei e a rainha correram à procura da filha e, ao encontrá-la, chorando, agradeceram ao príncipe por tê-la despertado do longo sono de cem anos.
O príncipe, então, pediu a mão da linda princesa em casamento que, por sua vez, já estava apaixonada pelo seu valente salvador.
Eles, então, se casaram e viveram felizes para sempre!