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sexta-feira

Quem ajuda o pardalito?, de António Torrado


Quem ajuda o pardalito?

Era um passarinho caído do ninho. Mais precisamente um pardal, um pardalito tontelas, de asas molhadas de medo.
Os irmãos tinham-no empurrado, sem querer, e ali estava ele, a pisar pela primeira vez o chão áspero que lhe feria o macio das patas. Dava saltinhos, a ensaiar o voo, mas ainda estava longe de saber voar. Que ia ser dele?
Viu uma formiga, a correr de um lado para o outro, e pediu-lhe, num fiozinho de choro:
- Ajuda-me.
Ela nem lhe respondeu, atarefada que andava, lá na vida dela.
Viu um besouro, a voar em círculos, e pediu-lhe:
- Ajuda-me.
Mas o besouro, talvez por culpa do motor barulhento que o sustinha no ar, nem lhe ligou.
Viu uma andorinha nem que uma seta, a rasar o chão, e pediu-lhe:
- Ajuda-me.
Mas já a andorinha ia muito longe, a apagar-se no céu.
Que ia ser dele?
Havia de vir um gato e dar-lhe uma sapatada.
Havia de vir uma cobra e dar-lhe uma picada.
Havia de vir um cão e dar-lhe uma dentada.
Mas veio uma menina que andava a colher amoras para dentro do chapéu de lona, e levou-o com ela.
O pardalito nem se atrevera a pedir-lhe ajuda. Ela é que o achara e ameigara nas mãos em concha, como se fosse em ninho.
Levou-o para casa. Deu-lhe pãozinho. Deu-lhe miminhos.
Eu conheço essa menina. E também o pardalito, agora um pardal pardalão que não se cansa de voar.
Mas por onde quer que ande, no seu agitado voo de pardal aventureiro, de uma coisa se não esquece. Todos os dias, à mesma hora, bate com o bico na vidraça da janela. A menina abre-a e dá-lhe as migalhas da merenda. Depois, o atrevido salta-lhe para o ombro e pica-lhe, num desafio de ternura, a polpa da orelha. A menina encolhe-se num riso e ele foge a gorjear de alegria.


António Torrado

Ovos frescos, de António Torrado


Ovos frescos



Era uma vez um açafate com ovos. Puseram-se à conversa. Eram ovos ainda frescos e tinham ambições. Um deles disse:
- Quem me dera a mim fazer-me em fios de ovos, a enfeitar um bolo...
- Não está má a pretensão - comentou um outro. - Pois eu preferia ajudar umas fatias douradas a ficar mais douradinhas.
- Fritos, não - cortou um terceiro. - Mas, numa gemada com açúcar, já eu entrava com gosto.
Outro ovo confessou:
- Gostava tanto de ser ovo estrelado. Estrelado vem de estrela... Deve ser bonito. Mas, não podendo ser, qualquer uso serve. Um ovo nunca passa despercebido.
Só faltava um.
- E tu o que queres ser? - perguntaram os outros.
- O ovo de Colombo.
Vamos fazer-lhe a vontade.
Como vocês sabem, Cristóvão Colombo descobriu a América. Quando regressou a Espanha, trazendo a notícia da sua descoberta, os fidalgos da corte, invejosos, desdenharam do feito. Isso também eles eram capazes. Bastava lá ir. Então, Colombo mostrou-lhes um ovo e disse-lhes:
- Ponham-no de pé.
Eles tentaram. Insistiram. Obstinaram-se.
- Não é possível - concluíram.
- Pois eu consigo - disse Colombo.
Muito ao de leve, bateu na mesa com a parte mais redonda e cheia do ovo, a casca amolgou-se, mas só um bocadinho, e o ovo ficou de pé.
- Que fácil - comentaram os fidalgos. - Isso também nós éramos capazes.
- Mas não o fizeram. Quem pôs o ovo de pé, quem descobriu um novo continente fui eu. Cabe-me o mérito a mim.
Aqui têm como eu fiz a vontade ao ovo que queria ser ovo de Colombo.
E agora? Agora, já satisfeito, vai juntar-se aos outros e, todos juntos, vão fazer uma omeleta.


António Torrado

Boa ideia mãe, de António Torrado


Boa ideia, mãe

Ele era muito distraído. Um cabeça-no-ar. Péssimo para fazer recados. Mas, mesmo assim, a mãe dele insistia:
- Ó Pedro, vai ali, se fazes favor, à mercearia do senhor Cosme e traz-me dois quilos de batatas.
O Pedro ia e voltava a correr com uma batata na mão.
- Então as outras? - perguntava a mãe.
- Já vou buscar, mãe - dizia o Pedro.
Nova corrida e nova batata. Trazia-as uma a uma...
- Ó filho, que trabalheira! Metia-las todas num saco e trazias, de uma só vez.
- Boa ideia, mãe. Para a próxima já sei.
O recado seguinte tinha a ver com o porco, que tinha ficado em observação no veterinário, por causa de umas vacinas, e que a mãe não tivera ainda tempo de ir buscar. Mandou o filho.
Quando o rapaz regressou sem o bicho, a mãe admirou-se.
- Fui metê-lo num saco e ele não quis - explicou o Pedro.
- Ó filho, trazia-lo para casa com um cordelinho amarrado pelo pé e tocáva-lo para diante com uma varinha.
- Boa ideia, mãe. Para a próxima já sei.
Pouco depois, a mãe mandou-o à feira para comprar um cântaro. Quando o Pedro chegou a casa trazia só a asa do cântaro, presa a um cordel. E ele, muito contente:
- Fiz como a mãe disse.
O que valia ao Pedro cabeça-no-ar é que a mãe tinha muita paciência. Ai dele se não tivesse!


António Torrado

A bola e os seus amigos, de António Torrado


A bola e os seus amigos


Veio uma bola pelo ar
que se pôs a saltitar
por cima deste papel.
Quem foi que lhe deu licença?

Houve um menino que a viu
e que correu a apanhá-la
ela então parou - fugir não fugiu
- e ficou à espera que o menino
com ela brincasse.
- Deixas que eu salte ao eixo?
- Pois decerto que deixo.

- E posso deitar-me sobre ti?
Não me empurras? Não me foges?
- Podes sim.
Sou bola boa. Redonda.
Não tenhas medo de mim.

Nisto, chegou-se uma menina
que perguntou:
- Esta bola é tua?
- Não sei! - respondeu o menino. - Pergunta-lhe a ela.

Falou então a bola:
- Sou vossa, de vocês dois, mas não me partam ao meio.
Era um perigo pois deixava de ser bola.
Brinquem, brinquem comigo. Não sirvo para outra coisa.
Mão de menino que em mim poisa
é mão de amigo.
Quantas mais mãos, mais amigos;
e eu, então, embora não pareça,
fico tão cheia de ar, de alegria,
que perco a cabeça.

Vieram mais meninos,
e a bola voou do chão,
andou de mão em mão
- é minha, é tua agora! -
saltou, correu, voltejou
e voou desta página para fora.


António Torrado

Laura e o papagaio, de António Torrado


Laura e o papagaio

O que eu vou contar, li no jornal. Era uma notícia. Passa a ser uma história.
Um senhora, chamada Laura, tinha uma sapataria. Para atrair a clientela, trouxera de casa um papagaio exótico e multicolor, uma raridade em forma de papagaio.
Uma vez, a loja foi assaltada. O ladrão, entre outros valores, levou-lhe o papagaio, a atracção da loja, por assim dizer o emblema vivo da sapataria.
A senhora Laura ficou desolada.
- Podiam ter-me roubado tudo, menos o papagaio - lamentava-se ela a toda a gente.
Na cidade onde isto se passou, o caso foi comentado. Aconteceu que uns garotos, que andavam pelos arredores, a apanhar caracóis, ouviram, vindo de um casebre isolado, uma vozinha inconfundível gritar:
- Laura! Laura! Laura!
Foram fazer queixa à esquadra. Vieram uma quantidade de polícias, que cercaram a casa, e atrás deles a dona da loja. Quando entraram no casebre e viram o papagaio, deram logo ordem de prisão ao vagabundo, que lá vivia.
Ele tentou desculpar-se, dizendo que tinha encontrado o papagaio, empoleirado numa vedação, mas as botas impecavelmente novas que o homem ostentava não deixaram margem para dúvidas.
Quando a senhora da sapataria, de olhos lacrimejantes, entrou, por sua vez, na casa do ladrão, o papagaio exclamou:
- Laura, Laura, até que enfim.
A história acaba bem, menos para o ladrão.
Comentário de um dos polícias que participou na captura: ?Quem rouba um papagaio que fala, o melhor é ensiná-lo a calar-se..."


António Torrado

Os entusiasmos do Evaristo, de António Torrado


Os entusiasmos do Evaristo

O meu amigo Evaristo é um entusiasta. No outro dia, íamos nós a passar por perto de uma feira dessas de altifalantes, tirinhos e carrosséis de cavalinhos - é mais uma corrida! é mais uma viagem! - quando ele me travou por um braço e perguntou, de olhos a brilhar de entusiasmo:
- Já te contei do meu projecto do carrossel gigante?
Desse não me lembrava. O Evaristo tem sempre tantos projectos no ar...
- Estou na fase dos cálculos e dos desenhos, mas não tarda que passe à prática. Vai ser um carrossel fantástico.
- Imagino - disse-lhe eu, só para dizer qualquer coisa.
- Tu conheces aqueles carrosséis maiores, que dão uma volta em oito? - perguntou-me o Evaristo.
Respondi-lhe que tinha uma ideia. Faz tantos anos que não ando de carrossel...
- Pois o meu carrossel vai ser qualquer do género. Oito vezes oito...
- Sessenta e quatro - respondi-lhe, como se estivesse na escola.
- Mais, muito mais! Oito vezes oito, vezes oito, vezes oito...
- Tantas contas de cabeça não consigo acompanhar - queixei-me eu.
- Quero eu dizer que vai ser um carrossel imenso, coisa nunca vista - disse o Evaristo. - Mas primeiro tenho de comprar um sobretudo.
Um sobretudo? Que relação teria o sobretudo com o carrossel gigante? O meu amigo Evaristo imagina a uma tal velocidade, que me deixa sempre pelo caminho.
- Um sobretudo forrado e um gorro de pele - acrescentou ele. - Para ir ao Pólo Norte. Ou ao Pólo Sul. Tanto faz.
Fiquei abismado. Aquele carrossel estava a dar-lhe a volta à cabeça.
- Percebeste onde quero chegar? Ao eixo da Terra. Fixo o meu carrossel ao eixo da Terra, à roda do qual gira o nosso planeta, e nem preciso de imprimir-lhe velocidade. A Terra roda, o carrossel mantém-se parado, mas esta é que é a parte mais importante da minha invenção: os passageiros do meu carrossel têm a ilusão de que são eles que estão a andar. Percebeste?
Eu estava a perceber. Lindamente.
- É, além do mais, uma ideia muito económica, porque se poupa na electricidade, que faz andar os restantes carrosséis. O meu carrossel, preso ao eixo da Terra, suspenso lá em cima, vê a Terra rodar por baixo. O que é que achas?
Eu achava bem. O projecto tinha lógica. E parecia simples...
- Ponho as pessoas a dar a volta ao mundo de carrossel. Vai ser maravilhoso.
Eu não duvidava. E do que valeria a pena duvidar de uma ideia do Evaristo?
Voltei a encontrá-lo, ontem. Claro que lhe perguntei logo pelo carrossel, se já estava mais avançado o projecto, se já tinha comprado o sobretudo...
- Troquei a ideia do carrossel por outra melhor - disse-me o Evaristo, muito entusiasmado. - É uma roda gigante.
- Como aquela, com barquinhas penduradas, que há na Feira Popular? - quis eu saber.
- Essa é uma miniatura comparada com a minha roda, que estou a calcular, aqui entre nós... - e o Evaristo puxou-me pelo braço e falou-me ao ouvido, com ar de história secreta.
Tomei muita atenção ao segredo dele:
- Estou a calcular que consiga tocar a Lua com a minha roda gigante. Estás a ver: embarca-se na Terra e, meia volta depois, está-se na Lua. Sem despesa de foguetões nem nada. Uma limpeza!
Outra ideia feliz. Mas, sem querer parecer desmancha-prazeres, indaguei:
- E, desta vez, onde colocas tu o eixo da roda? Em que ponto do espaço, que fique a meio caminho entre a Terra e a Lua?
- Falta só resolver esse pormenor, para avançar - tranquilizou-me o Evaristo. - Mas, no resto, acho que já adiantei muito.
E lá seguiu, muito entusiasmado com o seu projecto.

António Torrado


Os esquilos Danilos e a ponte nova, de António Torrado


Os esquilos Danilos e a ponte nova

Os dois esquilos Danilos - Danilo Pai e Danilo Filho - são muito viajados.
Numa das suas viagens, tiveram de atravessar um rio. Quando chegaram à ponte e viram a ponte partida, não desanimaram.
- Por aí adiante, mais coisa menos coisa, deve haver outra ponte nova - lembrou-se um dos esquilos Danilos.
E foram à procura da ponte. Só que, por azar, não tomaram o caminho certo. Foram no sentido contrário.
Quando passaram por uma rã, perguntaram-lhe:
- Sabe onde fica a ponte nova?
- Ponte? É coisa de que não preciso - e a rã saltou para a água.
Depois encontraram um sapo e perguntaram-lhe:
- Sabe onde fica a ponte nova?
- Por aí... Por aí... - respondeu o sapo, quase sem fechar a boca.
O sapo estava de língua estendida, à espera de que algum mosquito nela poisasse, e não lhe convinha muita conversa.
Depois encontraram um grilo e perguntaram-lhe:
- Sabe onde fica a ponte nova?
- Ponte nova, ponte nova
quem não sabe não se assoa.
Dão-me tema e faço a trova
nem que a rima seja à toa.

Ponte nova, ponte nova
pontapé e ponto-de-cruz
quem tais versos não aprova
cai no chão e catrapus!

Do grilo poeta também não levavam nada. E como já estavam cansados de andar pela margem do rio, os dois esquilos Danilos - Danilo Pai e Danilo Filho - decidiram fazer uma jangada. Juntaram umas canas, amarraram-nas com raízes e saltaram-lhe para cima.
A princípio não houve novidade, mas como a corrente do rio era cada vez mais forte, os dois esquilos perderam o domínio da jangada.
- Socorro! - gritavam. - Atirem-nos uma corda.
Da margem, o grilo, indiferente ao pedido, fazia versos:
- Uma corda ou um cordel
um cordel ou uma cordinha
quem tem lápis, tem papel
quem não tem, é porque tinha...
- Socorro! - gritavam, depois, para o sapo na margem. - Uma corda...
- Por aí... Por aí... - respondeu o sapo, sem se mexer, e quase sem fechar a boca.
- Socorro! - gritavam para a rã, pouco depois. - Lance-nos uma corda.
- Uma corda? Nunca precisei de tal coisa! - e a rã mergulhou.
Passaram a seguir, a toda a velocidade, pelo meio da velha ponte destroçada, e mais adiante deram finalmente com a ponte nova. De um salto - porque os dois esquilos Danilos eram ágeis - agarraram-se à ponte e treparam para o tabuleiro. A jangada, essa, continuou correndo, ao sabor da corrente...
- Conseguimos - exclamou o Danilo Filho para o Danilo Pai, enquanto se sacudia da água.
- Mais coisa menos coisa, conseguimos sempre - aprovou o Danilo Pai, alisando o pêlo.
E os dois esquilos Danilos prosseguiram viagem.


António Torrado

Tintim por tintim, de António Torrado


Tintim por tintim

O rapazinho entrou, à pressa, na biblioteca e pediu:
- Têm livros de cozinha?
O bibliotecário levou-o a uma prateleira, onde havia uma quantidade de livros de receitas ou para fazer doces ou para preparar grandes banquetes ou para cozinhar pratos que não engordem...
O rapazinho folheou uns, folheou outros, mas não se decidia. Pacientemente, o bibliotecário esperou e, de caminho, ia informando:
- Este é de comida regional... Este é só de saladas... Este é de comida japonesa...
Tantos livros de cozinha! Uma pessoa, a lê-los, até pode apanhar uma indigestão.
O rapazinho é que não havia meio de escolher.
- É para um trabalho para a tua escola? - perguntou o bibliotecário.
- Não é, não.
Silêncio entre os dois. E o rapazinho sempre a folhear este e aquele, numa grande indecisão.
Neste ponto, o bibliotecário resolveu ir mais longe:
- Para que queres, então, um livro de cozinha?
Aqui, o rapazinho esclareceu, um pouco embaraçado:
- Queria estrelar um ovo e não sei se hei-de deitar primeiro, na frigideira, o ovo ou a margarina...
O bibliotecário fez um ?Ah" de admiração e aprontou-se a responder:
- Primeiro deitas a margarina e esperas que ela derreta. E cuidado com o bico do gás. Lume brando. Só depois é que deitas o ovo.
- Ah! - foi, agora, a vez de fazer o rapazinho.
Largou os livros de cozinha e já se ia embora, quando o bibliotecário lhe perguntou:
- Não queres, então, levar outro livro? Um livro de histórias, por exemplo?
- Só se for com histórias pequenas - disse o rapazinho.
O bibliotecário emprestou-lhe um livro, onde esta e outras histórias que tais bem podiam estar e a nossa pequena história talvez acabasse aqui.
Não acaba, porque o rapazinho não conseguiu estrelar o ovo, apesar de ter seguido à risca as recomendações do bibliotecário: lume brando, margarina a derreter-se... ovo, no fim.
Mas como o rapazinho deitou o ovo inteiro, com casca e tudo, para dentro da frigideira, o cozinhado não ficou grande coisa.
Em certas ocasiões, tem de se explicar tudo, tintim por tintim.


António Torrado

Onde vamos passar as férias, de António Torrado


Onde vamos passar as férias

O macaco, o beija-flor e o grilo eram amigos, muito amigos, mas nem sempre se entendiam. Acontece...
Uma vez, decidiram passar férias juntos.
- Vamos escolher o sítio mais lindo do mundo - concordaram os três. Mas onde?
- Tenho uma ideia - disse o macaco. - Vamos para um armazém de bananas. Os outros não eram da mesma opinião.
- A minha ideia é melhor - disse o beija-flor. - Vamos para um jardim cheio de flores, carregadinhas de néctar, para nós sorvermos.
Os outros não eram da mesma opinião. O macaco e o grilo não se imaginavam a voar, de flor em flor, nem nunca tinham aprendido tal habilidade.
- A minha ideia é a melhor de todas - disse o grilo. - Venham atrás de mim. Seguiram-no. Não foram longe.
- Têm de concordar que este sítio, onde vos trouxe, é o mais lindo do mundo. Apreciem! - e o grilo apontava para uma toca de madeira podre, no meio de um monturo.
E ainda não foi daquela vez que o macaco, o beija-flor e o grilo passaram as férias juntos. Mas continuaram amigos.


António Torrado

O dragão das nove e trinta, de António Torrado


O dragão das nove e trinta

Leva uma rica vida o dragão da minha história. É verde, como dizem que são os dragões, tem escamas que o cobrem de cima a baixo e uma espinha eriçada em dentes de serra, do pescoço ao rabo. Como se vê, é um dragão vulgar.
Agora imaginem-no, como eu imagino, carregado de meninos. Imaginar não custa nada.
Nestes dias de Verão, por volta das nove e trinta, passa pela minha rua, deitando muito fumo pelas ventas, o dragão de que vos falo.
Pára nas paragens dos autocarros e para ele sobem os meninos em férias. Quando estão todos instalados, o dragão buzina alegremente e põe-se a andar. Não sabiam que os dragões buzinavam? Pois buzinam, mas só quando estão bem-dispostos.
Com o seu carregamento de meninos, o dragão toma o caminho da praia. Corre ao lado do comboio, que também leva o mesmo sentido, e quase sempre chega primeiro.
Na praia, assim que o último menino salta para a areia, o dragão mete-se dentro de água, faz-se pequenino e transforma-se num hipocampo, isto é, num cavalo-marinho, para poder nadar sem chamar a atenção. Perder a banhoca é que nunca!
Ao fim da tarde, volta a crescer e a apresentar-se como um dragão aprumado e responsável, que nunca se esquece de que tem de trazer os meninos de volta para casa.
À noite, trabalha na Feira Popular. Como tem uma bocarra lança-chamas, ocupa-se a assar frangos ou sardinhas. E, sempre que pode, vai dar uma voltinha no carrossel. Rica vida!


António Torrado

Um peixe na sala, de António Torrado


Um peixe na sala

- Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.
Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.
Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.
- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.
E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.
A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.
Mas a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:
- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?
Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:
- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.
Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.
Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.
Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.
- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.
Nenhum queria.
- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram.
O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.
Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.


António Torrado

A horta do Esteves, de António Torrado


A horta do Esteves

Dois coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor Esteves.
- Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... - dizia o coelho mais novo.
- Mas não te chegues - aconselhava-o o coelho mais velho. - O Esteves, se te apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.
- Uma folha só, que mal faz? - dizia o mais novo.
E ia-se chegando para a horta.
- Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras - gritava-lhe, já de longe, o coelho mais velho. - Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo, de recordação, um chumbo na perna.
Mas o coelho mais novo já não o ouviu.
O mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.
- A espingarda do Esteves - exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada com ele.
Não correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num brejo, esperou.
O amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco, entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.
- Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos - dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as feridas.
O coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.
- Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? - perguntou o mais velho, a fingir indiferença.
- Mal provei - suspirou o coelhinho
- O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava um coelho que avisasse os mais novos - concluiu o velho coelho e concluiu muito bem.

António Torrado

O castelo de areia, de António Torrado


O castelo de areia

Era uma praia muito carregada de gente. Toldos e barracas de lona tapavam a vista do mar. Chapéus-de-sol, em cacho, uns sobre os outros, tapavam a vista do céu.
Para que um banhista, mesmo magrinho, conseguisse estender a toalha de banho sobre a areia, tinha de pedir ?Com licença, com licença" aos vizinhos, para que se chegassem um pouco mais para o lado. Então, toda a praia se movia, à esquerda e à direita, como uma onda e as pessoas, sucessivamente, diziam ?Com licença, com licença", a pedirem espaço ao vizinho do lado, até nos dois extremos da praia os últimos banhistas gritarem: ?Não apertem mais!" E estes últimos banhistas acabavam por ter de ficar em pé, de encontro à muralha.
- Quero fazer um castelo de areia - disse o menino, que tinha trazido para a praia um balde novo e uma pá e um ancinho.
- Só quando o teu pai for tomar banho - disse a mãe.
- Para que lado é que é a água? - perguntou o pai.
- Acho que é para ali - apontou a mãe. - Foi donde veio ainda agora aquele senhor, que está a limpar-se.
O pai, para ter a certeza, foi perguntar ao tal senhor:
- O mar estava bom?
- Não sei - respondeu o senhor, que esfregava furiosamente a cabeça com uma toalha. - Não encontrei mar nenhum. Para me refrescar, tive de ir tomar duche a um balneário.
- Se fosse a ti não saía de ao pé de nós - disse a mãe do menino. - Vais e, depois nunca mais nos encontras, no meio de tanta gente.
- Então quando é que eu faço o castelo de areia? - perguntou o menino, já amuado.
- Descansa que eu vou já tomar banho - disse o pai. - Para voltar, oriento-me pela cor do nosso chapéu-de-sol.
- Há milhares de chapéus-de-sol iguais - disse a mãe, mas o marido dela e pai do menino já ia longe.
Ia, todo satisfeito, a caminho do mar, embora só muito mais tarde viesse a descobrir, quando chegou à estrada, que se tinha enganado.
O menino pôs-se a construir o castelo de areia, cheio de entusiasmo. Depois de ter erguido o torreão e a primeira cintura de ameias, lembrou-se de pedir à mãe:
- Quero um gelado.
A mãe escusou-se, explicando-lhe que se ela fosse procurar a barraca dos gelados, ia ser muito difícil depois dar de novo com o sítio onde estavam.
Mas o menino insistiu tanto, que ela acedeu.
No bocado de areia deixado livre pela mãe, o menino acrescentou ao castelo uma segunda cintura de muralhas e um fosso todo à volta. Estava um trabalho perfeito e já com uma certa dimensão.
Passou que tempos.
- Estou cheio de fome - gritou o menino, sem tirar os olhos da sua construção, que já tinha preenchido todo o espaço disponível.
Um par de namorados, que estava estendido ao lado, condoeu-se daquele menino, que se perdera dos pais, e foi procurar o cabo-do-mar, para dar-lhe conta da ocorrência. Os namorados partiram de mão dada, tendo a mãe da rapariga recomendado que não se demorassem.
Pois sim. A verdade é que se demoraram, tanto que a mãe da rapariga, muito enervada, resolveu ir à cata deles, pela praia fora.
A obra crescia a olhos vistos. Era um imponente amuralhado com várias cercas e fossas, torres anexas e trincheiras defensivas, esculpidas com primor pelos dedos hábeis do menino, esquecido de tudo o mais à sua volta.
Preenchia uma importante extensão de terreno, que até parecia impossível que, no aperto de tanta gente, ainda houvesse um quadrado de areia disponível para um menino brincar tão à vontade.
Declinava o sol, quando o pai regressou, tiritando. Logo a seguir apareceu a mãe, com um gelado todo derretido. Abraçaram-se, como se já tivessem perdido a esperança de voltarem a encontrar-se.
- Este dia correu muito mal - concordaram os pais.
Só o menino não era da mesma opinião.

António Torrado

Por bem, de António Torrado


Por bem

Uma galinha, um pato, um cão e um burro iam a fugir por uma estrada fora. Corta-lhes a correria um polícia:
- Alto lá, seus fugitivos. Para irem com essa pressa, alguma maroteira fizeram.
Eles protestaram que não, mas o polícia, desconfiado, quis saber pormenores. Então, a galinha explicou:
- Eu ia a fugir, porque ontem ouvi que iam fazer canja, lá em casa.
Ao que o pato acrescentou:
- E depois da canja, pato com arroz...
O cão explicou:
- O meu dono ia mandar-me para o canil.
- E o meu dizia que eu estava velho e ia mandar-me abater - disse o burro.
- Mas comigo ainda podes - disse o polícia, saltando-lhe para os costados.
Presa a cada mão, trazia o pato e a galinha. Salvara-se o cão, que o polícia não teve maneira de prender.
- Toca a andar para a esquadra - comandou o polícia. - Vai tudo preso.
O burro, habituado a obedecer, obedeceu. Mas o cão, que se safara, é que não se conformou. Deu uma valente mordidela numa das patas do burro, que escoiceou. O polícia caiu ao chão e largou a galinha mais o pato.
Correram os bichos. Mal refeito da queda, o polícia não teve forças para persegui-los.
- Desculpa a dentada - disse o cão ao burro, quando se viram a salvo. - Mas foi por bem.
- Não tem importância - respondeu o burro, a mostrar os grandes dentes, num riso de felicidade. - Há coisas que ardem, mas curam.

António Torrado