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domingo

Molly Whuppie, de Joseph Jacobs


Molly Whuppie
Joseph Jacobs

Era uma vez um homem e uma mulher que tinham filhos demais e não conseguiam comida para eles. Pegaram então os três menores e os abandonaram na mata. As crianças andaram, andaram, sem nunca avistar uma casa. Logo começou a escurecer, e ficaram com fome. Finalmente viram uma luz e caminharam rumo a ela; era uma casa. Bateram à porta e apareceu uma mulher, que perguntou:

“O que desejam?”

E elas responderam:

“Por favor, deixe-nos entrar e nos dê alguma coisa para comer:’ A mulher disse:
“Não posso, porque meu marido é um gigante, e se chegasse em casa comeria vocês.” Elas imploraram: “Deixe-nos descansar só um pouquinho”, disseram, “e iremos embora antes que ele chegue.” Ela as deixou entrar, instalou-as diante do fogo e deu-lhes leite e pão; mas as crianças mal tinham começado a comer quando se ouviu uma batida muito forte à porta, e uma voz pavorosa disse:

“Fi-feu-fo-fum, farejo o sangue de um mortal. Quem está aí com você, mulher?”
“Hum”, disse a mulher, “são três pobres meninas com frio e com fome, e já vão embora. Não toque nelas, homem:’

Ele não disse nada, mas devorou um lauto jantar e ordenou que elas passassem a noite toda ali. Ora, ele também tinha três meninas, e elas iam dormir na mesma cama que as três forasteiras.A mais nova das três meninas estranhas chamava-se Molly Whuppie e era muito esperta. Ela notou que, antes de irem para a cama, o gigante passou cordas de palha em volta do seu pescoço e do das irmãs, e correntes de ouro em volta do pescoço das próprias filhas. Assim, Molly ficou atenta e não dormiu, esperando até se certificar de que todos estavam mergulhados num sono pesado. Depois se esgueirou da cama, soltou as cordas de palha do seu pescoço e do das irmãs e tirou as correntes de ouro do das filhas do gigante. Pôs então as cordas de palha nas meninas do gigante e as de ouro em si mesma e nas irmãs e se deitou.

No meio da noite o gigante se levantou, armado de um enorme porrete, e procurou os pescoços com a palha. Estava escuro. Ele tirou as filhas da cama e, no chão, surrou-as até matá-las, depois foi de novo se deitar, pensando que tinha se dado bem. Molly, achando que era hora de cair fora dali com as irmãs, acordou-as, disse-lhes que ficassem bem quietinhas, e todas fugiram sorrateiramente da casa.

Saíram sãs e salvas e correram, correram, sem nunca parar até de manhã, quando viram uma magnífica casa diante de si. Era a casa de um rei; Molly entrou e contou sua história ao rei. Ele disse: “Bem, Molly, você é uma menina esperta e realizou uma proeza; mas se quisesse realizar uma proeza maior ainda, e voltar para furtar a espada do gigante, que fica pendurada atrás da cama dele, eu daria meu filho mais velho em casamento à sua irmã mais velha.” Molly disse que tentaria. Assim ela voltou, conseguiu penetrar na casa do gigante e se meteu debaixo da cama. O gigante chegou em casa, comeu um lauto jantar e foi se deitar. Molly esperou que ele começasse a roncar e avançou furtivamente, esticou o braço por cima dele e pegou a espada; mas no instante em a passava sobre a cama, ela tilintou.

O gigante deu um pulo e Molly saiu porta afora, levando a espada. Correu, correu, até que chegou à Ponte de um Cabelo. Molly conseguiu passar, mas o gigante não, e disse:”Maldita seja, MollyWhuppie! Nunca mais volte aqui.” E ela respondeu: “Duas até agora, grandalhão, vou-me embora para a Espanha:’ Assim, Molly levou a espada para o rei e sua irmã se casou com o filho dele.

“Bem”, o rei disse, “você realizou uma proeza; mas se realizasse uma ainda maior e furtasse a bolsa que fica debaixo do travesseiro do gigante eu casaria sua segunda irmã com meu segundo filho.” E Molly disse que tentaria.

Assim, partiu para a casa do gigante, entrou nela de mansinho, escondeu-se de novo debaixo da cama, e esperou o gigante terminar seu jantar e roncar num sono profundo. Saiu do seu esconderijo, enfiou a mão debaixo do travesseiro e puxou a bolsa. Mas no instante em que estava saindo o gigante acordou e correu atrás dela. E ela correu, e ele correu, até que chegaram à Ponte de uni Cabelo, e ela passou, mas ele não conseguiu, e disse: “Maldita seja, Molly Whuppie! Nunca mais volte aqui.”
“Mais uma vez, grandalhão”, ela exclamou, “vou-me embora para a Espanha:’

Assim Molly levou a bolsa para o rei, e sua segunda irmã se casou com o segundo filho do rei. O rei disse então a Molly: “Molly, você é uma menina esperta, mas se fizesse melhor ainda e furtasse o anel que o gigante usa no dedo eu lhe daria meu filho mais moço em casamento.” Molly disse que tentaria.

Assim, lá foi ela de novo para a casa do gigante, e se escondeu debaixo da cama. O gigante não demorou muito a chegar e, depois de dar cabo de um lautíssimo jantar, foi para a cama e logo estava roncando alto. Molly se esgueirou, esticou o braço por cima da cama, segurou a mão do gigante e puxou, puxou até conseguir arrancar o anel. Mas no instante em que o pegou, o gigante acordou, agarrou-a pela mão e disse: “Desta vez peguei você, MollyWhuppie, e, se eu lhe fizesse tanto mal quanto me fez, o que faria comigo?”

Molly disse: “Enfiaria você num saco e meteria junto lá dentro o gato, e mais o cachorro, e uma agulha e linha e tesoura, e penduraria você na parede, e iria até a mata, e escolheria a vara mais grossa que pudesse encontrar, e voltaria para casa, despenduraria você e surraria até que morresse.” “Bem, Molly,” disse o gigante, “é isso mesmo que vou fazer com você:’ Apanhou um saco e enfiou Molly dentro, e junto com ela o gato e o cachorro, e uma agulha e linha e tesoura. Pendurou o saco na parede e foi para amata escolher uma vara. Quanto a Molly, ela cantou: “Ah, se visse o que estou vendo!”
“Oh!”, perguntou a mulher do gigante. “O que está vendo, Molly?”
Mas Molly não dizia uma palavra a não ser: “Ah, se visse o que estou vendo!”
A mulher do gigante implorou a Molly que a deixasse entrar no saco para ver o que ela estava vendo. Assim, Molly pegou a tesoura e cortou um buraco no saco e, levando consigo a agulha e a linha, pulou fora, ajudou a mulher do gigante a se enfiar lá dentro e costurou o buraco. A mulher do gigante não viu patavina, e começou a pedir para sair de novo. Mas Molly não fez o menor caso e tratou de se esconder atrás da porta.

Eis que chegou o gigante, uma árvore enorme na mão, e desceu o saco e começou a surrá-lo. Sua mulher gritava “Sou eu, homem”, mas o cachorro latia e o gato miava e ele não reconheceu a voz da esposa. Então Molly saiu de detrás da porta e o gigante a viu e saiu atrás dela; e ele correu, e ela correu, até que chegaram à Ponte de um Cabelo, e ela passou mas ele não pôde. E ele disse: “Maldita seja, MoilyWhuppie! Nunca mais volte aqui.

“Nunca mais, grandalhão”, ela exclamou. “Vou-me embora de novo para a Espanha:’
Assim Molly levou o anel para o rei e se casou com o seu filho caçula e nunca mais viu o gigante de novo.
Joseph Jacobs

(versão brasileira)

Tiquinho de Carvão, de Joseph Jacobs


Tiquinho de Carvão
Joseph Jacobs

Uma senhora fez, um dia, cinco tortas. Quando elas saíram do forno, estavam tão duras que não podiam ser comidas. Por isso, a senhora disse à filha: "Querida, ponha as tortas na prateleira e deixe-as lá, descansando um pouco, para ver se amolecem." A mocinha, que era muito gulosa, disse consigo mesma: "Pois sim, eu vou comê-las de uma só vez". E comeu-as, da primeira à última. Mais tarde, quando acabaram de jantar, a senhora disse à filha: "Vá buscar uma daquelas tortas. Agora já poderemos comê-la." A moça levantou-se da mesa, foi até a prateleira, onde só havia pratos vazios, voltou e disse à mãe: "As tortas ainda não amoleceram." "Nenhuma delas?" perguntou a senhora. "Nenhuma!" respondeu a moça. "Bem, volte lá e traga-me uma de qualquer maneira. Quero comê-la assim mesmo." resolveu a senhora. "Mas é impossível, ainda estão muito duras." continuou a filha. "Não faz mal", respondeu a mãe. "Veja a que estiver melhor." "Melhor ou pior, você não poderá comer nenhuma, porque eu comi todas." explicou a moça. A senhora ficou muito aborrecida. Apanhou a roca* e foi fiar na varanda. Enquanto fiava, ia falando alto: "Que vergonha! Minha filha comeu cinco tortas de uma só vez..."

O Rei tinha saído para passear. Quando passou pela porta da casa da senhora, como não entendesse o que ela estava dizendo, parou e perguntou-lhe: "O que você está dizendo, boa mulher?" Ela, com vergonha do que a filha tinha feito, respondeu: "Eu estava dizendo que minha filha hoje fiou cinco meadas de linha, meu Rei!" "Céus!" exclamou o Rei. "Nunca ouvi dizer que alguém conseguisse fazer tal coisa. Escute, eu preciso de uma esposa prendada e casar-me-ei com sua filha. Preste, porém, muita atenção: durante onze meses no ano, ela poderá comer o que desejar, usará as roupas que quiser e terá as companhias que mais lhe agradarem. Entretanto, no último mês do ano, ela terá que fiar cinco meadas de linha por dia ou, então, mandarei matá-la." "Muito bem!" disse a senhora, que estava pensando apenas nas vantagens de ter a filha casada com o rei. Quanto às cinco meadas que ela teria que fiar em cada dia do último mês, bem... depois ela encontraria uma solução. Quem sabe, até lá, o Rei poderia esquecer-se disso...

Casaram-se, então, o Rei e a mocinha. Durante onze meses, de fato, ela comeu coisas gostosas, usou roupas bonitas e teve companhias agradáveis. Quando já ia se aproximando o décimo segundo mês, ela começou a pensar de que modo se arranjaria para fiar cinco meadas por dia. Como, porém, o rei não se referisse ao assunto, ela pensou que ele o tivesse esquecido. Todavia, no último dia do décimo primeiro mês, ele a levou a um quarto que ela nunca tinha visto, onde havia uma roca e um banco. O Rei explicou-lhe: "Amanhã, minha querida, você virá para aqui, onde passará todo o mês, fiando cinco meadas por dia. Um empregado trará suas refeições e, à noite, eu virei recolher sua tarefa. Se não estiver pronta, já sabe o que lhe acontecerá, não é?" Dito isso, retirou-se. A moça ficou muito nervosa. Ela nunca soubera fiar. Que seria dela, sem ter quem a ajudasse? Foi até a cozinha e sentou-se num banco, chorando. Daí a momentos, ouviu uma pancada leve na porta. Levantou-se e abriu-a. O que viu foi simplesmente um animalzinho preto, muito pequeno e esquisito, com uma cauda longa que balançava sem parar. "Porque está chorando?" perguntou ele. "Quem é você?" retrucou ela. "Não se preocupe com isso." continuou o bichinho. "Porque terei que fazer uma coisa que não sei. Se não a fizer, estarei perdida." E contou-lhe a história toda, desde o começo. "Esteja tranquila, pois vou ajudá-la. Todas as manhãs, baterei à sua janela para apanhar a linha e, à noite, trarei as cinco meadas prontas." "Que lhe darei em troca deste favor?" perguntou ela. "Você terá que adivinhar meu nome, ou eu contarei tudo a seu marido." "Está bem!" concordou ela. Balançando a cauda, o animalzinho retirou-se.

No dia seguinte, o Rei levou-a ao quarto onde já estava a linha para fiar. Fechou a porta por fora e foi-se embora. Mal ele havia saído, bateram de leve à janela. A moça foi espiar e lá estava o animalzinho preto. Ela então lhe entregou a linha. À noitinha, a moça ouviu nova pancada na janela. Abriu-a e seu protetor colocou em suas mãos cinco meadas muito bem fiadas. "Agora, responda-me, qual é o meu nome?" perguntou ele. "Será Juquinha?" O bichinho sacudiu a cabeça negativamente. "Será Tonico?" Ele continuou a sacudir a cabeça e balançava a cauda cada vez mais depressa. "Será Maneco?" "Não!" disse ele e saiu correndo. Quando o Rei voltou, à noite, encontrou as meadas prontas e disse: "Muito bem, minha querida. Amanhã você receberá mais linha para continuar sua tarefa."

E assim sempre acontecia. Pela manhã lhe traziam a linha e, às horas certas, um empregado aparecia com as refeições. O animalzinho preto aparecia cedo para apanhar a linha e voltava ao anoitecer, trazendo as meadas prontas. A moça passava os dias pensando qual seria o nome do bichinho, mas nunca o descobria. Afinal, chegou a véspera do último dia. À noite, quando o animalzinho apareceu, perguntou-lhe: "Já descobriu meu nome?" Ela fez novas tentativas: "Chiquinho? Janico?" Cada vez o bichinho sacudia mais a cauda e seus olhinhos brilhavam, cheios de malícia. "Escute, você só tem o dia de amanhã para adivinhar, do contrário..." Avisou ele, e saiu correndo.

A moça ficou horrorizada. Logo a seguir, ouviu os passos de seu marido que vinha vindo. Quando ele entrou, ela lhe entregou as cinco meadas prontas e ele lhe disse: "Amanhã é o último dia. Tome cuidado, se não aprontar sua tarefa, perderá a vida. Hoje vou jantar aqui com você." Entrou um empregado trazendo o jantar e outro banquinho para o Rei. Os dois sentaram-se e o Rei começou a rir. "Porque está rindo?" perguntou a moça. "Porque hoje vi uma coisa muito interessante." respondeu ele. Pela manhã, saí para caçar. Fui andando pela mata e cheguei a um lugar que nunca havia visto antes. Sentei-me um instante para descansar e ouvi um barulhinho estranho. Levantei-me para verificar o que havia. Olhei para todos os lados e, afinal, atrás de uma árvore, descobri um animalzinho preto, muito pequeno e esquisito, com uma cauda comprida que agitava sem parar. À sua frente estava uma roca, onde ele fiava com rapidez espantosa. Enquanto fazia isso, ia cantando: "Eu sou todo pretinho, pareço um tição. Meu nome é Tiquinho, Tiquinho de Carvão."

O coração da moça deu um salto ao ouvir isso. Ela quase gritou de alegria, mas conservou-se muito quietinha no banco, sem dizer palavra. Na manhã seguinte, o bichinho veio apanhar a linha. Quando a noite já vinha chegando, apareceu ele, trazendo de volta as meadas. Seus olhinhos brilhavam mais maliciosos do que nunca e a caudinha girava sem parar um instante. "Qual é o meu nome?" perguntou ele. "Será Salomão?" indagou ela. "Não." respondeu ele. "Zebedeu?" tornou a perguntar a moça. "Não, entretanto, vou dar-lhe mais uma oportunidade. Se ainda não acertar, já sabe o que vai acontecer..." A moça deu uma grande gargalhada e disse: "Tu és todo pretinho, pareces um tição. Teu nome é Tiquinho, Tiquinho de Carvão."


Quando o animalzinho ouviu isso, deu um guincho horrível, saiu correndo pela escuridão a dentro e nunca mais apareceu. Mais tarde veio o Rei. Apanhou as meadas e tirou a moça do quarto. No dia seguinte, ofereceu um banquete à esposa, para o qual convidou todas as pessoas da cidade. Havia, na mesa, as tortas mais deliciosas que se possa imaginar. A moça, no entanto, lembrando-se dos maus momentos por que tinha passado, por ter comido cinco tortas de uma vez, não quis provar nenhuma...

A velhinha e o porco, de Joseph Jacobs


A velhinha e o porco

Joseph Jacobs

Era uma vez uma pobre velha que vivia sozinha. Um dia, estava varrendo o quintal e encontrou uma moeda. "Que farei com esse dinheirinho?" pensou ela. "Ah, já sei. Irei ao mercado e comprarei um porquinho para me fazer companhia." E assim fez. Quando voltava do mercado, teve que passar por uma pinguela. Mas o porquinho não quis atravessá-la.

A velhinha foi mais adiante e encontrou um cão. - Cachorrinho, por favor, morde o porco que não quer atravessar a pinguela e, por isso, eu não posso voltar para casa. - O cão não lhe deu atenção.

Ela foi mais adiante e encontrou uma vara. Pediu-lhe, então: - Varinha, bate no cão; ele não quer morder o porco, que não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - A vara não lhe deu importância.

A velhinha andou um pouco mais e encontrou um fogo. - Foguinho, queima a vara; ela não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - O fogo nada fez.

Ela continuou andando e encontrou a água. Pediu-lhe: - Água, apaga o fogo; ele não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - A água não a atendeu.

A velhinha foi andando e encontrou um boi. Disse-lhe: - Boizinho, bebe a água; ela não quer apagar o fogo; o fogo não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - O boi não a ouviu.

Mais adiante, ela encontrou um açougueiro e lhe falou: - Açougueiro, mata o boi; ele não quer beber a água; a água não quer apagar o fogo; o fogo não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - O açougueiro não lhe respondeu.

A velhinha andou mais um pouco e encontrou uma corda. - Corda, enforca o açougueiro; ele não quer matar o boi; o boi não quer beber a água; a água não quer apagar o fogo; o fogo não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - Mas a corda não ouviu.

Mais adiante, ela encontrou um ratinho e lhe pediu: - Ratinho, rói a corda; ela não quer enforcar o açougueiro; o açougueiro não quer matar o boi; o boi não quer beber a água; a água não quer apagar o fogo; o fogo não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa. - O rato nada fez.



A pobre velhinha andou mais um pouquinho e encontrou um gato. E assim lhe falou já desanimada: - Gatinho, por favor, caça o rato; ele não quer roer a corda; a corda não quer enforcar o açougueiro; o açougueiro não quer matar o boi; o boi não quer beber a água; a água não quer apagar o fogo; o fogo não quer queimar a vara; a vara não quer bater no cão; o cão não quer morder o porco; o porco não quer atravessar a pinguela e eu não posso voltar para casa.

O gato então lhe respondeu: - Se a senhora for até aquela vaca e me trouxer um pires de leite, eu caçarei o rato.

A velha foi até a vaca e esta lhe disse: - Se a senhora for até aquele monte de feno e me trouxer uma porção dele, eu lhe darei o leite.


Ela foi até o monte de feno e trouxe uma porção para a vaca. Assim que a vaca comeu o feno, deu o leite à velhinha. Ela levou o leite, num pires, ao gato. O gato bebeu o leite e pôs-se a caçar o rato. O rato começou a roer a corda. A corda começou a enforcar o açougueiro. O açougueiro começou a matar o boi. O boi pôs-se a beber a água. A água começou a apagar o fogo. O fogo pegou na vara. A vara bateu no cão. O cão mordeu o porco. O porco atravessou a pinguela e a velhinha voltou para casa.

Catarina Quebra-Nozes, de Joseph Jacobs


Catarina Quebra-Nozes
Joseph Jacobs

Era uma vez um rei e uma rainha, como os que reinavam em muitas nações. O rei tinha uma filha chamada Ana, e a rainha tinha outra chamada Catarina. Ana era muito mais bonita que a filha da rainha, mas gostavam uma da outra como verdadeiras irmãs. Sentindo inveja da filha do rei por ser mais bonita que a sua Catarina, a rainha procurou um meio de estragar a beleza dela. Assim, foi se aconselhar com a dona Galinha, que lhe disse para mandar a mocinha ir vê-la na manhã seguinte, de jejum.
Na manhã seguinte, bem cedo, a rainha disse a Ana:
“Vá, minha querida, até a dona Galinha, na ravina, e peça- lhe alguns ovos.” Lá se foi Ana, mas, vendo um pedaço de pão ao passar pela cozinha, pegou-o e foi mastigando pelo caminho afora.
Ao chegar à dona Galinha, pediu os ovos, como lhe haviam mandado fazer. A dona Galinha lhe disse: “Levante a tampa daquela panela ali e veja.” A mocinha obedeceu, mas não aconteceu nada. “Volte para sua mãe e diga-lhe para manter sua despensa bem trancada”, disse a dona Galinha. Assim ela voltou para casa e contou à rainha o que a galinha dissera. Com isso, a rainha soube que a mocinha tinha comido alguma coisa. Na manhã seguinte ficou muito atenta e despachou a princesa de jejum. Mas ela viu uns camponeses colhendo ervilhas à beira do caminho e, sendo muito gentil, falou com eles e pegou um punhado de ervilhas, que foi comendo pelo caminho.
Quando chegou à dona Galinha, esta disse: “Levante tampa da panela e verá.” Ana levantou a tampa do recipiente, mas nada aconteceu. Dona Galinha ficou terrivelmente zangada e disse a Ana: “Diga para sua mãe que a panela não vai ferver se o fogo estiver apagado.” Ana voltou para casa e contou isso à rainha. No terceiro dia a rainha foi pessoalmente com a menina até a dona Galinha. Ora, dessa vez, quando Ana levantou a tampa da panela, sua linda cabeça despencou e uma cabeça de ovelha pulou no seu pescoço.
Muito satisfeita, a rainha voltou para casa. Sua própria filha, Catarina, no entanto, pegou um fino pano de linho, envolveu com ele a cabeça da irmã e tomou-a pela mão. Assim partiram, em busca da sorte. Andaram, andaram e andaram até que chegaram a um castelo. Catarina bateu à porta e pediu pousada por uma noite para ela e uma irmã doente. Ao entrar, descobriram que era o castelo de um rei. Esse rei tinha dois filhos e um deles estava muito doente, à beira da morte, e ninguém conseguia descobrir qual era o seu mal. O curioso era que toda pessoa que o velava durante a noite desaparecia para nunca mais. Por isso o rei oferecera uma burra de prata a quem se dispusesse a ficar com ele. Ora, Catarina era uma menina muito corajosa, e se ofereceu para cuidar do príncipe.
Até a meia-noite, tudo correu bem. Quando as doze badaladas soaram, porém, o príncipe doente levantou-se, vestiu-se e se esgueirou escada abaixo. Catarina seguiu-o, mas ele não pareceu notar. O príncipe foi até o estábulo, selou seu cavalo, chamou seu cão de caça, pulou na sela e Catarina pulou lepidamente atrás. E lá se foram o príncipe e Catarina pela floresta. Catarina ia arrancando nozes das árvores e enchendo com elas seu avental. Cavalgaram e cavalgaram até chegar a um monte verdejante. Ali o príncipe refreou o cavalo e disse: “Abra, abra, monte verdejante, e deixe entrar o jovem príncipe com seu cavalo e seu cão.” E Catarina acrescentou: “E sua dama atrás de si’.
Imediatamente o monte verdejante se abriu e eles entraram. O príncipe penetrou num salão magnífico, feericamente iluminado, e muitas lindas fadas o cercaram e o chamaram para dançar. Enquanto isso, sem ser notada, Catarina escondeu-se atrás da porta. Dali viu o príncipe dançando, e dançando, até que não pôde dançar mais e desabou sobre um divã. As fadas se puseram então a abaná-lo, até que ele conseguiu se levantar e continuar dançando. Finalmente o galo cantou e o príncipe tratou de montar de novo seu cavalo a toda pressa; Catarina pulou atrás e rumaram para casa. Quando o sol da manhã se levantava, foram ao quarto do príncipe e encontraram Catarina sentada junto ao fogo, quebrando suas nozes. Contou que o príncipe tivera uma boa noite, mas que não velaria por ele mais uma noite a menos que ganhasse uma burra de ouro. A segunda noite transcorreu como a primeira, O príncipe se levantou à meia-noite e cavalgou até o monte verdejante e o baile das fadas, e Catarina foi com ele, colhendo nozes enquanto avançavam pela floresta. Dessa vez não espiou o príncipe, pois sabia que ia dançar, dançar e dançar. Mas viu urna fadinha-bebê brincando com uma varinha de condão e, sem ser notada, ouviu uma fada dizer a outra: “Três batidas com essa varinha de condão tornariam a irmã de Catarina tão linda como sempre foi.” Assim, Catarina começou a rolar nozes para a fada-bebê, e mais, e mais, até que a criança saiu cambaleando atrás dos frutos e deixou cair a varinha, que Catarina guardou no avental. E ao cantar do galo cavalgaram para casa como antes e, mais que depressa, ao entrar em seu quarto no palácio, Catarina tocou Ana três vezes com a varinha de condão. A repelente cara de ovelha caiu e ela voltou a ser linda como sempre.
Na terceira noite, Catarina só consentiu em velar o príncipe doente se pudesse se casar com ele. Tudo se passou como nas duas primeiras noites. Dessa vez a fadinha-bebê estava brincando com um passarinho. Catarina ouviu urna das fadas dizer: ”Três bocados deste passarinho devolveriam ao príncipe doente mais saúde do que ele jamais teve.” Catarina rolou todas as nozes que tinha para a fadinha-bebê, até o passarinho cair; guardou-o então no seu avental.
Ao cantar do galo partiram de novo, mas, em vez de quebrar suas nozes como costumava fazer, nesse dia Catarina depenou o passarinho e cozinhou-o. “Oh!” disse o príncipe doente. “Gostaria de um bocado desse passarinho:’ Assim Catarina deu-lhe um pedacinho da ave e ele se ergueu sobre os cotovelos. Dá um pouco exclamou de novo: “Oh, se eu pudesse comer mais um bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe mais um pedaço e ele se sentou na cama. Depois ele disse de novo: ”Ah, se pudesse comer um terceiro bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe um terceiro bocado e ele se levantou, forte e lampeiro, vestiu-se e foi se sentar junto ao fogo.

Quando o pessoal chegou na manhã seguinte, encontrou Catarina e o jovem príncipe quebrando nozes juntos. Nesse meio tempo, o irmão do príncipe vira Ana e caíra de amores por ela, como faziam todos que viam seu lindo rosto. Assim o filho doentio casou-se com a irmã sadia e o irmão sadio casou-se com a irmã doentia, e todos viveram felizes e morreram felizes e nunca beberam de um copo vazio.